Mostras e Festivais

Silêncios históricos e pessoais: Memória e subjetividade no documentário latino-americano contemporâneo

Mostra de documentários de Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai realiza-se na Caixa Cultural São Paulo entre 26 de março e 06 de abril de 2014.

Presença dos realizadores Cecilia Priego, Flavia Castro, Flavio Frederico, Herman Szwarcbart, Macarena Aguiló, Maria Clara Escobar, Mariana Pamplona e Viviana García Besné + conferência do pesquisador argentino Gonzalo Aguilar. Confira a grade de programação, sinopses dos filmes, trailers e o catálogo completo em www.mostrasilencios.com.br e acompanhe as novidades no Facebook.

Postal - Silêncios históricos e pessoais

Apresentação, pelos curadores Natalia Barrenha e Pablo Piedras

Novas vozes para novas identidades

Ao ser interrogada por seu pai sobre os objetivos de seu filme, Maria Clara Escobar, diretora de Os Dias com Ele, responde que seu documentário é uma reflexão sobre “os silêncios históricos e pessoais”. Pouco antes, a cineasta assinalava a este, o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, que buscava reconstruir uma memória ausente sobre a história dele, de sua família e, também, do Brasil e sua história política. Nestas duas passagens estão sintetizadas as características distintivas de uma nova forma de cinema documental que indaga as tensões entre história e memória, entre o familiar e o social, o público e o privado, o íntimo e o coletivo, através do prisma subjetivo de um autor que interpela a realidade, o passado e os outros, expondo sua voz e seu corpo em primeira pessoa.

A mostra Silêncios históricos e pessoais explora o vasto território do documentário latino-americano do século XXI a partir de uma seleção de 17 obras provenientes de Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai que dão conta da riqueza poética, estética e política daquilo que alguns teóricos como Bill Nichols (2006) e Stella Bruzzi (2006) denominaram “documentário performativo”.

Fenômeno chave para compreender a renovação formal, estilística e temática da não ficção contemporânea, a profusão de narrativas em primeira pessoa está em sintonia com transformações profundas na arte, na cultura e na política na América Latina. O cinema documentário – previamente negligente às manifestações subjetivas do autor no seio do texto fílmico – converte-se em veículo (e, desde então, em expoente privilegiado) da necessidade dos sujeitos sociais de repensar suas identidades no marco dos discursos do real.

Esta mostra constitui-se, assim, em uma oportunidade valiosa para assistir conjuntamente a filmes que marcaram os caminhos mais provocativos do cinema da região na última década, e entre os quais se vislumbram confluências tão evidentes como inesperadas: os diálogos, conflitos ou tour de force entre filhas e pais (Diário de uma Busca, Espeto de Pau, Família Típica, Os Dias com Ele, Os Loiros, Papai Iván); as travessias históricas e familiares (Fotografias, O Eco das Canções, O Prédio dos Chilenos, Segredos de Luta, Um Pogrom em Buenos Aires); as pesquisas pessoais, políticas e cinematográficas (A Garota do Sul, Em Busca de Iara, M, Perdida); e as reflexões de cineastas e militantes políticos (Diga a Mario que Não Volte, Rua Santa Fe).

O surgimento de narrativas em primeira pessoa no documentário latino-americano expressa, no terreno do audiovisual, novas identidades políticas, sociais, culturais e de gênero que, embora tenham sido representadas no documentário precedente, não constituíam a fonte e o eixo de validação da enunciação. As condições para a irrupção dessas novas vozes estão dadas por um processo de subjetivação dos discursos do cinema documental regional e internacional, assim como pela formação de um “espaço biográfico” (Arfuch, 2010) que atravessa distintas esferas do campo cultural – a literatura, as artes plásticas, o teatro, os meios massivos de comunicação, internet, etc. – da década de 1990 em diante. Contudo, o fenômeno não se limita à expressão de novas vozes e identidades, mas implica uma transformação profunda no estatuto epistêmico do documentário pelo modo expressivo em que modifica seus pactos comunicativos com o espectador, suas formas de se aproximar ao real e seus modos de representar o outro.

Família típica (1)A questão filial

Uma voz feminina em off narra a história de seu pai; as imagens repõem, em branco e preto, o registro visual de um caminho observado a partir de um veículo em movimento. Em um terraço, uma mulher pendura ao sol, com prendedores, fotografias familiares, como se se tratasse de roupa recém-lavada. Quando cai a tarde, uma câmera montada sobre uma lancha observa o reverso da cidade de Asunción, enquanto o rio se contorce e as cores alaranjadas se apoderam do céu. Outra voz feminina em off reconstrói o assassinato de seu pai a partir de materiais de arquivo da imprensa. Sentado em um pátio, um homem espera – impaciente e olhando à câmera frontalmente – o começo de uma entrevista.

As cenas descritas pertencem, respectivamente, às primeiras sequências de Papai Iván (María Inés Roqué, 2004), Família Típica (Cecilia Priego, 2009), Espeto de Pau (Renate Costa, 2010), Diário de uma Busca (Flavia Castro, 2010) e Os Dias com Ele (Maria Clara Escobar, 2013). Estes trabalhos compartilham a particularidade de estarem dirigidos por mulheres que, de forma autobiográfica, abordam na condição de filhas a história de seus pais. Ainda que os relatos que discorrem no seio da família – pouco frequentes no documentário tradicional – sejam uma constante em quase todos os filmes da mostra, o peculiar dessas produções é que o conflito dramático enfrenta filhas com pais presentes e ausentes. Assim como as cineastas contam como as escolhas de vida de seus respectivos pais condicionaram o destino de cada uma delas a partir de carências afetivas ou de omissões no relato sobre o passado, seus documentários se convertem em práticas sócio-estéticas de reparação e, sobretudo, de recuperação da potência das filhas para organizar novos relatos nos quais a identidade e a herança são objetos de reflexão e interrogação.

Em Papai Iván, a atividade de rememoração empreendida pela cineasta tende a decompor o discurso histórico. Juan Julio Roqué, pai de María Inés, foi um reconhecido militante das Fuerzas Armadas Revolucionarias (FAR) assassinado em uma brutal operação da ditadura militar argentina em 1977. O ato de memória impulsionado pela cineasta busca penetrar esse grande relato heroico e compacto, com o fim de compreender as razões que motivaram seu pai a se converter em militante, abandonando, assim, seu papel na estrutura familiar e, especialmente, no vínculo filial.

Cecilia Priego, em Família Típica, desentranha uma intriga familiar que também tem seu pai como protagonista. A ideia de “tipicidade” se refere ao relato de uma família ordinária, não excepcional; uma família como tantas outras, uma família típica. Entretanto, detrás da regra se encontra a exceção e sob a suposta normalidade se esconde uma história paterna oculta e, com ela, a existência de outra família, outra esposa e outra filha. No início, a mãe diz à realizadora duas frases que sintetizam o modo como uma geração se relacionou com seu passado: “Na vida há coisas que não se podem reconstruir” e “Vocês [os filhos] nunca entenderam que há coisas que existem e não te perturbam”. É possível afirmar que Família Típica se constrói sobre o questionamento dessas duas ideias que, no fundo, se encontram intimamente ligadas.

Diário de uma Busca destrincha a história política brasileira dos anos 1960 e 1970 mediante uma complexa articulação com a memória pessoal da realizadora. Seu pai, Celso Castro, foi um jornalista e ativista político comprometido com os movimentos revolucionários da época, encontrado morto em circunstâncias não esclarecidas em 1984. A diretora refaz, junto a seu irmão (e, parcialmente, a sua mãe) a trajetória de deslocamentos que marcou sua vida familiar, estreitamente ligada aos vaivéns da política latino-americana do período. A partir da movimentação espacial, reconstrói o mundo de ideias e de afetos no qual seu pai estava inscrito e coloca em tensão os diversos registros sobre o passado (sua própria memória, as cartas do pai, as lembranças da família e dos amigos) em uma narrativa que repõe, cinematograficamente, os paradoxos da rememoração.

Os Dias com Ele e Espeto de Pau põem em cena, exemplarmente, as dificuldades que duas filhas encontram para se comunicar com seus pais e para que eles aceitem seus pontos de vista e projetos. Igualmente, existe certa impermeabilidade no acesso que os pais brindam a seu mundo interior. Se, por um lado, os pais permitem serem filmados, por outro – cada um a sua maneira – desconfiam do filme que os terá como protagonistas. Os momentos mais cativantes da obra de Maria Clara Escobar são aqueles nos quais Carlos Henrique crê que a câmera está desligada ou quando se prepara para ser filmado. Aí, expressa as arestas de uma personalidade que se adivinha complexa e avassaladora, tentando de diversos modos intervir sobre o projeto de sua filha, isto é, sobre os traços que conformarão seu retrato – retrato ou autorretrato, essa parece ser a questão. Já Renate Costa efetua um duplo retrato: o de seu pai (presente) e o de seu tio (ausente). No âmbito de sua própria família se encontram os conflitos e as disputas socioculturais que são sinédoque da história comum do coletivo. Espeto de Pau demonstra que a exclusão, a perseguição e a discriminação sofridas por seu tio durante os anos da ditadura militar de Stroessner ainda ressoam nos discursos sociais contemporâneos.

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A memória e a história em movimento

A não ficção contemporânea tende a privilegiar relatos nos quais a mobilidade e os deslocamentos são elementos centrais para indagar o passado, dado que funcionam como ativadores da memória e promovem a reconstrução histórica. Ainda que – a partir de uma perspectiva temática – o exílio e as migrações tenham penetrado nas poéticas de cineastas latino-americanos desterritorializados desde fins de 1970, a figuração visual da mobilidade espacial como signo de traslados culturais, sociais e políticos (e, sobretudo, de indagações sobre a identidade e a memória) é um sinal verificável em um amplo espectro de documentários a datar de 2000. Frente a certo “sedentarismo visual” presente nas obras testemunhais dos anos 1980 e 1990, que organizavam seus discursos mediante a montagem de entrevistas e materiais de arquivo, os documentários recentes expressam em seus dispositivos narrativos diversas formas de mobilidade: recorridos com câmera na mão por lugares significativos para a memória, longos travellings filmados com câmeras localizadas em automóveis, ônibus, trens e até aviões, extensos planos sobre álbuns fotográficos, etc.

Em Fotografias (2007), o diretor Andrés Di Tella concentra sua investigação no âmbito da família: filma dentro de sua própria casa e sua mulher, filho e amigos participam do jogo. Para o cineasta, averiguar a história de sua mãe é a maneira de recuperar um universo cultural e étnico que faz parte de sua herança e do qual pouco conhece. Na segunda parte do documentário, Di Tella empreende uma viagem à Índia acompanhado pela mulher e pelo filho com o objetivo de mergulhar ainda mais sobre o passado e as origens de sua mãe. Em seu percurso por diferentes povoados hindus, entabula contato com parentes longínquos, com quem compartilha um vínculo paradoxal: se parecem bastante a ele, mas seus costumes, valores e cultura são bastante discrepantes.

Um Pogrom em Buenos Aires (2007) combina a indagação da memória familiar de seu diretor, Herman Szwarcbart, e a pesquisa histórica sobre o primeiro pogrom antijudeu da Argentina. O filme tenta saldar o hiato existente entre a geração que ainda mantém as tradições da cultura ídiche e foi vítima do pogrom (representada, no documentário, pelo avô de 95 anos de Herman) e a geração do cineasta, caracterizada por pertencer a uma comunidade cuja história, cultura e idioma parcialmente desconhece. A realização do documentário implica um gesto de reparação histórica e um ato de restituição de um fato marginalizado da memória coletiva.

Em Segredos de Luta (2007), Maiana Bidegain, partindo do País Basco francês, conduz, junto a seu pai, uma viagem de retorno ao Uruguai com o objetivo de compreender as razões do compromisso e militância política de sua família e a posterior diáspora devido ao golpe de Estado. Ao conversar com alguns de seus sete tios, a cineasta compreende que existem “segredos de luta” que ainda hoje resistem a ser revelados, e se pergunta até onde ela tem direito a forçar seus familiares a olhar para trás. Este questionamento é um dos grandes dilemas éticos e políticos que recorrem os documentários da pós-memória.

A transparência e organicidade narrativas do filme de Bidegain contrastam com a opacidade e a gama de recursos expressivos que Antonia Rossi, em O Eco das Canções (2010), utiliza para figurar o golpe de Estado de 1973 no Chile, os anos do exílio (a vida em “terra emprestada”, segundo se assinala no filme), a recuperação da democracia e o retorno ao país. A realizadora explora a memória através de suas mediações e dos diversos suportes que a alimentam e configuram: desenhos animados, fotografias, imagens de televisão, sons alterados. Todos esses materiais são processados de maneira fragmentária com o fim de evitar as referências diretas ao passado e, assim, expor os viscosos processos associados à rememoração.

O território dos imaginários, dos sonhos e das fantasias é também a principal matéria da reflexão de Macarena Aguiló em O Prédio dos Chilenos (2010). Através de múltiplos materiais que fizeram parte de sua infância e adolescência (cartas, fotos, desenhos, filmagens, brinquedos), a diretora relata sua experiência no Proyecto Hogares (Projeto Lares), uma iniciativa alternativa de educação e formação coletiva levada a cabo por um conjunto de exilados chilenos na França e em Cuba. No filme de Aguiló, percebe-se como, neste tipo de narrativas sobre família e filiação, é frequente a aparição dos filhos dos realizadores, como se quisessem manifestar que é possível construir outros modelos familiares apesar de suas heranças.

A garota do sul (1)As narrativas de busca

Se o documentário canônico, definido como “discurso de sobriedade” (Nichols, 1997), se caracterizava por brindar a sensação de que a realidade é um fato cognoscível sobre o qual o filme pode realizar uma série de proposições razoavelmente válidas e afirmativas, uma zona do documentário contemporâneo tende, cada vez mais, à dúvida e à incerteza. As perguntas não deixam de se formular, mas as obras são reticentes a oferecer respostas sólidas e efetivas. Se o encontro com a verdade é esquivo na não ficção atual, as retóricas da busca e da pesquisa não deixam de marcar aquelas zonas ambíguas do passado que requerem ser transitadas mesmo quando a possibilidade de esclarecimento parece estar vedada. Jean-Claude Bernardet (2005) antecipa algumas das características dos documentários de busca: o eu do cineasta se formula enquanto personagem; são filmes “em processo”, o relato está dominado pela dubiedade e o fechamento total da pesquisa torna-se inviável.

O espírito performativo que caracteriza Os Loiros (Albertina Carri, 2003) o converte em um documentário que, embora remeta irremediavelmente a uma cena traumática do passado, constitui sua narrativa no tempo presente. O filme de Carri evade qualquer tentativa de estabelecer uma cronologia dos fatos que levaram ao desaparecimento de seus pais, com o objetivo de ativar certas imagens-lembrança que resultam significantes para responder pessoais e intransferíveis interrogantes do presente. Em vez de um relato histórico, organiza-se um tecido precário de alguns acontecimentos do passado, sobre os quais tampouco é possível atribuir uma cota elevada de certeza.

M (Nicolás Prividera, 2007) é um filme fortemente marcado pela necessidade de compreender intelectualmente a história pessoal e o passado recente do país. O diretor leva os questionamentos do âmbito pessoal ao social. Na segunda sequência, isso é visualizado nas entrevistas que Magdalena Ruiz Guiñazú e uma jornalista estrangeira fazem ao realizador. Nelas, ante as perguntas pessoais, o cineasta evita o discurso afetivo, concentrando suas respostas no terrorismo de Estado e abordando os desaparecidos como problemas que dizem respeito a todo o corpo social.

Perdida (Viviana García Besné, 2009) se desenvolve em um terreno fronteiriço entre o relato pessoal-familiar e o relato histórico-cultural. É que a diretora, guia da narração com sua pausada e sugestiva voz off, encontra-se em uma posição de privilégio que poucos realizadores do documentário em primeira pessoa detém: o ato de contar sua história familiar se converte em uma abordagem de boa parte da história do cinema industrial mexicano entre 1920 e 1980. No transcurso do filme, García Besné é progressivamente cooptada por uma fábula carregada de épica e elementos que roçam o fantástico e, sem querer (ou querendo), se transforma na porta-voz ideal do mandato familiar.

Alheia e distante, Lim Sukyung é o centro de gravidade que convoca a atenção de José Luis García em A Garota do Sul (2012). Passados muitos anos de ter se deslumbrado com essa figura na Coreia do Norte, a extensão e o desenvolvimento das redes virtuais de comunicação permitem ao realizador saber o paradeiro da “garota do sul”, e ela aceita recebê-lo em sua terra natal. O longínquo país já não parece tão inacessível e “a rosa da reunificação” passou de ser uma personalidade excepcional a um indivíduo de carne e osso, algo esquivo, mas com o qual é possível construir um vínculo afetivo. A Garota do Sul demonstra a decisiva inter-relação existente entre mobilidade e subjetividade no documentário latino-americano contemporâneo, assim como o encurtamento das distâncias entre sujeitos que, à primeira vista, pareciam estar nas antípodas culturais e geográficas.

Assim como Diário de uma Busca começava com as imagens da cobertura de imprensa do assassinato de Celso Castro, Em Busca de Iara (Flavio Frederico, 2013) se inicia com a notícia televisiva da tentativa de exumação, em 2003, dos restos de Iara Iavelberg, tia de Mariana Pamplona (roteirista, pesquisadora e produtora do filme). O contato com os companheiros de militância de Iara permite a Pamplona refazer sua trajetória sentimental e política e desconstruir muitas das versões que se geraram em torno de seu suposto “suicídio”, sendo que a casa onde se encontrava havia sido invadida. Esta obra aborda sutilmente as relações entre gênero, militância e política, uma problemática não suficientemente transitada no cinema documentário sobre os anos 1970.

Cuchillo de palo (5)De partidas e retornos

Os filmes Rua Santa Fe (Carmen Castillo, 2007) e Diga a Mario que Não Volte (Mario Handler, 2007) exploram as marcas deixadas pelo terrorismo de Estado no Chile e no Uruguai nos anos em que os realizadores, militantes políticos comprometidos na década de 1970, tiveram que se exilar para salvar suas vidas. Em Rua Santa Fe, Castillo elabora o luto por seu companheiro Miguel Enríquez como peça chave para compreender o presente histórico e tentar cicatrizar as feridas de um passado ainda doloroso. Essa experiência individual é, talvez, intransferível, e o modo cinematográfico de representá-la vislumbra o dificultoso salto do pessoal ao público que, em alguma medida, outras obras em primeira pessoa tentam levar a cabo. Trata-se de uma narrativa de retorno na qual o reencontro com os lugares, paisagens e pessoas do passado ativa processos de rememoração compostos por diversas camadas temporais que Carmen Castillo conjuga dialeticamente, dotando o relato histórico das afecções próprias de um sujeito marcado pelos traumáticos acontecimentos pretéritos.

Diga a Mario que Não Volte examina os caminhos daqueles que ficaram a partir da perspectiva daquele que se foi. Por meio de uma série de entrevistas a vítimas e carrascos, Handler demonstra uma capacidade sobressalente para a escuta e gera, assim, a confiança para que os relatos mais crus das experiências durante a ditadura se manifestem frontalmente, desviando certas versões épicas e coaguladas sobre o passado recente.

A pluralidade de problemáticas políticas, sociais e culturais expostas por essas novas vozes surgidas no documentário latino-americano da última década permite compreender que as enunciações em primeira pessoa não são um traço exclusivo de um movimento ou de uma geração, nem de um olhar uniforme sobre o passado, a realidade e os seres que nela habitam. Pelo contrário, aqueles silêncios históricos e pessoais aos quais se referia Maria Clara Escobar só parecem poder conjurar-se a partir de subjetividades heterogêneas que assumam suas limitações e dúvidas ante o desafio enorme de representar o real.

Bibliografia

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico. Dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.
BERNARDET, Jean-Claude. “Documentários de busca: 33 e Passaporte húngaro” in LABAKI, Amir e MOURÃO, Maria Dora (orgs). O cinema do real. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
BRUZZI, Stella. “El documental performativo” in SICHEL, Berta (org).  Postverité. Murcia: Centro Párraga, 2006.
NICHOLS, Bill. La representación de la realidad. Barcelona: Paidós, 1997.
______. “El documental performativo” in SICHEL, Berta (org). Postverité. Murcia: Centro Párraga, 2006.

SERVIÇO:
Data: de 26 de março a 06 de abril de 2014
Horário: de terça-feira a domingo, às 15h
Local: CAIXA Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111
Informações (11) 3321 4400
Entrada: franca (os ingressos poderão ser retirados na bilheteria com uma hora de antecedência)
Capacidade: 50 lugares
Acesso para pessoas com necessidades especiais
Patrocínio: Caixa Econômica Federal

Catálogo completo

Cartaz - Silêncios históricos e pessoais

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