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Cinema no Centro

O emocionante despertar das cinematografias centro-americanas, que entre 2001 e 2011 já produziram o dobro de filmes que em todo o século XX na região.

De um lado, Blacko, lenda do heavy metal. De outro, Don Alfonso, marimbeiro que se encontra em sérias dificuldades para viver de suas apresentações. O cineasta guatemalteco Julio Hernández Cordón imaginou e realizou o encontro dos dois em seu longa Las Marimbas del Infierno (2010), no qual esses personagens formam uma banda cuja sonoridade vem de uma fusão absurda: a doce melodia da marimba e o rock pesado.

Em El Hombre de Una Sola Nota (1989), curta do diretor nicaraguense Frank Pineda, um homem caminha por uma cidade destruída e ocupada pelo exército. Após uma viagem cheia de horrores, ele entra em um edifício, onde uma orquestra ensaia. Logo, ele estará sobre o palco e participará da música tocando uma nota só.

Vinte anos separam os filmes de Cordón e Pineda. Las Marimbas narra as situações desesperadoras que envolvem a ideia improvável de mesclar as músicas de Blacko e Don Alfonso. É a odisseia daqueles que pretendem viver de sua arte. No caso do filme de Pineda, a resistência se dá em face do caos da guerra.

Apesar das semelhanças temáticas que unem essas produções, muita coisa mudou no cinema centro-americano nessas duas décadas. Uma prova é que Las Marimbas del Infierno viajou o mundo de festival em festival e arrebatou diversos prêmios, seguindo o rastro do primeiro longa de Cordón, Gasolina (2008). Pineda, ainda em 1989, fundou uma produtora com Florence Jaugey. Em 2009, depois de anos fazendo curtas e documentários, eles realizaram La Yuma, o primeiro longa-metragem nicaraguense de ficção em 21 anos, recebido de braços abertos dentro e fora do país.

Cinema em Construção

As imagens produzidas na “doce cintura da América”, como Pablo Neruda apelidou o istmo, são enormemente desconhecidas e, como comenta a pesquisadora costarriquenha María Lourdes Cortés, aparecem timidamente na história do cinema mundial. “Poucos sabem que as primeiras filmagens da região datam do começo do século XX e que um diretor guatemalteco, Marcel Reichenbach, ganhou o Prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cannes por duas vezes: em 1957 e 1959”, afirma.

Antes dos anos 1970, a América Central teve uma produção descontínua, que caiu no esquecimento ou foi destruída pelas guerras e desastres naturais. Essa década e a seguinte configuraram-se como uma espécie de “era de ouro” do cinema centro-americano. Naquele momento, o istmo encontrava-se em chamas, mergulhado em conflitos armados. Todos os países iniciaram uma busca pela identidade nacional através do celuloide, acompanhada pelo desejo de desenvolver uma cinematografia própria, crítica, popular. Pela primeira vez na região, refletiu-se sobre a importância do cinema na sociedade, e a produção centro-americana nasceu para o mundo nos documentários que ecoavam as lutas insurrecionais.

Esse cinema combativo e prolífico foi se desmantelando com a pacificação da região nos anos 1990. A pequena infraestrutura independente que se armou deu conta da produção de muitos trabalhos para a TV e curtas documentais, e apenas dois longas foram realizados durante a década: El Silencio de Neto, do guatemalteco Luis Argueta, e Alejandro, do salvadorenho Guillermo Escalón. Entretanto, com a chegada do novo século, o cinema da região mergulhou em um momento de entusiasmado despertar: entre 2001 e 2011, produziu-se o dobro dos filmes de todo o século XX na região.

Além do acesso à tecnologia de baixo custo, que no mundo inteiro facilitou a produção e a difusão de cinema, há alguns outros fatores que propiciaram esse boom, como explica o pesquisador e cineasta hondurenho Hispano Durón, diretor de Anita, la Cazadora de Insectos (2001): “Desenvolveu-se uma forte relação com a Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba, e também nasceram possibilidades de profissionalização por aqui, com cursos pipocando em vários lugares. Há canais de promoção, como o Festival Ícaro, que é realizado na Guatemala desde 1998, e a Muestra de Cine y Video Costarricense”. Há pouco, no fim de abril, houve a primeira edição do Festival Internacional de Cine de Panamá, impulsionado por um dos fundadores do influente Festival de Toronto. A panamenha Pituka Ortega, diretora de Los Puños de una Nación (2005), celebrou a realização do festival em um momento significativo para o audiovisual do país: “Alguns dias depois da aprovação da nossa lei de cinema!”.

Outro marco da explosão do cinema na região foi o nascimento, em 2004, do Cinergia – Fondo de Fomento al Audiovisual de Centroamérica y el Caribe, criado e dirigido por María Lourdes Cortés. “Não é somente uma questão dos fundos, mas é expressivo como proporciona uma estrutura às pessoas, um lugar por onde começar. E acho que, quando alguém se arrisca pela primeira vez, outros percebem e assim a produção vai crescendo”, opina Paz Fábrega, costarriquenha diretora de Agua Fría de Mar (2009).

Uma incrível pluralidade de propostas faz parte desse cinema em construção. Para Durón, uma tendência forte tem sido a revisão do passado recente, que se centra nos conflitos dos anos 1980 como as guerras civis e o desaparecimento de pessoas: Las Cruces, Poblado Próximo (Rafael Rosal, 2006), El Último Comandante (Vicente Ferraz e Isabel Martínez, 2010) e Polvo (Julio Hernández Cordón, que estreia neste ano) são alguns exemplos. María Lourdes identifica, grosso modo, duas tendências: o cinema comercial e o de autor. “O comercial busca atrair os jovens, acostumados com as imagens hollywoodianas, e há inúmeras produções que imitam filmes de terror ou ação. Há ainda as ‘neocomédias’ de costumes, que alcançam extraordinárias bilheterias em seus países de origem, como Amor y Frijoles (Mathew Kodath e Hernán Pereira, 2009), em Honduras; e Chance (Abner Benaim, 2009), no Panamá”, explica a diretora do Cinergia.

Mas também há espaço para filmes intimistas, poéticos, de estéticas mais arriscadas, que partem da América Central para conquistar festivais mundo afora (apesar de fracassarem com o público local). Paz Fábrega (que prepara seu segundo longa,Todos Nosotros), Ishtar Yasin (cujo debut, El Camino, de 2007, foi o primeiro longa centro-americano a participar do festival de Cannes), Verónica Riedel (Cápsulas, 2011), Sergio Ramírez (Distancia, 2011, que foi apresentado no festival brasileiro Cine Ceará, no começo de junho), Hernán Jiménez (El Regreso, 2011, e A Ojos Cerrados, 2010), Hilda Hidalgo (Del Amor y Outros Demonios, 2009) e Julio Hernández Cordón são apenas alguns dos nomes imprescindíveis do cinema centro-americano contemporâneo.

O contexto ainda é frágil: falta apoio tanto da iniciativa privada quanto do Estado e, principalmente, circulação e trocas internas. Entretanto, não deixa de ser um momento excitante, no qual, como bem descreve Paz, “se pode imaginar todas essas coisas que nunca foram contadas no cinema, e fazê-lo de um modo centro-americano, de um modo que ainda não foi visto. É pensar uma forma de ser e viver que ainda não foi realmente retratada”.

Blacko e Don Alfonso não estão sozinhos nessa epopeia.

(Publicado na edição junho-julho/2012 da revista Continuum, do Itaú Cultural. O texto pode ser visto online aqui, e a revista completa, em PDF, aqui)

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