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Reciclando papelão, prosa e poesia

*Texto de Natalia Barrenha e Fotos de Diego Cordes.

Lá em meados dos anos 1940, quando Borges concebeu o universo como uma biblioteca – composta por um número indefinido e infinito de galerias onde todos os livros de todos os tempos e todos os lugares descansavam -, teria ele imaginado a presença de alguns exemplares tão descontraídos como aqueles com algumas dezenas de folhas sulfite grampeadas e capas de papelão coloridas a guache?

O que poderia parecer conto fantástico latino-americano, hoje – algumas décadas e crises econômicas depois – é uma produção vigorosa e estabelecida, que nasceu há dez anos na Buenos Aires querida de Borges: uma editora cujos livros são feitos de maneira artesanal, utilizando o papelão recolhido nas ruas pelos catadores, conhecidos na cidade como cartoneros.

Ali pertinho do estádio La Bombonera, em uma esquina colorida e luminosa cercada por galpões cinzentos, está a Editora Eloísa Cartonera. Alejandro, Juan e Ricardo riem alto com alguns cartoneros que lhes trouxeram um tanto de papelão e aproveitaram para beber uma Coca-Cola. Nada interrompe o grampeia, gruda, empilha, amarra dos três: a energia e urgência do trabalho impedem que eu me sente, e enveredamos por uma conversa na qual eu sigo cada um em volta das mesas forradas de livros.

Eloísa veio ao mundo durante uma viagem de ônibus entre Santiago e Buenos Aires, a qual durou o dobro do programado devido a problemas mecânicos. O artista plástico Javier Barilaro e o escritor Washington Cucurto voltavam de uma feira de livros no país vizinho, onde haviam exposto os livros de cartolina da Ediciones Eloísa. Simultaneamente, a Argentina vivia um dos momentos mais apocalípticos de sua História: a crise econômica – social – política que fez o país desabar nos últimos dias de 2001, após dez anos de neoliberalismo selvagem by Carlos Menem.

De repente, a Argentina tinha milhões de desempregados, milhares de indústrias falidas, cinco presidentes em 12 dias, centenas de pessoas morrendo do coração com o susto que a desvalorização da moeda e o limite de saques bancários geravam. Os argentinos tomavam o espaço público para protestar, e a revolta uniu multidões de maneira espontânea. Após o caos, a energia gerada nesses dias estimulou formas colaborativas que se constituíram como a melhor maneira de enfrentar os tempos difíceis que continuariam por vir: assembleias de bairro, clubes de trocas e as uniões de operários lutando para salvar as fábricas onde trabalhavam foram atitudes coletivas fundamentais no processo de recuperação do país. Da mesma maneira, tal momento se configurou como um intenso laboratório de experimentação artística e cultural no qual as redes de solidariedade e a imaginação faziam frente à crise e suas consequências.

Foi nesse momento que o preço do papel subiu às nuvens, tornando impossível continuar as atividades da editora que Barilaro batizara com o nome de um antigo romance. Também nesse momento, os cartoneros – “profissão” totalmente nova entre os hermanos, apesar de bem conhecida pelos brasileiros – transformavam-se em figuras indissociáveis da paisagem urbana argentina. Cucurto e Barilaro, participantes já ativos das redes culturais que pipocavam por Buenos Aires, começaram a articular, naquele ônibus enguiçado, as possibilidades de fazer livros com capas de papelão.

Mucho más que libros

A primeira sede da Eloísa Cartonera era no bairro tangueiro de Almagro, perto do centro da cidade. Além da produção de livros, na qual eram incitados a participar qualquer um que estivesse por ali – leitores em potencial, escritores, cartoneros, filhos de cartoneros -, também funcionava no local uma verdulería, espécie de quitanda. Segundo um depoimento do escritor argentino Alan Pauls (autor de O passado, transformado em filme de Hector Babenco em 2008), colaborador habitual, o fascínio que exalava da primeira casa de Eloísa provocava desconcerto: ele não sabia se estava em uma editora, quermesse, oficina gráfica, laboratório de projeto social, comunidade pós-hippie… Um tempo depois, a Eloísa mudou-se para uma casa em La Boca, e há mais ou menos três anos está nessa esquina que visitamos, a duas quadras de seu segundo lar.

Apesar de sentir a mesma atmosfera festiva que descreve Pauls, o ambiente da Eloísa atual é bem diferente: estamos sim em uma editora – espaço assaz distante do que poderíamos imaginar como uma editora convencional, mas com certeza uma editora. Hoje a Eloísa é uma cooperativa, e há equipe fixa: além dos três moços que nos receberam (e que freneticamente montavam livros sobre o pintor Benito Quinquela Martín, encomendados para a festa que irá comemorar o 122º aniversário de nascimento desse ícone de La Boca), há ainda Miriam “La Osa” (“A Ursa”), ex-cartonera e cozinheira de mão cheia que está no projeto desde seus princípios, e Maria, que também não pudemos conhecer – ela machucara o pé um pouco antes de nossa chegada. Quando as capas de papelão precisam ser pintadas, são chamados dois empregados fixos, os quais tampouco vimos, pois já haviam finalizado suas tarefas. Barilaro afastou-se da editora para dedicar-se a seu trabalho de artista plástico, e Cucurto, apesar de não fazer parte do staff, está sempre acompanhando Eloísa. As funções de designer e editor foram alegremente abolidas, e há uma valorização do processo, em que todos vivem a produção do livro de forma profunda. Como disse Maria durante uma entrevista em 2009, “Nosso slogan é Muito mais que livros, e assim nós também somos muito mais que editores”.

Com o dinheiro da venda dos livros, paga-se todas as despesas – do aluguel ao material -, e o que sobra é dividido entre os participantes. Os salários são inconstantes e pequenos, mas todos têm a editora como trabalho número um. Quando perguntamos o que mudou nesses dez anos de Eloísa, Alejandro não titubeia: o compromisso. Todos são enfáticos ao afirmar que não têm a intenção de transformar a Eloísa em uma editora tradicional, e nem de revolucionar o mercado editorial estabelecido. “Nós somos como a mosquinha no lombo da vaca – não atrapalhamos as grandes editoras em nada. Elas têm seu nicho de leitores já estabelecido, e nós estamos em um campo de batalha distinto”, diz Alejandro.

O enorme êxito de Eloísa Cartonera está justamente aí: na possibilidade de criar novos espaços de leitura e de acercar à literatura quem geralmente encontra-se afastado dela. Os livros da Eloísa custam no máximo 12 pesos – mais ou menos R$ 5 –, e as vendas não são realizadas somente nessa linda esquina: eles sempre estão em mostras literárias e eventos culturais, mas marcam forte presença principalmente em feiras populares, onde costumam estar cercados de gente vendendo tanto flores como batatas. Os livros da Eloísa também podem ser encontrados nas prateleiras de algumas livrarias da cidade. São poucas, apesar da incessante busca por variados canais de distribuição. Os livros sempre saem da Eloísa com o mesmo preço, e as livrarias podem vendê-los pelo valor que queiram.

O catálogo, que se aproxima dos 200 títulos, mistura autores famosos com jovens desconhecidos, vanguarda com clássicos que andavam esquecidos, mas sempre latino-americanos: criadores do México ao Chile, passando por Costa Rica, Venezuela, Peru, Colômbia, Uruguai… Há poesias, contos, novelas breves, teatro e infantis. Cada texto chega à editora de uma forma: no início, Cucurto pedia a alguns escritores consagrados que colaborassem doando material. Outros se aproximavam da iniciativa por conta própria, mandavam originais – diversos talentos da literatura contemporânea argentina tiveram sua primeira publicação aí. Alguns cartoneros também se animaram a escrever. Além de Alan Pauls, a Eloísa publica os argentinos César Aira, Ricardo Piglia, Tomás Eloy Martínez… Entre os brasileiros, que dão origem a edições bilíngues, estão Haroldo de Campos, Glauco Mattoso, Wally Salomão e Jorge Mautner.

O papelão é comprado de fornecedores costumeiros, que já conhecem bem o material preferido pela Eloísa (tem que estar sempre limpinho e não ser muito grosso), que paga mais que as cooperativas de reciclagem. Porém, na falta de matéria-prima, compra-se de qualquer cartonero – e a escassez de papelão não é coisa rara, conta Alejandro. As capas, sempre do mesmo tamanho, são recortadas a partir de um molde, e todos participam da pintura. No início, o miolo era xerocado, até a doação de uma velha impressora pela embaixada da Suíça em Buenos Aires. Por um tempo, a embaixada da Espanha também contribuiu com verba para o papel – que não é reciclado, devido ao alto custo. Segundo a piada interna, o governo argentino só colaborou com a crise.

Reciclar a paisagem editorial

A estrutura quase ínfima e um processo insólito que se revelou muito fértil colocaram Eloísa no centro das atenções. Depois de muita imprensa, convites para feiras e palestras, viagens, a iniciativa local – que desde sua origem pensava globalmente, concretizando ideias como a reciclagem, ao mesmo tempo em que fomentavam a leitura – transformou-se em inspiração para dezenas de editoras que levam o substantivo cartonero no nome. Sem estratégia de expansão ou projeto de implementação, as editoras cartoneras multiplicaram-se pela América Latina, e mais recentemente atravessaram o Atlântico, de Toulouse a Pequim, de Madri a Maputo (Moçambique). Hoje, estima-se que há em torno de 50 irmãs de Eloísa pelo mundo.

Elas compartilham princípios com a Eloísa, mas cada uma se volta para as circunstâncias e necessidades de seu entorno. No Brasil, Dulcineia Catadora, em São Paulo, foi a pioneira. Nascida em 2007, após encontrar-se com Eloísa na 27ª Bienal de Arte de São Paulo, a cartonera brasileira não tem atelier, e desenvolve um trabalho itinerante, indo às cooperativas de materiais recicláveis e armando grupos que se interessem pela produção dos livros, promovendo oficinas e realizando intervenções urbanas. Há ainda a Katarina Kartonera (em Florianópolis/SC), Rubra Cartonera (Londrina/PR), Unila Cartonera (Foz do Iguaçu/PR, vinculada à Universidade Federal da Integração Latino-Americana), Catapoesia (Serra Negra/SP, e algumas cidades de Minas Gerais), Dengo Dengo Cartonero (Navegantes/SC) e Sereia Ca(n)tadora (São Vicente/SP).

As editoras cartoneras comunicam-se entre si de maneira esporádica, e até se reuniram algumas vezes: primeiro, em 2009, em um evento armado pela University of Wisconsin (EUA), que resultou até em publicação acadêmica. No ano passado, voltaram a se encontrar no Paraguai – devido às comemorações pelo Bicentenário da Independência do país, muitos eventos foram estimulados e apoiados. No momento, Alejandro não tem ideia quando a reunião poderá repetir-se. Porém, a sede em La Boca é muito visitada por estrangeiros, que aprendem a fazer os livros de papelão e levam a ideia a outros cantos do mundo. No dia de nossa entrevista, Juan, Ricardo e Alejandro esperavam a uma alemã que viria se despedir após algumas semanas de laços estreitos com a Eloísa, e no dia seguinte apareceria uma caravana de universitários norte-americanos que participariam de uma oficina. Alejandro relata que o site www.eloisacartonera.com.ar é a principal porta de entrada de novos interessados pela Eloísa.

Reciclar o olhar

Os trabalhadores da Eloísa se incomodam quando dizem que a editora é um símbolo da crise. Eles pensam que a editora é um símbolo do trabalho e da organização, e do trabalho como transformação. O projeto também recebeu críticas no sentido de que estetizava a pobreza. Mas ninguém dá bola pra isso. “Não estetizamos nada, simplesmente reutilizamos o papelão das ruas e fazemos livros”, afirmam. A Eloísa Cartonera fez da necessidade uma virtude, e não uma virtude sacrificada, mas jovial, entusiasmada, que também descarta o rótulo de projeto social, insistindo em sua descrição como um coletivo, onde se borram as fronteiras entre a vida social e a arte.

Segundo Borges, na biblioteca de Babel uma pessoa dificilmente (para ser sincero, nunca) se toparia com o livro da sua vida – a dimensão labiríntica e misteriosa das intermináveis galerias tornava a missão tão impossível quanto desvendar o universo. Sem se preocupar com isso, os livros da Eloísa Cartonera se interessam por promover mais e mais encontros, fazendo da leitura um ato cotidiano, que como suas capas coloridas se aproximam mais do inacabado que do certeiro, do instante que do eterno, onde se reciclam histórias, objetos e olhares.

(Uma versão deste texto foi publicada em 09 de abril de 2012 na revista Carta Capital)

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