Rolling Stone

No ritmo de Eric Bobo

* com a colaboração de Diego Cordes.

“O ritmo é tudo”, assevera Eric Bobo durante o making of de uma campanha publicitária para uma marca esportiva, filmada no Brasil em 2003, com Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Diego, e as estrelas do futsal Falcão e Fininho. Com Spike Jonze na direção, o vídeo celebrava a conexão entre música e futebol: a ginga dos craques brasileiros sob a flamejante percussão de Eric e alguns companheiros, que ele selecionou a dedo em incursões por diversas escolas de samba. Bobo está de volta ao Brasil para apresentar no Lollapalooza São Paulo seu mais novo projeto: Ritmo Machine.

Inquieto, o percussionista do Cypress Hill tem uma lista extensa e eclética de trabalhos e parcerias. No Ritmo Machine, ele se une ao DJ chileno Latin Bitman, com quem trocava figurinhas à distância enquanto morava em Madri, e Bitman, em Santiago. Os dois se conheceram finalmente no Lolapalloza Chile do ano passado, e concretizaram suas ideias no disco Welcome to Ritmo Machine, gravado em Buenos Aires, onde Eric vive hoje.

Bobo conheceu a cidade – e uma portenha – em 1995, durante uma turnê do Cypress Hill, e se apaixonou por ambas. Com o nascimento de um filho, no ano passado, ficou por aqui, desfrutando bons vinhos e imergindo na cultura argentina em busca de novas sonoridades.

Falando dos Estados Unidos, de sua casa-escritório, em Los Angeles, Bobo disse morrer de saudades da Argentina enquanto divulgava o Ritmo Machine por lá. Ele e Bitman já voltaram à América do Sul para se apresentar no Lollapalooza chileno e agora no Brasil, neste sábado, 7 de abril.

Eric Correa, raízes porto-riquenhas, nasceu em Nova York e cresceu em Los Angeles, impregnando-se das influências latinas que vinham do toca-discos de sua casa e das ruas da cidade. “Subi a um palco pela primeira vez com cinco anos, em um clube noturno de Hollywood. Eu era tão pequeno que tive que batucar em cima de um banquinho!”, ele conta. Eric acompanhava a banda de seu pai, o percussionista Willie Bobo, estrela e figura fundamental do jazz latino. “Eu me lembro de estar nervoso, mas com muita vontade de tocar. Foi uma experiência louquíssima, e depois eu queria fazer isso o tempo todo!”, recorda. E fez: excursionou com o velho Bobo até os 15 anos. Quando Willie morreu, Eric ainda acompanhou sua orquestra por um ano, ao mesmo tempo em que terminava os estudos no colégio.

Na década de 1980 Eric abraçou o hip-hop, que se consolidava como uma força dominante na música, participando de algumas bandas de Los Angeles com amigos. E aí aconteceu o que mudaria a vida de Eric. “Fui chamado para tocar no casamento do Ad-Rock, dos Beastie Boys, grandes admiradores de meu pai. Um tempo depois da festa, recebi um telefonema do Mike D, perguntando se eu queria viajar com eles na próxima turnê.”

Bobo juntou-se aos Beastie Boys em 1992, gravando os álbuns Hello Nasty e Ill Communication (no qual está a música “Bobo on the Corner”, pico de inspiração e transpiração de Eric durante um dos muitos brainstorms que os Beastie Boys promoviam em forma de jams).

O Cypress Hill abria os shows do Beastie Boys, e Eric também foi convidado a acompanhá-los – até 1995, o percussionista esteve nas duas bandas. Como a quantidade de concertos dos Beastie Boys era menor, Bobo se entregou ao Cypress Hill. “No fim, o Cypress havia me incorporado completamente. Eu havia me tornado um integrante fixo, as pessoas já me reconheciam como parte do Cypress. E, também, enquanto nos Beastie Boys eu tocava com uma banda completa (baixo, guitarra, bateria), no Cypress Hill eu compartilho a cena apenas com o DJ e os cantores, o que me dá mais liberdade.”

Eric participou de todo o frenesi que acompanhou o hit “Insane in the Brain” e a explosão do Cypress Hill como a primeira grande banda de hip-hop latino. “Era incrível levar esse novo som a lugares como a Europa e a América Latina, onde o rock predominava. Lembro especialmente de uma apresentação em um dos países nórdicos. Estava fazendo um frio danado, e havia uma multidão de gente cheia de energia esperando para nos ouvir… Nunca tínhamos imaginado que isso podia acontecer.”

Já são 20 anos com o Cypress Hill. “Podemos ficar meses sem nos encontrar, mas é só olharmos uns para os outros quando entramos no estúdio e imediatamente sabemos o que fazer”, afirma Eric, que também realizou inúmeras colaborações como convidado em álbuns de bandas como Soulfly, Black Crowes, Sol Invicto, 311, Gnarls Barkley, Rage Against the Machine e uma lista de artistas tão grande quanto sortida. Bobo se sente confortável em diferentes cenários, e extravasa os territórios do latin jazz e do hip-hop, levando ao pé da letra os ensinamentos do pai: “Ele me fazia ouvir de tudo, criando com um pouco de tudo.” Seu disco solo, Meetings of the Minds, lançado em 2008, é um retrato fiel do caldo de referências que se encontraram dentro de Eric: um sabor de hip-hop contemporâneo atravessado de funk, soul e de suas raízes no latin jazz.

Outro de seus recentes projetos é Bobo meets Rhettmatic. “No disco The Mixtape, eu e o DJ Rhettmatic, do Beat Junkies, intervimos em sucessos do Michael Jackson, Kraftwerk, Afrika Bambaataa, e outros mais”, explica o percussionista. Na Argentina, Eric selou parceria com o rapper El Guapo, que tem o apresentado ao hip-hop local.

Welcome to Ritmo Machine reforça a identidade camaleônica de Eric ao fundir hip-hop, música eletrônica, cumbia, salsa, dub e até uma brisa de samba. Com uma música batizada “Brazil”, os brasileiros são bem-vindos a calçar a sandália de prata para dançar ao ritmo de Bobo.

Bônus – making of do disco Welcome to Ritmo Machine: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4.

(Publicado em 5 de abril de 2012 na Rolling Stone)

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