Rolling Stone

Delícia de mau gosto

Mostra traz a São Paulo o universo bizarro do cineasta John Waters, o “papa do trash”

Divine gritou: “Boise, Idaho, esteja pronta! Você está prestes a receber alguns imigrantes de uma natureza muito especial; uma natureza que desafia qualquer descrição. Você está prestes a receber as pessoas mais asquerosas do mundo!”. Agora, é a vez da mostra John Waters – o Papa do Trash gritar: “São Paulo, esteja pronta! Você está prestes a receber alguns filmes de uma natureza muito especial; uma natureza que desafia qualquer descrição. Você está prestes a receber os filmes de John Waters!”.

Em Pink Flamingos, Divine, travesti de 130 quilos, não sequestra moças para engravidá-las e vender seus bebês a casais de lésbicas; nem usa o dinheiro para sustentar uma rede de distribuição de drogas para crianças, como fazem seus rivais, os Marbles. Ela quer apenas manter seu título: o de pessoa mais asquerosa do mundo.

Para John Waters, a pessoa mais asquerosa do mundo é uma diva, sua musa, de glamour tão desproporcional quanto suas sobrancelhas e sua pança. Corpos transgressores, ações transgressoras. No cinema de Waters, a transgressão é uma alegre celebração. Essa celebração, materializada pelo cineasta em doze longas-metragens, desembarca em São Paulo em John Waters – o Papa do Trash, de 24 de fevereiro a 1 de março, no CineSESC.

Foi o escritor William Burroughs, um dos ícones da contracultura, quem deu o apelido de “papa do trash” ao diretor norte-americano, conhecido ainda como “príncipe do vômito” (nada mais justo: em todos os filmes há pelo menos uma cena do tipo). Nascido em 1946, na caipira Baltimore (cenário inevitável de todas as suas histórias), Waters começou a fazer curtas-metragens na década de 60, com uma câmera 8 mm que ele havia ganhado da avó. Em 1969, veio o primeiro longa, Mondo Trasho, no qual uma moçoila platinada a la Sônia Silk, após uma tarde de amor com um maníaco por pés, é atropelada por Divine, ao som de músicas de rock que se emendam uma na outra, acompanhando cada segundo da trama sem diálogos. No ano seguinte, ele realizou Multiple Maniacs, considerado pelo diretor sua primeira “atrocidade celuloide”. À câmera caótica e em preto e branco que tateava os atores desnorteados nessas duas primeiras produções segue-se a trilogia trash formada por Pink Flamingos (1972), Problemas Femininos (1974) e Desperate Living (1977), e depois os sucessos Polyester (1981) e Hairspray (1988).

Waters funde cinema underground a noir e pornô barato com paixão por uma narrativa clássica que ele sempre termina por subverter. Ele encadeia situações e dezenas de personagens com um frenesi tão grande que, quando chegamos ao fim da jornada de seus anti-heróis, o mais divertido é lembrar-se do estopim de tudo o que acabamos de ver.

O cineasta opta por uma estética do grito, do lixo, do desbunde, do escracho ilimitado. Muito do potencial ultrajante dos filmes de Waters orbita ao redor de um mundo imundo. Por meio de Divine, Waters proclamava: “A sujeira é a minha política, a sujeira é a minha vida”. Precursor da apropriação do mau gosto, o diretor constrói seus personagens marginais, de corpos e costumes livres, como mocinhos da história, triunfantes no último ato. Ele faz uma ode à beleza do feio e propõe, por meio desses grupos estrambóticos e insalubres, o absurdo da sociedade correta, limpa, bonita. Os planos longos, sem cortes nem close-ups permanentes, dão mais realismo às tramas nonsense, ao mesmo tempo em que as tornam mais desconjuntadas – os filmes de Waters não só se ocupam de pessoas e histórias bizarras, mas são bizarros. Ele abraça com convicção as irregularidades e defeitos de suas produções, como uma negação à perfeição que tanto abomina.

Os filmes mais recentes do diretor – Cry-Baby (1990), Mamãe É de Morte (1994), O Preço da Fama (1998), Cecil Bem Demente (2000) e Clube dos Pervertidos (2004) – afastam-se um tanto do freak extravagante de seus primeiros tempos, mas continuam a dispensar qualquer solenidade com assuntos polêmicos. Como é dito no catálogo da mostra do CineSESC, as inversões de valores que Waters pratica em seu cinema pseudocomportado dos anos 1990 valem tanto ou mais que os abusos empreendidos há quatro décadas.

Com bigodinho homenageando Little Richard, cabelo impecavelmente penteado para trás e quase cinquenta anos detrás das câmeras, John Waters não se furta a promover seu genuíno louvor ao que é indecoroso. Dos bons costumes às lagostas, dos rebeldes sem causa às donas de casa dedicadas, do mashed potato às rainhas tirânicas de contos de fada… O papa do trash não poupa ninguém.

Os filmes de John Waters

 

Mondo Trasho (1969): Mulher deita e rola no parque com um tarado por pés, e na saída é atropelada por Divine, que carrega o corpo da vítima para lá e para cá sob trilha sonora roqueira – até se deparar com um cientista digno de filmes de ficção científica que usa as mulheres para experiências macabras.

 

 

 

 

 

Multiple Maniacs (1970): O cotidiano de Divine, dona de um circo depravado que rouba e assassina seus espectadores. Em conflito com sua trupe, ela vive várias situações incômodas, como o estupro por uma lagosta gigante.

 

 

 

 

 

 

 

Pink Flamingos (1972): Connie e Raymond Marble querem tirar o título de “Pessoa mais asquerosa do mundo” de Divine, assassina e criminosa pop que se esconde em um trailer com sua família enquanto tenta impedir a escalada do casal Marble no submundo em que ela reina.

 

 

 

 

 

 

 

 

Problemas Femininos (1974): A vida de Dawn Davenport (vivida por Divine, claro), uma adorável adolescente que foge de casa. Com uma filha a tiracolo, ela passa por diversos empregos legais e ilegais, até ser descoberta por sua “magnífica” beleza.

 

 

 

 

 

 

 

Desperate Living (1977): Uma rica (e louca) dona de casa mata o marido com a ajuda da empregada. Elas fogem para Mortville, um refúgio de criminosos dominado pela tirânica Rainha Carlotta. Divine estava excursionando com seu show e não pôde participar dessa produção.

 

 

 

 

 

Polyester (1981): Os sofrimentos e a redenção da boa cristã Francine Fishpaw (Divine!): o chifre do marido, o alcoolismo, os filhos problemáticos. Durante a projeção, o público recebe um Odorama, pedaço de papel onde é possível sentir o cheiro (bom ou ruim…) de diversas cenas.

 

 

 

 

Hairspray (1988): Nos anos 1960, a adolescente totalmente out Tracy Turnblad consegue ser o fenômeno de um programa televisivo de dança e aproveita a fama para defender a integração entre negros e brancos. Último filme de Waters com Divine (incorporando a mãe de Tracy), que morreu no mesmo ano.

 

 

 

 

Cry-Baby (1990): Neste musical psicodélico, um Johnny Depp brotinho com ares de Elvis Presley tem que manter a sua fama de mal. Líder da gangue dos Farrapos, ele empreende uma luta contra o bando dos Caretas para conquistar a mocinha da história.

 

 

 

 

 

Mamãe É de Morte (1994): A feliz família de classe média é desestabilizada ao saber da violência com a qual a doce e dedicada mãe trata de ordinárias desavenças. A Sessão da Tarde nunca foi tão subversiva.

 

 

 

 

O Preço da Fama (1998): O funcionário de uma lanchonete em Baltimore é alvo de uma fama fulminante quando suas fotos amadoras se transformam na new sensation do badalado mundo das artes.

 

 

 

 

 

Cecil Bem Demente (2000): Liderada pelo cineasta Cecil Bem Demente, favorável à destruição do cinema industrial, uma equipe de cinema underground sequestra a estrela número um de Hollywood e a obriga a protagonizar uma produção mambembe.

 

 

Clube dos Pervertidos (2004): Sylvia é daquelas mulheres que dorme com calça jeans. Após uma batida na cabeça, ela se torna uma viciada em sexo e um dos apóstolos de Ray Ray, mentor dos prazeres da carne.

 

 

 

 

John Waters – o Papa do Trash
De 24 de fevereiro a 1 de março
CineSESC – Rua Augusta, 2075, São Paulo
Ingressos vendidos na bilheteria do Cine Sesc
Programação completa e catálogo para baixar aqui

(Publicado em 24 de fevereiro de 2012 na Rolling Stone)

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Discussão

2 comentários sobre “Delícia de mau gosto

  1. Texto maravilhoso sobre um grande diretor. Parabéns!

    Publicado por cineteen | 10/08/2012, 2:27

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