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Felicidade clandestina – “El premio”, de Paula Markovitch

BUENOS AIRES – Paula Markovitch assume sem rodeios que El premio, seu primeiro longa-metragem, é autobiográfico sim: o filme nasceu a partir das vívidas lembranças que Paula trazia da infância, durante os anos de chumbo da Argentina. Mas El premio não é uma produção do país vizinho, apesar da diretora, dos atores, da locação e da trama serem argentinos: a produção tem nacionalidade quádrupla, na qual constam México, Polônia, Alemanha e França.

Paula vive no México há alguns anos, onde se destacou como co-roteirista dos hits adolescentes de Fernando Eimbcke – Temporada de patos (2004) e Lago Tahoe (2008). Tentou financiamento na Argentina por dois anos, sem topar com um produtor com quem pudesse entrar em acordo. Alemanha e França participam do filme através de fundos de festivais (Fonds Sud Cinéma, de Cannes, e World Cinema Fund, de Berlim); Polônia e México através de seus institutos de cinema. Em muitos festivais dos quais participou desde sua première em Berlim, em fevereiro deste ano (de onde saiu com dois Ursos de Prata: direção de fotografia, de Wojciech Staron, e desenho de produção, de Barbara Alvarez), Paula repete incansavelmente que Polônia e México compreenderam a história de El premio como algo que transcende fronteiras; uma história humana acima de tudo.

El premio enquadra Cecilia, sete anos, sem abandoná-la durante as quase duas horas de filme, seguindo-a em sua sensação de estar perdida no mundo e olhando o dia-a-dia através de seus olhos confusos. Ela vive com a mãe em uma precária casa em frente a uma praia perpetuamente cinza. Não há letreiros indicando nem quando ou onde se passa ação, mas não demoramos a entender que essas duas pessoas não pertencem a esse lugar. E um pouco mais tarde nos situamos na época do Proceso, como ficou conhecido o período 1976 – 1983, quando os militares ocuparam o poder na Argentina.

Sim, El premio não tem fronteiras, principalmente na América Latina e sua História cheia de procesosKamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002, Argentina), Machuca (Andrés Wood, 2004, Chile) e O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006, Brasil) são outros filmes que já haviam abordado esses complicados Estados policiais por meio da incompreensão da infância.

Ceci intui a situação, mas não a entende. Não entende porque está nessa praia gelada onde não se pode patinar; também não entende porque está longe do pai, da família, e de tudo que lhe é familiar. Mesmo assim, não deixa de rir das menores coisas e diverte-se à sua maneira, proporcionando ao contexto tenso a leveza que só uma criança poderia dar.

Exausta com o tédio de Ceci, sua mãe permite que ela vá a uma escola do povoado sob ordens estritas de viver a mentira de que seu pai vende cortinas, sua mãe é dona de casa. Todos acreditam, e ela ri e ri porque pôde mentir com sucesso sem ser repreendida.

O filme explora a sobrevivência em torno a uma mentira complicada, e o que isso significa em chave íntima. É o regime político invadindo a privacidade, a água que invade a cabana, o vento que varre a praia (que mais parece um deserto) permanentemente. Não adianta fechar a janela, a porta; o vento estará ali, à espreita. Todo o entorno é desolador, inóspito, e o mar e o vento são hostis e ameaçadores como o contexto que se vive. O vento está presente o tempo todo através do som que atravessa o filme – não podemos fechar os ouvidos e não escutar, da mesma maneira que em El premio não se pode fugir do vento.

Além da casa e da praia, a escola é outro cenário do filme. É interessante observar como Markovitch construiu esse microcosmo, que rende as melhores sequências de El premio com a observação dos métodos fascistas utilizados pela professora Rosita, e como ela os conduz com luvas de pelica. É na escola que Ceci não resiste ao desejo natural de ser reconhecida: justamente quando nada mais, nada menos que o Exército faz uma visita à instituição servindo chocolate quente para divulgar um concurso de redação – no qual Ceci ganha o prêmio do título. Ela quer o prêmio, dado, veja só, pelos militares.

O prêmio desencadeia em Ceci um sentimento pleno, mas que depois cai na dúvida, alimentado pelo horror que a menina sente frente às formalidades truculentas dos homens de farda. Mais do que nunca, Cecilia é tomada pelo desamparo.

Markovitch falou diversas vezes do desamparo que ela sentia na idade de Cecilia, sensação que a guiou no desenvolvimento do trabalho e que está completamente plasmada na atmosfera do filme – principalmente através do formato cinemascope, e também pela fotografia desbotada de Staron, que privilegia a luz tênue do inverno cru e os céus sempre carregados, escuros.

El premio foi exibido no Brasil no 6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, onde foi eleito Melhor Filme. Para quem perdeu, o filme estará no 5º Cine BH e também no Festival do Rio.

(Publicado em 30 de setembro de 2011 na Revista Beta)

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Discussão

6 comentários sobre “Felicidade clandestina – “El premio”, de Paula Markovitch

  1. Natalia Christofoletti Barrenha
    Comentado em: ‘O Prêmio’ vence Festival de Cinema Latino-Americano

    23 de Outubro de 2011 | 11h00

    Esse filme tem uma “serenidade perturbadora” incrível… Merece todos os prêmios que tem ganho. Não resisti e fiz alguns comentários sobre ele aqui: https://duasoutrescoisasqueeuseidele.wordpress.com/2011/10/20/felicidade-clandestina-%E2%80%93-%E2%80%9Cel-premio%E2%80%9D-de-paula-markovitch/

    Natália… voce foi lá na noticia do plagio de roteiro publicada no estadao e fez comentarios. Não sobre o filme em questão ou sobre o roteiro supostamente copiado… mas sobre uma critica sua, de outro filme em outro lugar. Apenas aproveitou o espaço de comentarios do estadao para chamar leitura e atenção para seu comentario.

    Vc foi desonesta e desagradavel.

    Publicado por paia assada | 25/10/2011, 21:20
    • Oi, Paia Assada!
      Então, eu não fiz o comentário nessa notícia não. Você pode ver no comentário, em cima, “Comentado em: ‘O Prêmio’ vence Festival de Cinema Latino-Americano”. Quando você colou meu comentário, acima, está isso também; pode ver. Porque eu comentei nessa notícia, sobre quando “O prêmio” ganhou no FestLatino. O problema é que o Estadão tem um sistema de comentários que é ruim mesmo, e manda comentários de uma notícia para outras que tenham uma mínima relação (neste caso, cinema). Com certeza o comentário foi parar em outras notícias também. E você pode conferir na notícia do Stallone que tem outros comentários que não fazem parte dela.
      A ideia foi fazer com que as pessoas visitassem o blog sim. Mas eu acredito que a internet é uma rede, onde uma coisa leva à outra. Eu gosto muito quando leio algo e nos comentários encontro qualquer coisa que possa me falar mais daquele assunto. E coloquei o texto aí com essa intenção. Foi um filme do qual eu gostei muito e o qual eu gostaria de compartilhar. Não acredito que eu tenha sido desonesta ou desagradável, porque eu coloquei o comentário no lugar certo. Agora, se o Estadão o coloca em outros lugares, eu não posso fazer nada.
      Como já dizia Jovelina Pérola Negra, eu tô aqui pra somar, não pra subtrair.
      Fico feliz que você tenha conhecido o blog, mesmo que seja por caminhos tortuosos, e espero que visitando-o você veja que tudo que eu coloco aqui foi com a maior honestidade e carinho.

      Obrigada!

      Abraço,

      Natalia

      Publicado por Natalia Barrenha | 26/10/2011, 7:24
    • Acabei de ver, por exemplo, que o comentário foi publicado em uma notícia sobre ” Atividade paranormal 3″. E não fui eu coloquei ele lá. Mas, como já te disse, acima do comentário citam a notícia onde ele originalmente foi comentado.

      Publicado por Natalia Barrenha | 26/10/2011, 7:30
  2. @Paia Assada: o sistema de comentários do Estadão é que costuma fazer essa confusão de linkar comentários de notícias diferentes, usando critérios que para mim são incompreensíveis: eu já vi isso acontecer em várias notícias, o que quase sempre acaba tornando os comentários aparentemente sem nexo nenhum.

    Aliás, no topo do próprio comentário da Natália aparece o link da notícia original: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-premio-vence-festival-de-cinema-latino-americano,746862,0.htm

    Na boa, não sou advogado dela mas acho que seria de bom tom um pedido de desculpas seu no site do Estadão para que ela não fique mal na foto, pois afinal ela não teve culpa nenhuma.

    Publicado por Roberto | 28/10/2011, 22:49
    • Oi, Roberto!
      Muito obrigada.
      Eu e Paia Assada estivemos falando por e-mail e está tudo bem. O pedido de desculpas pessoal já foi feito.
      Não havia visto ainda que ele havia comentado na notícia do Estadão também, mas vou lá agora deixar um recado.

      Muito obrigada uma vez mais e volte mais vezes por aqui!

      Abraços,

      Natalia

      Publicado por Natalia Barrenha | 29/10/2011, 7:46

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