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Faça amor, não faça guerra – “Os nomes do amor”, de Michel Leclerc

BUENOS AIRES – Amor e política: dois temas franceses por excelência que Michel Leclerc une em sua comédia romântica Os nomes do amor (Les noms des gens). Há o clássico mote das duas personalidades opostas que se unem, mas Os nomes do amor mete-se em lugares espinhosos da França (de ontem e de hoje) onde a comédia não deveria meter-se – porém, faz isso com tanta leveza e alegria que não há como resistir… da mesma maneira que Arthur Martin não resiste à revolução encarnada por Baya Benmahmoud.

Arthur Martin é um dos 15 mil Arthur Martins existentes na França; nome também de uma longeva marca de fogões ergonômicos, econômicos e resistentes. Por ter um nome tão comum, a fervorosa esquerdista Baya pensa que ele é um conservador, e deseja trazê-lo para a esquerda aplicando um inovador método de conversão ideológica que ela leva a cabo há algum tempo: transar com seus inimigos. A tergiversação do tema do Maio/68 “Faça amor, não faça guerra” tem trazido resultados fabulosos à causa de Baya.

Mas o “tratamento” de Arthur Martin é prejudicado porque ele não pode deixar de lado suas obrigações como ornitólogo. Mesmo que trate com os pássaros quando os bichinhos já foram desta para uma melhor, em tempos de gripe aviária Martin deve estar atento o tempo todo para o caso de uma epidemia, para o cuidado com tudo, para rígidas ações de prevenção. Por outro lado, Martin não é direitista – apesar de vir de uma família extremamente conservadora, ele é fã incondicional de Lionel Jospin, da esquerda (não sei dar mais detalhes da linha jospinista, já que me escapam as sutilezas do universo político francês). E aí é que acontece o baque na estratégia de Baya, que finalmente se apaixona por alguém.

Os nomes do amor esteve no Festival Varilux de Cinema Francês 2011, e tem estreia prevista para 21 de outubro no Brasil. Na Argentina, o filme está em cartaz, mas teve sua première no Festival de Cine Francés, realizado em março deste ano, quando Michel veio a Buenos Aires para apresentá-lo. O diretor contou que escreveu o roteiro junto à sua esposa, também chamada Baya, e de ascendência argelina, como a protagonista do filme. Michel disse que a intenção não era fazer algo autobiográfico, mas eles observavam que eram um casal a partir de cujas famílias se poderia traçar um retrato da França nos últimos 50 anos – e construir uma história das obsessões francesas, abordando temas polêmicos hoje no país, como identidade, imigração, racismo, antisemitismo…

Partindo do nome de Arthur, acedemos à árvore genealógica dos protagonistas, nas quais estão presentes duas grandes tragédias que golpeiam a memória coletiva francesa: invasão nazista e colonização da Argélia. Na tradicional família de Arthur, segredos e silêncios eram moeda constante não só pelos bons costumes e resguardo da moral, mas também pela misteriosa origem de sua mãe, que se tornou órfã durante a Segunda Guerra. Baya, ao contrário, sob mãe francesa (uma militante radical de esquerda) e pai argelino (refugiado da guerra), foi criada na absoluta liberdade, o que configurava um pouco de abandono através do laissez faire tão de moda nos anos 1970/1980.

Michel contou que, durante o casting, pensaram que os protagonistas deveriam ser como uma dupla de palhaços: Martin seria o triste, que não ri e representa a ordem, o que é rígido e direito, enquanto Baya seria o cômico, que faz graça e asneiras. Inicialmente, o personagem de Baya deveria ser árabe – eles imaginavam algo no estilo de uma “Marilyn Monroe árabe”, mas não encontraram ninguém que se encaixasse no papel. Abriram os testes para não-árabes e se encantaram com Sara Forestier desde o primeiro momento em que a viram. Com ela, inclusive, poderiam abrir espaço para outra questão que perturbaria a personagem: o fato de não se parecer com uma árabe (tema que também faz parte da vida da roteirista Baya Kasmi). A inocência e sensualidade da dançarina encarnada por Liza Minelli em Cabaret (Bob Fosse, 1972) foram outros pontos importantes na construção de Baya Benmahmoud.

Michel diz que todos sempre querem saber como foi feita a cena em que Baya sai de casa nua – não porque tire sua roupa, mas simplesmente porque esquece de se vestir -, e ele relata que essa foi uma das primeiras tomadas gravadas: Sara pediu que fosse uma das primeiras, porque depois que a vissem nua uma vez ninguém se preocuparia mais com isso. O diretor conta que nem fecharam o metrô para as filmagens, e confessa que as pessoas nem se incomodaram: quando se davam conta de haver visto uma mulher completamente nua no meio da rua, Sara já estava na outra esquina no embalo do frenesi de seu personagem. A cena foi muito importante para gerar uma confiança mútua entre atriz e diretor, e para Sara assimilar que as cenas de nu eram cômicas e burlescas, não tendo na verdade nada de erótico.

O filme foi um êxito completo na França – bilheterias exultantes e dois César (o Oscar francês): um de melhor roteiro original, e outro de melhor atriz para Forestier. Talvez a produção não tenha tanto impacto por aqui, já que podem nos escapar alguns detalhes importantes – como a simpática participação de Lionel Jospin atuando como ele mesmo e levando-se na brincadeira com muita naturalidade.

Através dos relatos confessionais do começo, quando os personagens se dirigem ao espectador, Leclerc interpela os franceses diretamente sobre seus dilemas étnicos e políticos. A comicidade ameniza a correção, e assim o cineasta convida sutilmente a plateia a se incomodar. Mesmo que digam diversas vezes que Leclerc simplifica o conflito utilizando-se de estereótipos para construir uma crítica aos estereótipos, em Les noms de gens os clichês encaixam muito bem no objetivo dos roteiristas de contestar a concepção da identidade como algo determinista. Somados aos chavões da comédia romântica, resultaram em uma boa mistura para rir de um renascente fascismo que toma a Europa (e especialmente a França pós-Sarkozy) e dos lugares comuns da esquerda atual – um dos grandes exemplos é a tradicional cena pós-casamento, em que o casal anda apaixonado pelo bosque, com taças de champanhe nas mãos. Entretanto, aqui, os assuntos dos pombinhos giram em torno dos mais complicados temas que assolam a sociedade francesa contemporânea.

(Publicado em 30 de setembro de 2011 na Revista Beta)

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