Revista Beta - O cinema online

Bo(o)m dos trópicos – cinema tailandês contemporâneo

BUENOS AIRES – Há uns dez anos, mais ou menos, a Tailândia nem existia no mapa cinematográfico mundial – o cinema nacional desfrutava de uma enorme popularidade interna (principalmente com os filmes de muay thai, o boxe tailandês), mas não dava sinais de vida além-fronteiras. Bolha asiática + pesados investimentos estrangeiros + novas tecnologias dos anos 00 + Apichatpong Weerasethakul = aqui estamos nós, brasileiros, com duas joias tailandesas na Mostra Mundial do Indie Festival 2011.

O Indie Festival deste ano já passou por sua terra natal, Belo Horizonte, e agora está em São Paulo até 29 de setembro. Com exibições no CineSesc e Cine Olido (vale lembrar que a entrada é franca!), a programação conta com retrospectivas imperdíveis da francesa Claire Denis e do húngaro Béla Tarr, além da Mostra Música do Underground e da Mostra Mundial, a qual traz o cinema contemporâneo realizado por uma novíssima geração de cineastas que se destacou em grandes festivais recentemente – todos os 23 filmes desta seção, de 15 países, são inéditos no Brasil e já trazem um montão de selinhos de prêmios. Entre eles, os tailandeses Hi So, de Aditya Assarat, e Eternidade, de Sivaroj Kongsakul.

Hi So é o segundo longa-metragem de Aditya, cujo debut Wonderful Town (2007) foi sensação em grandes festivais, viajando e colhendo galardões de Rotterdam a Pusan, de Las Palmas de Gran Canaria a Hong Kong, de Lisboa a San Francisco. Aditya também é criador da Pop Pictures, uma das produtoras de cinema independente mais importantes de Bangkok e que possui vínculos muito estreitos com fundos internacionais, principalmente o Hubert Bals Fund e o Pusan Asian Cinema Fund, que a apoia em diversos projetos. Como já havia comentado Apichatpong, o top do cinema tailandês hoje, esses órgãos estrangeiros são fundamentais para o desenvolvimento do cinema do país – o que não é nenhuma novidade para nós, cuja produção cinematográfica que luta por novos ares também depende de tais fundos.

Aditya, de pai tailandês e mãe norte-americana, saiu da Tailândia com 15 anos em direção aos Estados Unidos. Estudou História na New York University e depois fez um mestrado em cinema na University of Southern California. É engraçado ver o perfil de Aditya na página da Pop: “depois de formado, fiz curtas-metragens, videoclips, vídeos institucionais; ou seja, qualquer coisa que me chamassem para fazer. Mas esse período de escravidão foi muito útil para aprender a nunca desistir de nenhum trabalho, porque podemos aprender muitas coisas no dia-a-dia do set, qualquer set”.

Hi So tem qualquer coisa de autobiográfico – o protagonista, Ananda, estudou nos EUA e está de volta à sua terra natal, Tailândia, para tentar a carreira de ator. Ele é uma espécie de hi so, termo comum no país, utilizado para se referir a alguém da high society – o nosso playboy. Ananda emplaca fácil como galã de um filme, mas há alguns probleminhas com seu sotaque, devido aos anos que passou afastado do país. Ele faz o papel de um homem que perdeu a memória durante o tsunami e, guiado por uma mulher, percorre as ruínas de um hotel (abandonado após a tragédia) em busca de sua identidade. Aqui, Hi So se conecta de certa maneira com Wonderful Town, que tem o pós-tsunami como centro do relato. Durante as filmagens, Zoe (linda!), sua namorada norte-americana, vem visitá-lo, mas mergulha no tédio da baixa temporada e do calor escaldante enquanto Ananda está ocupado com o trabalho e jornalistas. Há diversos choques entre o casal: ela não deveria ter ido para aquele lugar estranho. Em meio à solidão, se mistura com os empregados do hotel, mesmo sem entender uma palavra deles – uma aproximação que se dá a partir da compreensão da distância que existe entre eles.

Uma elipse. O filme está pronto, o verão virou inverno, a presença de Zoe já se dissipou, May é a nova companheira do ator. O filme dá uma volta brusca mas agradável para dizer que é sobre Ananda, e não sobre a figura fugaz e frustrada de Zoe. Mas o tema da frustração segue, levando o roteiro e seu protagonista pela mão.

May é tailandesa e não fala inglês. Era uma das assistentes de produção do filme onde atuou Ananda. Vive com ele em um grande apartamento, em um edifício da mãe do ator. Essa mãe, da qual muito se fala, nunca se vê – está em Seul, nos EUA, “não sei”, diz Ananda. Assim como as locações do filme-dentro-do-filme, o prédio onde vive o casal tem partes destruídas pelo tsunami. O apartamento onde Ananda vivia antes está abandonado, nos andares superiores. E, como seu personagem, Ananda não consegue enxergar seu passado aí. Não consegue pertencer a esse lugar, pois lhe faltam lembranças.

Os choques com Zoe se repetem com May (nem a catarse da bela fotografia da cena da discoteca absorve os personagens em um mesmo território), ilustrando um refinado conto de encontros e desencontros cujo centro é o desenraizamento de Ananda. Imaginamos para onde vão nossas personagens femininas quando elas desaparecem, mas para onde vai Ananda? A cena final diz tudo.

Aditya tateia por não-lugares; expõe os rachas entre línguas, culturas e classes; escolhe uma estética entre os filmes de família e o negócio da grande produção. Em algumas entrevistas, sempre comenta sobre seu deslocamento e sobre o estranhamento de não pertencer a lugar nenhum pelo fato de estar conectado a dois países. Ele gostaria de mostrar essas sensações através de uma história de amor, já que os romances expõem as pessoas mais profundamente.

Por outro lado, ele queria sugerir como as fronteiras nacionais se dissolveram nos últimos tempos e como isso possibilitou outras maneiras de conectar-se com uma identidade através das tribos: há um século, por exemplo, ser tailandês seria algo definitivo, já que dificilmente se conseguiria sair do país (e mesmo da própria cidade). Hoje, devido às baixas tarifas das linhas aéreas e da internet, as identidades podem ser estabelecidas através de outros parâmetros. Aditya se absteve de eleger qualquer dessas duas visões como determinantes, mas o que fica de seu alter ego Ananda é a figura de um outsider um tanto sem rumo, característica que se reflete na narrativa. As personagens secundárias, Zoe e May, são tão fortes que atraem todos os olhos para elas – o que não significa que Ananda seja marcado pela mulher com quem está, pois ele é sempre o mesmo, mas esse mesmo pleno de indefinição que só se faz ver quando todos os outros saem do quadro.

Eternidade também é inspirado em histórias pessoais de seu diretor, Sivaroj Kongsakul. Sivaroj estudou cinema na Rajabhat Suan Sunandhai University, em Bangkok, e foi assistente de Aditya e de vários outros cineastas em ascensão na Tailândia, sendo parte da equipe de um bocado de curtas realizados no país.Eternidade, também gerado na Pop Pictures, é seu primeiro longa e levou um dos Tiger Awards do Festival de Rotterdam deste ano (os outros foram para Finisterrae, do espanhol Sergio Caballero, que também está na Mostra Mundial, e The journals of Musan, do sul-coreano Park Jung-Bum).

Em Eternidade, o protagonista Wit faz jus à crença tailandesa de que o morto, três dias depois de seu falecimento, volta ao mundo para refazer seus passos sobre lugares queridos. Wit voltou para observar todas as delícias da conquista de sua futura esposa Koi, a garota urbana que ele leva ao campo para que ela conheça sua família e aceite viver em um lugar mais tranquilo que Bangkok.

Wit, olhos da câmera, observa tudo de muito longe, com grandes panorâmicas que destacam a quietude e a brisa quente das planícies de sua família. Há muitos planos fixos que se movem bem lentamente, com delicadeza e precisão, da mesma maneira que Wit se aproxima da jovem Koi. Quando temos um primeiro plano, já estamos no fim do filme; Koi caiu nas graças de Wit, mas suas lágrimas nos remetem aos primeiros momentos da jornada do espírito que apenas assiste a esses momentos que ficaram no passado. Essa história se refere ao tempo no qual os pais de Sivaroj se encontraram e se apaixonaram, e que sua mãe sempre lhe contava tendo como ponto de partida a perda de seu amor. Há ainda uma terceira parte, a qual mostra a família de Wit depois que ele se foi, e que traz ecos da vida de Sivaroj depois da morte de seu pai.

Eternidade é metafísico e despretensioso; uma homenagem linda na forma de permissão de reviver um amor que havia sido jurado eterno. A fotografia esmaecida dos campos da juventude de Wit e Koi se repete na vida atual da família que sente a presença do espírito paterno, fortalecendo essa carga de passado que acompanha (eternamente?) quem sofreu uma perda dolorosa.

Ao contrário da urbanidade de Hi So, o filme de Sivaroj repisa as paisagens e a força das crenças as quais já tínhamos acesso devido à obra de Apichatpong. Se bem o filme de Sivaroj traz ecos do grande criador do cinema tailandês contemporâneo, reconhecemos que ele tem autonomia narrativa e configura-se como outra força estética a partir de seu modo pleno de ternura de acompanhar suas narrativas. Em outras palavras, o panorama cinematográfico local se enriquece cada vez mais e a Tailândia nos brinda boas surpresas – pena que não é sempre que podemos apreciá-las nestes outros trópicos.

(Publicado em 17 de setembro de 2011 na Revista Beta)

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