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A sorte está lançada – Entrevista com Sebastián Boresztein, diretor de “Um conto chinês”

BUENOS AIRES – Um filme argentino com mais de um milhão de espectadores?! Isso só pode ser um cuento chino. Um “conto chinês”, na Argentina, é meio parente do nosso “conto do vigário”: grande mentira ou delírio; embuste. E na Argentina, assim como no Brasil, quando filmes nacionais atraem multidões aos cinemas temos a impressão de que se trata de uma invencionice. Mas, Um conto chinêsfaz jus ao seu título e conseguiu levar mais de um milhão de argentinos ao cinema para vê-lo. Não conseguiu bater o fenômeno O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009), que tem a cifra de 2,46 milhões de espectadores, mas deu uma boa balançada na plateia argentina que, desde o sucesso oscarizado, não saía tanto de casa pra ver cinema nacional.

(Abrimos um parêntese só por curiosidade: O segredo dos seus olhos é apenas o quarto filme nacional mais visto na Argentina. Os filmes que ocupam as três primeiras posições, difíceis de desbancar, são todos da década de 1970: Nazareno Cruz y el lobo, de Leonardo Favio, 1975, teve 3,4 milhões de espectadores; El santo de la espada, de Leopoldo Torre Nilsson, 1970, teve 2,6 milhões; e Juan Moreira, também de Favio, 1973, 2,5 milhões).

Em Um conto chinês, uma vaca cai do céu lá do outro do mundo, e Jun (Ignacio Huang) cai bem no colo de Roberto (Ricardo Darín) aqui em Buenos Aires. Roberto é um típico anti-herói arisco e intratável, mas a nobreza impede que ele esconda seu bom coração. Na falta de autoridades que resolvam o problema desse chinês que não fala uma palavra em espanhol e não tem um peso no bolso (e não encontra ajuda nem no Barrio Chino, onde se concentra a enorme comunidade chinesa de Buenos Aires), o homem amargo e amargurado acolhe o pobre Jun em sua casa.

Roberto tem hábitos tão petrificados em sua rotina repetitiva, metódica e neurótica que sua vida, por vezes, parece outro conto chinês. Seu cotidiano monótono é amenizado pela coleção de notícias insólitas que ele busca alimentar todos os dias folheando diversos jornais e imaginando-se personagem delas no melhor estilo Amélie Poulain. Ele nem dá bola pra Mari (Muriel Santa Ana), uma mulher do interior que é uma gracinha e arrasta a maior asa com resultado zero.

O isolamento sagrado de Roberto entra em colapso com a hospedagem prolongada de Jun, e dessa relação inusitada nasce um humor trágico, quando ficamos nervosos e rimos. Um conto chinês tem fluidez narrativa, timing e trabalha bem os clichês das comédias de costume – mas, à medida que se aproxima do fim, o componente dramático ganha peso e o filme muda de tom: o absurdo deixa de ser cômico para tornar-se trágico, numa sobriedade um tanto desnecessária. Nem por isso, entretanto, a trama deixa de ser mais amável que azeda, e as cores que vão deixando a opacidade do começo para tornarem-se mais brilhantes confirmam um final luminoso para os personagens.

Um conto chinês é o terceiro longa de Sebastián Boresztein, que tem no currículo La suerte está echada(2005), outra comédia, Sin memoria (2010), uma produção mexicana que ainda não estreou na Argentina, e diversas séries televisivas e publicidades. Telefonei a Sebastián para combinarmos de nos encontrar e conversar sobre Um conto chinês, mas ele não podia sair de casa já que sua filhinha está para chegar a qualquer momento e ele não queria deixar ninguém plantado por conta de corridas emergenciais à maternidade. Acertamos de que nos falaríamos por telefone no dia seguinte, mas devido a uma pane geral de internet-telefone em todo o meu bairro não conseguiria gravar nossa charla, e a entrevista acabou sendo por e-mail.

Natalia – Como surgiu a ideia inicial do filme; veio de uma nota absurda também?

Sebastián – A ideia surgiu quando li a notícia da vaca e me disse: “assim vai começar meu próximo filme”. Depois tive que inventar toda uma história que justifique esse começo, e assim comecei a desenvolver a primeira versão do roteiro. No total, escrevi 18 versões até chegar à definitiva.

Natalia – Ricardo Darín é a cara do cinema argentino, e tudo que ele toca vira sucesso na certa – aqui ou no exterior. Darín tem uma espécie de campo magnético que faz massivos filmes improváveis, como foi com A aura (Fabián Bielinsky, 2005). Ele faz, quase sempre, personagens de drama. Como foi que você decidiu que ele seria Roberto e como foi trabalhar com alguém com o peso dele para o cinema nacional?

Sebastián – Eu dei o roteiro a Ricardo uma vez que nos encontramos para comer. No dia seguinte, ele me ligou super entusiasmado dizendo “filmemos isto!”. A partir daí, sabendo que ele seria Roberto, começamos a trabalhar juntos. Ele pensava e sugeria milhares de coisas, agitando para que o filme se concretizasse mesmo. Nos reuníamos para almoçar todas as quartas-feiras. Mandávamos mensagens onde só escrevíamos “provoleta?” e era nosso código; já sabíamos que tínhamos que nos encontrar.

Natalia – Como vocês descobriram Ignacio Huang e como ele ajudou para a caracterização de Jun?

Sebastián – A contribuição de Nacho foi muito importante porque nos deu um pouco a visão oriental – nos ensinou como pensa um chinês, que sinais entende e que sinais não significam nada; nos ajudou muito com toda a coisa da cultura chinesa. Conhecemos a Nacho no casting em busca de seu personagem, no qual vieram muitos atores, mas entre os quais Nacho se destacou desde o começo por ter uma enorme sensibilidade e uma energia incrível.

Natalia – Você disse em algumas entrevistas queUm conto chinês é uma história universal e, ao mesmo tempo, muito argentina.

Sebastián – É muito universal porque fala de temas do ser humano que são comuns a toda cultura – a solidão, a solidariedade, o amor, o abandono… E é muito argentina porque tem a presença da Guerra das Malvinas, esse absurdo do nosso país se enfrentando com a Grã-Bretanha – um absurdo tão grande como uma vaca que cai do céu.

Natalia – Houve uma proposta para realizar o filme nos Estados Unidos, não?

Sebastián – Sim, mas não a aceitamos porque o filme não teria a mesma força se fosse americano. Eles estão em guerra quase todo o tempo; não é uma novidade que uma geração tenha ido a um conflito bélico – acontece o tempo todo. Mas na Argentina não. O conflito das Malvinas, que conformam um ponto importante do filme, é um tema de minha geração, e que me pegou de uma maneira de forte porque, por casualidade, eu não participei diretamente dele, e por isso sempre quis falar do assunto, em minha língua e com minha idiossincrasia.

Natalia – Você poderia falar um pouco da direção de arte? Eu acho muito interessante a descrição visual do universo de Roberto – e principalmente a inserção do carro dele em meio aos carros atuais. Podíamos pensar que era um filme que se passava em outra época, mas quando vemos seu carro nas ruas temos acesso a toda a dimensão de anacronismo do personagem.

Sebastián – A direção de arte esteve a cargo de Valeria Ambrosio, uma destacadíssima e muito talentosa artista argentina. Ela conseguiu criar essa atmosfera em que todo o tempo se respira o passado de Roberto, sua melancolia e sua irritação com o mundo. A paleta de cores, a textura das paredes e os elementos que habitam a casa: tudo nos fala desse personagem e seu mundo. A direção de arte é a protagonista deste filme.

Natalia – Você podia falar um pouco do papel das notícias absurdas como fuga da realidade para Roberto?

Sebastián – Elas não são apenas uma fuga de sua realidade, sua janela à fantasia e sua diversão, mas são a comprovação de que a vida é um absurdo sem sentido. Nessas notícias ele se vê a si mesmo sempre como protagonista da tragédia; se vê a si mesmo em cada uma dessas desgraças.

Natalia – Por que o filme é tomado de tanta seriedade conforme vai chegando ao final?

Sebastián – Esse é o momento em que compreendemos porque Roberto é como é, é o nó de seu conflito, e é um conflito muito sério e profundo. Eu sempre senti que havia que passar por esse momento dramático porque é onde tudo ganha sentido e temos acesso à profundidade que tem a história. Esse momento do filme desconcertou muita gente, mas a vida é assim: você pode estar rindo todo o tempo e em um momento te dão um tapa na cara para te dizer “hey, nem tudo é uma beleza; também acontecem outras coisas”. Na vida real é assim e no filme também.

Natalia – E como foi esse trabalho tão intenso de inúmeras reescritas do roteiro?

Sebastián – O roteiro é a arte da reescrita; é um trabalho de capas e, cada vez que nos sentamos para corrigir, acabamos descobrindo uma nova capa de leitura que nos obriga a reformular e polir um montão de coisas. É praticamente impossível escrever um roteiro de uma vez e que ele funcione como um mecanismo sólido porque, na primeira escrita, não conhecemos tudo dele. Há uma parte inconsciente da escrita que vamos conhecendo à medida em que avança; é uma exploração que faz com caminhemos por lugares desconhecidos e, para conhecê-los em profundidade, temos que passar por eles várias vezes.

Natalia – Você é filho de Tato Bores, que foi um grande comediante argentino. Você poderia falar de como isso foi uma influência para seu trabalho?

Sebastián – O humor era a linguagem da minha casa. O olhar ácido é uma herança de meu pai. E trabalhei muito tempo com ele, como seu produtor e roteirista.

Natalia – Como foi sua aproximação com o cinema?

Sebastián – Como já disse, primeiro estive a cargo do programa de meu pai, na tevê, como roteirista e diretor. Depois, continuei na televisão fazendo séries e minisséries de suspense e terror, nada a ver com humor. Sempre tratei de fazer televisão com um trato visual muito cinematográfico, e em 2005 nasceu meu primeiro filme La suerte está echada, uma comédia com um olhar ácido e certo humor negro.

Natalia – Em La suerte está echada você fala muito da sorte, do azar, e principalmente da casualidade, um tema que está também muito presente em Um conto chinês.

Sebastián – Tudo o que tenha a ver com o destino me atrai muito: a pergunta sobre as coisas serem casuais ou pré-determinadas; não sei, eu gosto muito do tema da incerteza da existência, o qual é um grande ponto de partida quando me sento para escrever.

Natalia – Aqui na Argentina há um grande problema para conseguir espaço para o cinema nacional, cujos números de bilheteria são na maioria das vezes muito pequenos. E Um conto chinês conseguiu superar a marca de um milhão de espectadores… Há o apoio de um grande meio televisivo que é Telefé, o que ajuda o filme a chegar a muita gente, mas o que você acha que seja o principal elemento do filme para tanto sucesso?

Sebastián – Suponho que a presença do Ricardo Darín protagonizando uma história carismática e atrativa, com muitos pontos de contato com as pessoas comuns, foi importante para lograrmos esse número. Eu acho que devemos encarar mais o cinema de gênero, algo que está ocorrendo no país, pois assim podemos alcançar uma indústria mais sólida. Fazer cinema de gênero para mim é o caminho para desenvolver o cinema argentino.

Você pode visitar o site de Un cuento chino aqui e de Sebastián Boresztein aqui.

(Publicado em 04 de setembro de 2011 na Revista Beta)

Discussão

4 comentários sobre “A sorte está lançada – Entrevista com Sebastián Boresztein, diretor de “Um conto chinês”

  1. Muy interesante entrevista, Nati! Que bueno ver que el cine argentino es valorado en el extranjero.
    Te felicito por el blog. Saludos de un apasionado del cine.

    Publicado por Diego | 15/09/2011, 13:10
  2. Muito bom Natalia, ótima entrevista, parabéns! Vi o filme aqui no RJ numa quarta-feira com sala bem cheia.

    Publicado por Pedro | 23/10/2011, 21:29
    • Obrigada, Pedro! Foi legal fazer a entrevista e entender porque o filme foi um sucesso tão grande na Argentina.
      E o Darín lota sala onde for… Quando “Um conto chinês” foi lançado na Espanha, vi uma frase de um crítico argentino da qual morri de rir: “Linhas aéreas Darín: há dez anos levando o cinema argentino pelo mundo!”.
      Volte sempre por aqui!

      Beijos,

      Natalia

      Publicado por Natalia Barrenha | 23/10/2011, 21:49

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