Revista Beta - O cinema online

Cultura em harmonia com o planeta

BUENOS AIRES – Drama, comédia, romance, faroeste, terror, suspense, ficção científica… a todos os rótulos que podem receber as produções cinematográficas contemporâneas se soma o de cinema ambiental.

No ápice dos debates (nem sempre frutíferos, principalmente em países cheios de “reis do gado” como Brasil e Argentina) sobre a questão ambiental e a irrevogável conscientização e mudança de hábitos das pessoas, os filmes sobre o meio-ambiente vivem uma nova fase que vai além da denúncia, e até criam circuitos próprios com uma incrível diversidade de festivais e mostras – maneira criativa de atingir um público maior e por vezes desatento a tais temáticas.

Desde quinta-feira, até dia 31 de agosto, se realiza aqui em Buenos Aires a segunda edição do Green Film Fest – Cultura en armonía con el planeta, que além do encontro na capital portenha já fez projeções em El Calafate (sul da Argentina) e José Ignacio (Uruguai). No Brasil, neste mesmo fim de semana acontece o II Guará – Festival de Cinema Ambiental, que a Universidade Federal de Mato Grosso organiza em Barra do Garças (500 km de Cuiabá) até amanhã, 28 de agosto. Em terras brasileiras, há também o importante FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental, na cidade de Goiás, que em sua 13ª edição, em junho deste ano, atraiu grandes nomes como Arnaldo Jabor, Cacá Diegues e Fernando Gabeira para a discussão sobre cinema e meio-ambiente. Ainda em 2011, entre muitos outros eventos que privilegiam tal pauta, estão o Green Nation Fest, o 6º Festival de Cinema e Meio Ambiente de Guararema, o FriCine 2011 – V Festival Internacional de Cinema Socioambiental de Nova Friburgo, o CineCipó – Festival de Cinema Socioambiental da Serra do Cipó, o FestCineAmazônia – Festival Latino-Americano de Cinema e Vídeo Ambiental, além da Mostra Meio Ambiente, dentro da programação do Festival do Rio.

The Cove, de Louie Psihoyos (2009), e Gasland, de Josh Fox (2010), são alguns dos filmes que estiveram na Mostra Meio Ambiente do ano passado e que desembarcaram em Buenos Aires esses dias.

The cove, ganhadora do Oscar de Melhor Documentário de 2010, é uma baita super produção de Louie Psihoyos, mergulhador norte-americano que fotografou para a National Geographic durante 18 anos e em 2005 co-fundou a Oceanic Preservation Society. Louie acompanha uma “missão” em Taiji, Japão, na qual ativistas liderados por Ric O’Barry pretendem descobrir e divulgar o que acontece na cove, enseada, fiorde (vou ficar devendo a denominação geograficamente correta), de visão e acesso proibidos, onde estima-se que morram anualmente cerca de 23 mil golfinhos.

Ric O’Barry é um personagem interessante: treinador de golfinhos, nos anos 1970 foi contratado para adestrar o staff de Flipper, série que se tornou famosíssima e transformou os golfinhos nos bichos fofos e unanimemente amados pelas crianças. Depois de muitos filmes com golfinhos como stars e parques aquáticos onde tais animais são a principal atração, O’Barry se deu conta que havia condenado os animais que tanto amava à ferocidade dos espectadores dos SeaWorlds, a tanques apertadíssimos, e a uma rotina cruel fora de seu habitat natural. A partir de então, ele passou a se dedicar à luta contra a caça e cativeiro desses animais.

Para conseguir registrar o que acontece nesse cantinho da aparentemente pacífica Taiji, O’Barry e sua equipe (que tem desde mergulhadores até especialistas em efeitos especiais, todos nada bem-vindos ao local) armam um plano digno de Onze homens e um segredo: calada da noite, câmeras escondidas, risco de morte (ou, pelo menos, de umas boas bordoadas). É impressionante ver toda a movimentação clandestina, rodeada de perigo e tensão, e todo o investimento financeiro no plano (não paro de me perguntar da onde veio tanto dinheiro para a produção). Mais impressionante ainda são as imagens que eles conseguiram captar, as quais O’Barry transmite através de uma tela pendurada no pescoço enquanto caminha pela rua ou durante uma conferência (na ONU?) sobre o tema.

Louie faz questão de ir fundo em desconstruir quaisquer argumentos que possam justificar a barbárie que acabamos de ver – mesmo sendo esse ato desnecessário após as imagens suficientemente chocantes. Dessa maneira, cada vez mais chama o espectador para a indignação, ao mesmo tempo em que se dedica a canonizar o ativismo político através da figura cativante de O’Barry. Em nenhum momento o filme se dedica a observar, e é ativo tanto como cúmplice da ação que relata quanto na sua maneira de relatar, oferecendo de maneira brutal imagens brutais.

Gasland não tem nada da pomposidade de The cove, mas conquista justamente por sua simplicidade – e, principalmente, sinceridade. Ganhador do Prêmio Especial do Júri para Documentário no Sundance Film Festival de 2010, de uma batelada de outros galardões e de críticas positivas em todo mundo, Gaslandnão conseguiu distribuidor, e os festivais de temática ambiental têm sido seus principais refúgios.

Em Gasland, Josh Fox (que já dirigiu um longa sem muita visibilidade – Memorial Day, 2008, curtas e programas para tevê) recebe um e-mail que lhe oferece supimpas 100 mil dólares pelo arrendamento de sua terra, na Pensilvânia, para a exploração de gás natural, já que a linda casa ecológica construída pelos seus pais hippies no começo da década de 1970 e os numerosos hectares de quintal estão sobre uma enorme reserva da rentável fonte de energia.

Quando a esmola é demais, o santo desconfia e, antes de assinar o contrato, Fox decide buscar outras pessoas que fizeram o acordo e perguntar sobre a experiência delas. Nessa investigação, o diretor empreende uma espécie de road-movie por diversos estados norte-americanos, e tem uma surpresa quando se depara com as consequências da instalação das torres perfuradoras para a captação de gás: doenças misteriosas, água que se incendeia… e a velha história de abuso de poder e do tudo por dinheiro.

O espectador vai se aproximando do assunto devagarzinho, como Fox. Assim, ficamos sabendo das centenas de produtos químicos utilizados no processo de perfuração, das leis para proteção ambiental que foram revogadas e do questionamento do gás natural como uma energia limpa. Esse didatismo e o envolvimento afetivo de Josh Fox com o tema nos aproxima do filme, que abre mão da espetacularizaçãoa la Michael Moore para retratar o desespero dessa gente que pensou fazer um bom negócio e acabou encurralada por acordos de confidencialidade.

Ao mesmo tempo, faz falta ao filme um pouco do espírito do diretor de Tiros em Columbine. Josh Fox nunca consegue incomodar as altas esferas relacionadas ao assunto; não consegue ao menos chegar perto delas. Desde seus inúmeros telefonemas inúteis, passando pelas entrevistas com os afetados pelos problemas e desembocando na obscena audiência de desaforados engravatados, a sensação que se tem é de batalha já perdida, de cansaço e de impotência, contradizendo a crença de Fox de que a humanidade faria as escolhas certas. Desse modo, a reflexão do diretor perde força, servindo como um alerta que desperta o debate, mas não oferece coragem para que ele se torne tão relevante quanto merece.

A atitude de Josh Fox termina sendo inspiradora apesar de algumas tomadas muito ruins e das frustrações colhidas na pseudo-briga contra grandes empresas. Enfim, o que pulsa de verdade nos festivais de cinema ambiental é a capacidade dos filmes de estimular as pessoas a fazerem o que faz Josh: questionar.

(Publicado em 27 de agosto de 2011 na Revista Beta)

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