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Más allá de Almodóvar

BUENOS AIRES – Ontem, chegou ao Brasil o filme espanhol Balada de amor e ódio (Balada triste de trompeta, 2010), de Álex de la Iglesia, que levou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro no Festival de Veneza do ano passado. Álex é diretor consagrado na Espanha e na América espanhola há mais de uma década devido ao sucesso de O dia da besta (1995), que foi lançado no Brasil também, mas sem causar muito alarde. Para a maioria dos brasileiros, Álex de la Iglesia é uma novidade, já que o cinema espanhol contemporâneo que chega às salas geralmente se resume a Pedro Almodóvar.

Como em todo o mundo pós-revolução digital, houve na Espanha umboom de cineastas más allá das grandes produções de Almodóvar, das investidas hollywoodianas de Alejandro Amenábar (Os outros – 2001, Mar adentro – 2004) e da new sensation Álex de la Inglesia. Esses novos realizadores nasceram depois da morte de Franco e não viveram a ditadura, mas esse é um dos poucos pontos que eles possuem em comum – há uma multiplicidade de propostas, entre as quais se destacam o documentário de criação e os diálogos com a vídeo-arte. Geralmente, eles são mais reconhecidos fora de seu país, e têm presença assegurada em grandes festivais. Mercedes Álvarez, Sergio Caballero e Albert Serra são, para mim, algumas das joias dessa nova geração.

Mercedes Álvarez é diretora dos documentários El cielo gira (2004) e Mercado de futuros (2010), ambos realizados no âmbito do Mestrado em Documentário de Criação da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, onde ela é professora. Em El cielo gira, Mercedes viaja a Aldealseñor, vila na qual ela foi a última criança a nascer e que hoje conta com apenas 14 habitantes. Mercedes não se lembra do dia em que se foi de Aldealseñor, quando tinha três anos, e seu retorno relaciona-se com a recuperação das primeiras imagens que ela viu neste lugar, que hoje se desvanece. Além dessa busca pela memória, Mercedes registra o intervalo que precede a destruição, mas onde ainda há vida – entre as conversas dos campesinos, invadem a imagem a instalação dos monstruosos cataventos para energia eólica e a reforma do castelo que adorna a paisagem para a recepção de turistas, como se aquele fosse um lugar de ruínas que já pertence ao passado.

Paralelamente, a cineasta acompanha o artista plástico Pello Asketa, que também nasceu em Aldealseñor e está perdendo a visão por conta de uma doença. O pintor é de uma geração anterior à de Mercedes, e conhece cada cantinho daquele lugar que ficou parado no tempo – ele caminha pelo vilarejo mesmo às escuras. O crepúsculo se aproxima tanto de Asketa como de Aldealseñor: da mesma maneira que o povoado vai desaparecendo do mapa, a visão do artista vai se diluindo.

A narração de Mercedes emoldura os planos fixos, que por vezes se parecem a quadros. Apesar das cores sem brilho que dão um tom melancólico ao filme, a fala da diretora é serena, sem nostalgia, tratando a finitude como algo natural. O discurso entrelaça três tempos: o de Mercedes, o dos habitantes de Aldealseñor, e o da memória coletiva, representado pelas marcas dos dinossauros que passaram por ali.

Em Mercado de futuros, a memória também se constitui como eixo principal, mas o enfoque é diverso: enquanto em seu debut a motivação de Mercedes é mais pessoal que artística e ela explora algo muito confidencial, em seu segundo filme a cineasta de aproxima de algo que ela abomina: a padronização das cidades, que são transformadas em mercadorias a partir da febre dos grandes empreendimentos imobiliários, os quais destroem a memória desses lugares.

Mercedes parte do desalojo de uma antiga casa – a marca que o quadro retirado deixa na parede, o descarte da imensa biblioteca que um dia teve seus livros lidos com paixão, o desmonte dos móveis – para desenvolver um ensaio que gira em torno dos vestígios do ser humano através dos objetos. Mesclado a esse preâmbulo, estão as filmagens em um grande mercado de pulgas, em cuja paisagem caótica se destaca um velhinho em frente ao seu “stand” pleno de quinquilharias, que em sua placidez se nega a fechar qualquer negócio sob a desculpa de “se eu te vendo, fico sem nada!”. Mercedes não está tão conformada com o fato de que tudo vem, tudo vai, tudo é passageiro, como em El cielo gira, e não é só o velho que demonstra essa inquietação com o esquecimento, mas também uma sentenciosa voz em off.

Mercedes constrói uma oposição entre o que está sendo destruído e o que ainda não está construído, e para representar os traços do novo mundo se dedica a passeios por feiras-espetáculo do mercado imobiliário (recheadas de projetos inverossímeis em Dubai ou em Budapeste), sociedades de investimento e patéticas convenções sobre liderança: a mercantilização dos sonhos das pessoas. A cidade que a diretora mostra se aproxima da cidade de Jacques Tati: parecida a um teatro virtual; um cenário incômodo no qual nos sentimos estranhos. Porém, a rede que a cineasta tenta formar é um pouco frágil, e a simplicidade e delicadeza de El cielo gira funciona muito melhor que a sisudez de Mercado de Futuros.

Já em Finisterrae, de Sergio Caballero, não há lugar para sisudez. Caballero é compositor, artista plástico e diretor do Sónar – Festival de Música Avançada e Arte Multimídia, que se realiza anualmente em Barcelona. Quando o evento decidiu ter uma sede em La Coruña, Caballero – que nunca teve nada a ver com o cinema – quis filmar uma promoção sobre o Caminho de Santiago: dois fantasmas (“encarnados” por diversos atores sob um lençol com dois buraquinhos para os olhos) estão cansados de suas vidas de fantasma. Consultam o oráculo de Garrel – referência direta ao cineasta francês Phillipe Garrel, cujo La cicatrice intérieure (1972), em parceria com a cantora Nico, é grande inspiração para Finisterrae -, que lhes indica que eles devem fazer o Caminho de Santiago até o fim do mundo para abraçar a rotina dos mortais. Os fantasmas empreendem uma viagem por lugares lúgubres, em cinemascope, com uma fotografia escura (a cargo de Eduard Grau, outra revelação do cinema espanhol e que tem entre seus antecedentes a direção de fotografia de Direito de amar, de Tom Ford), enquanto filosofam em russo (!) sobre suas últimas visitas ao psiquiatra ou crenças no esporte a na boa alimentação.

Caballero experimenta com a estrutura clássica do road-movie, e faz uma mistura deliciosa de Alejandro Jodorowsky com David Lynch com Salvador Dali com Filmes B com Dom Quixote. Por três meses, ele rodou as imagens em diversas partes e paisagens do país, sem roteiro. Depois, fez a montagem, e por fim, adicionou os diálogos. O desfecho de Finisterrae é irresistível, e todo o filme um disparate deleitoso, cheio de inteligência, beleza e liberdade.

Quem não gostou muito foi Albert Serra, que tomou o filme como uma tiração de sarro de seuHonor de cavalleria (2006), no qual um Dom Quixote verborrágico e medíocre deambula por estradas e florestas acompanhado de Sancho Pança. A viagem da dupla não tem nada de emocionante como se convencionou pensar – entre as aventuras que deixaram Dom Quixote e seu fiel escudeiro famosos, Serra escolhe focar na melancolia e tédio dessas longas caminhadas no meio do nada. Em seu filme seguinte, El cant dels ocells (2008), o cineasta novamente faz uma destilação minimalista de um texto canônico ao acompanhar a jornada dos três reis magos que vão visitar o neném santo que acabara de nascer. Serra filma somente em digital, e a ausência de profundidade plasma seus personagens aos grandiosos cenários naturais, localizados tanto no interior da Espanha quanto em lugares místicos da Islândia. Albert Serra é o novo queridinho dos festivais europeus, e seus filmes têm tanto frescor quanto o de Caballero, apesar de carregarem uma gravidade muito maior queFinisterrae. Serra se leva muito mais a sério que o diretor do Sónar, e é mais conhecido por sua postura de esteta e seus discursos provocativos do que propriamente por seus filmes. Para ele, o cinema vai atrasado, e fazer cinema narrativo é como fazer um quadro impressionista: não tem mais sentido.

Assim como Caballero, Albert Serra é pupilo de Luis Miñarro, um dos grandes padrinhos desse cinema jovem. Criador da produtora Eddie Saeta, Miñarro aposta com força nos novos talentos do cinema independente e de vanguarda, e é nome fundamental nessa movimentação cinematográfica que acontece atualmente na Espanha. Além de trabalhar com Serra e Caballero, Miñarro revelou Isabel Coixet ao produzir seu primeiro filme, Confissões de um apaixonado (Cosas que nunca te dije – 1996), e fez parcerias com outros diretores de destaque do país, como Jose Luis Guerin (En la ciudad de Sylvia – 2008). A Eddie Saeta ainda apoiou o português Pedro Costa em seus inícios e também participou de produções recentes de outro português, o centenário Manoel de Oliveira (O estranho caso de Angélica – 2010 e Singularidades de uma rapariga loura – 2009), e é co-produtora do vencedor da Palma de Ouro de 2010: Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, do tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Logo, logo, La piel que habito, o novo Almodóvar, desembarcará no Brasil. Aproveitando o embalo com Balada de amor e ódio, é uma ótima oportunidade para conhecer a nueva ola do cinema espanhol. Como os filmes desses diretores andam passeando por festivais, frequentemente podemos encontrá-los no MUBI para assisti-los free – ou a preço de gazpacho…

(Publicado em 13 de agosto de 2011 na Revista Beta)

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