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Rede de intrigas – El estudiante, de Santiago Mitre

BUENOS AIRES – O cineasta argentino Santiago Mitre se surpreendeu com a reação das pessoas quando começou a mostrar seu novo longa, El estudiante: todos o viam como um thriller, coisa que ele nunca havia imaginado. Mas ele não discorda, e assume que existe um gérmen de intriga tão importante nas pessoas que fazem política – as quais estão no centro da trama – que a tensão que nasce dos personagens se apodera do filme e dá a ele essa atmosfera de suspense.

El estudiante terá sua première mundial na seção Cineasta do Presente, dentro da 64ª edição do Festival de Locarno, na Suíça, que começa hoje e vai até 13 de agosto. Na programação, entre os conterrâneos de El estudiante, estão Abrir puertas y ventanas, de Milagros Mumenthaler, Papirosen, de Gastón Solnicki e, fora de competição, a carta de Lisandro Alonso para Albert Serra. Entre os brasileiros que participam do festival, dois curtas-metragens: Mens sana in corpore sano, de Juliano Dornelles, e Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.

Não é a primeira vez que o filme de Mitre se encontrará com o público: El estudiante foi exibido no BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente) deste ano, em abril, e teve suas três sessões esgotadas logo nos primeiros dias de venda de entradas, semanas antes das exibições. O longa acabou levando o Prêmio Especial do Júri na Seleção Oficial Internacional, além de ser laureado pela Associação de Diretores de Fotografia e pela FEISAL (Federación de Escuelas de Imagen y Sonido de América Latina). Enquanto Mitre pensava que a temática do filme estava muito arraigada à Argentina, a produção foi convidada para diversos festivais mais, tanto em Toronto como na longínqua Hong Kong.

Em El estudiante, acompanhamos ao jovem Roque, vindo do interior da Argentina para estudar na UBA – Universidad de Buenos Aires. Deambulando neste cenário novo, de aula em aula, de festa em festa, de cama em cama, sem saber muito o que fazer, o protagonista se envolve no movimento estudantil através de Paula, quem ele vê discursando (e apenas vê, sem se preocupar pelo que está ouvindo) durante uma assembleia.

Antes que Mitre subisse a um avião com destino a Locarno, e eu subisse em outro para uma rápida visita ao Brasil, o diretor me emprestou uma cópia de seu filme – com direito à promessa de que no dia seguinte eu a devolveria sem passá-la por nenhum processo do Nero Start Smart –, e uns dias depois nos encontramos em um bodegón (o boteco portenho) para conversar sobre El estudiante.

Depois de pedir uma cerveja, Mitre se desculpou pelos dez minutos de atraso. Começou pelo histórico da sua relação com o cinema: ele não gostava da estrutura ampla do curso de Imagem e Som da UBA (Universidad de Buenos Aires), e não foi aprovado na ENERC (Escuela Nacional de Experimentación Cinematográfica), escola de cinema pertencente ao INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales). Ganhou uma bolsa de estudos e ingressou na FUC, Fundación Universidad del Cine, criada no início dos anos 1990 e fundamental no panorama do cinema argentino contemporâneo. Mitre é roteirista há muitos anos – parceiro de Pablo Trapero em Abutres (2010) e Leonera (2008), trabalhou também com Adrián Caetano e Jorge Gaggero -, atua eventualmente em publicidade, e como diretor tem no currículo o curta El escondite (2002) e o longa a oito mãos El amor – Primera parte (2005), no qual divide os créditos com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Juan Schnitman. El amor é uma produção independente, sem apoio do INCAA (ou seja, sem dinheiro público), coordenada pelo badalado Mariano Llinás, diretor de Historias extraordinarias (2008) e também co-roteirista de El estudiante.

El estudiante, que tem previsão para estrear em setembro no circuito alternativo de salas de exibição de Buenos Aires – MALBA (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), Sala Leopoldo Lugones do Teatro San Martín, Fundação PROA -, tampouco contou com financiamento estatal. Mitre conta que o Instituto funciona de maneira bastante restritiva para primeiras obras, e que ele preferia não se envolver em um mar burocrático no qual viu muitas produções naufragarem: “Os diretores que querem aceder ao benefício para primeiro filme só podem fazê-lo através de concursos: há dois ao ano, com três prêmios cada um. Nós nos apresentamos em um desses concursos e perdemos. Então, a única possibilidade que nos restava era associar-nos a uma produtora que tinha antecedentes ante o Instituto. Da maneira que as coisas funcionam no momento, nós nos envolveríamos em um trâmite que levaria no mínimo um ano, até dois: fechar acordo com uma produtora, apresentar ao INCAA, fazer uma pré-classificação, uma solicitação de crédito (na verdade, duas: que me outorguem e liquidem o crédito). Preferimos fazer o filme com as coisas que tínhamos a disposição, que por sorte não eram poucas: apoio da FUC (onde nos formamos quase todos da equipe), que nos deu equipamentos; apoio da Matanza Filmes, de Pablo Trapero, que também nos forneceu equipamentos; a produtora Pampero Cine; e a Universidad de Buenos Aires, que permitiu que utilizássemos as instalações. E, claro, equipe técnica e elenco que entendiam que o filme só poderia realizar-se mediante a resignação de muitíssimos honorários – em muitos casos, trabalhando quase de graça”. Santiago continua explicando como funciona a co-produção com a FUC, que aparece nos créditos de muitos filmes argentinos atualmente: “A FUC colabora muito em projetos de ex-alunos principalmente através do empréstimo de equipamentos e laboratórios. É uma espécie de política educacional deles: interessa à instituição que seus alunos façam filmes, e eles facilitam para que isso aconteça. Em minha opinião, tem sido uma iniciativa interessante, porque isso tem possibilitado mais de 20 filmes por ano”.

O diretor conta que havia duas coisas na origem de El estudiante: “Primeiro, a ideia de filmar na UBA. Havia algo na arquitetura desse lugar que me atraía… É uma instituição estranha, que eu não conheço – estive só de passagem, fazendo uma matéria -, e que não sei o porquê exatamente, me interessava. E depois, alguns questionamentos antigos com relação à vocação: o que é ter vocação, o que é querer fazer algo. Em um ponto, parece quase divino, e até acho que a palavra ‘vocação’ vem de algo meio religioso. Como se encontra uma vocação ou como ela se constrói. Pensava em um personagem que estava meio perdido, sem saber o que fazer da vida, provando com uma carreira, provando com outra, até que se deparava com a política e encontrava nela sua vocação. E há uma particularidade que eu notava que é a presença da política na atualidade, como se ela fosse uma profissão mesmo. Meu personagem entra na política com essa lógica. No meio do caminho, pensei o filme também como um relato moral, em que o protagonista se ‘desencontra’ com sua vocação ao se dar conta de que as coisas não são como deveriam ser: aproximando-se da prática, a política se torna vazia, mesquinha”.

Apesar de não ter cursado a UBA, a aproximação de Mitre com a política não foi tão virgem quanto a de seu personagem. O cineasta vem de um colégio estatal muito politizado, que tinha centro de estudantes e certa vida política, e ele trazia algo dessa dinâmica daquela época. Além disso, ele comenta que sua família é muito politizada, e na sua casa quase não se falava de outra coisa que não fosse política. Assim, havia algo na política quase como um ente abstrato que o interessava. O diretor pesquisou muito sobre as especificidades da política universitária e do movimento estudantil: durante cerca de dois anos foi às aulas, tirou fotos da universidade, filmou assembleias, entrevistou gente que militava ou havia militado. “Quando terminei a primeira versão do roteiro, comecei a trabalhar com Diego García, um amigo que tinha feito toda a carreira de Filosofia na UBA e havia sido do movimento estudantil. Com ele, lapidei os diálogos, incorporando a gíria particular das militâncias, o que deixou o filme com uma percepção de realidade muito forte. A intenção sempre foi utilizar as políticas dentro da UBA como uma metáfora do funcionamento de qualquer instituição na argentina, de maneira a observar os processos políticos da universidade para entender os processos políticos da Argentina ou, de certo modo, da política argentina agora”, relata.

Como Santiago trabalha como roteirista, se dedicava ao filme em seu tempo livre, o que fez dele um processo muito longo: além dos dois anos de pesquisa e armado do roteiro, as filmagens se estenderam de agosto de 2010 a fevereiro de 2011. Esse período foi particularmente tumultuado na Argentina: em 20 de outubro, o jovem militante Mariano Ferreyra foi assassinado durante uma manifestação que entrou em choque com a CGT (Confederación General del Trabajo), burocracia sindical amparada pelo governo. A morte gerou uma série de protestos e o “caso Ferreyra” se transformou em um símbolo da oposição que complicava seriamente a Casa Rosada. Uma semana depois, faleceu Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina Kirchner e considerado o verdadeiro poder no gabinete da mulher. Em um deslocamento hábil, concentrar-se no ambiente universitário permitiu a Mitre um pouco de abstração com relação ao momento político atual, mas vez ou outra é possível entrever os fatos que marcaram o momento – principalmente entre a sufocante infinidade de cartazes que cobrem as sujas paredes da Facultad de Ciencias Sociales. “Havia uma busca pelo realismo: tinha que ser muito realista, e que se perceba como um filme realista. Havia a tensão entre a ficção pura (pois o filme é isso) e o modo de filmar com a câmera escondida ou intervindo em situações. Há algo do documental que se filtra. E nisso a UBA é bastante impressionante como reflexo do devir político argentino. Todas as discussões que se dão no governo se rediscutem dentro da universidade”, diz  Mitre. “Quando começamos a filmar”, continua, “houve um conflito devido à condição dos edifícios dos colégios secundários. E a UBA também tem muitos problemas com suas instalações – e a Facultad de Ciencias Sociales, onde filmávamos, tinha mais problemas ainda (tanto que eles nem estão mais nesse prédio que mostra o filme). Então, a Ciencias Sociales se uniu aos secundaristas, houve um incidente com a queda de uma janela, e o centro de estudantes e algumas agrupações decidiram tomar a universidade. Foi uma ocupação sem precedentes de 45 dias ininterruptos que tivemos a sorte de poder registrar. E quando terminou esse conflito aconteceu o de Mariano Ferreyra, que foi algo muito significativa para o movimento estudantil. E depois houve a morte de Kirchner. Era incrível. Estávamos fazendo uma ficção e tínhamos claro que estávamos fazendo uma ficção, mas às vezes era muito tentador fazer um documentário sobre os acontecimentos tão marcantes do momento. Há muitas questões que ficaram de fora do filme (como uma imagem impressionante da Plaza de Mayo no dia do funeral de Néstor) porque preferimos circunscrevê-lo em um cenário mais universal, sem chamar a atenção para nenhum episódio – sobretudo porque queríamos manter um modo de análise política mais geral, evitando também correr o risco de deixar o filme datado. Mas era isso mesmo que você queria me perguntar?”. Sim, era isso.

Concentrado na observação, e não na crítica, Mitre escapa de clichês como o desprezo pela política ou a reivindicação romântica da militância. “Eu tenho muito claro quem são os maus e quem são os bons no filme; com quem estou de acordo e com quem estou em desacordo”, revela o cineasta. “Mas quando escrevo e faço escolhas não posso evidenciar isso. Tenho que tentar fazer um retrato em que o personagem tenha sua lógica; mesmo que ele esteja fazendo coisas más ele deve crer que está fazendo coisas boas ou por um bem maior. Essa lógica eu não podia abandonar nunca. E no protagonista é onde se vê toda essa ambigüidade: ele participa de encontros nebulosos, defende um amigo acusado de roubo – tudo porque entende que esse é o modo para que sua agrupação, que vai lograr mudar algumas coisas na universidade, possa chegar ao poder. E acontece o mesmo com todos os personagens. Eles creem que estão participando de algo que é bom – o que está ótimo, porque demonstra que existe paixão e um compromisso com suas ideias”, completa.

Digo a Mitre que, também para mim, El estudiante é um thriller: a descrição que ele dá do universo político como uma rede de intrigas, como um jogo interminável de acordos e traições, carrega o ambiente de conflito a la O poderoso chefão. Neste círculo onde ou se mata, ou se morre, as negociatas são sempre às escuras, rodeadas por ruídos que impedem o completo entendimento dos diálogos, e a vibrante câmera na mão enfatiza os corpos trêmulos por dentro, e rígidos por fora. Os inúmeros primeiros planos só revelam o sangue frio dos personagens nesse redemoinho de conspirações.

Santiago vê o filme um pouco como um conto moral, relacionado à iniciação e à perda da inocência. Usou o texto El muerto, de Jorge Luis Borges, como modelo narrativo de ascensão de um personagem, assim como A educação sentimental, de Flaubert, que se relaciona com a chegada em um lugar novo e à maneira de olhar esse lugar cheio de novidades. Ele fala também de muitos filmes que não se ligavam especificamente ao tema de El estudiante, mas que o fizeram pensar bastante durante o processo: A doce vida (Federico Fellini, 1960) e A mãe e a puta (Jean Eustache, 1973), além de Zabriskie Point(Michelangelo Antonioni, 1970), cujas cenas iniciais, em uma universidade, lhe serviram de referência. Mitre conta que aprendeu muito com os diretores com quem trabalhou, os quais são inegáveis como grandes influências: principalmente Pablo Trapero – é evidente, por exemplo, a presença de Do outro da lei (2002) em El estudiante – e Mariano Llinás, cuja colaboração parece estar centrada na voz off que permeia El estudiante, a qual fez com que eu me lembrasse do narrador de Historias extraordinarias.

Converso com Mitre sobre a presença desse narrador, que me parecia um pouco deslocado frente ao sólido roteiro. “O filme se apresentava como um universo ficcional forte. E eu sentia a necessidade de incorporar certas coisas da História argentina. Queria representar a política como ente abstrato. E acho que o narrador reforça esta ideia, além de ter sido um bom recurso para que eu pudesse fazer referências históricas e poder falar do alfonsinismo, da volta da democracia, do peronismo, de Lisandro de la Torre… Queria que as pessoas notassem que  se estava falando sobre a lógica de certas maquinações políticas as quais estiveram por trás de muitíssimos fatos importantes da História argentina. E também porque o narrador dá essa coisa de relato, de história, que emoldura e diz ‘estou contando isso’, que era importante para mim”, assevera.

Mitre fala que sua maior inspiração vem de estar em contato com gente que tem vontade de fazer e discutir cinema, e revela sua admiração pelo cinema argentino contemporâneo. Comenta que achava interessante um filme como o dele no panorama nacional – com personagem definido, narração precisa, tema forte: características deixadas um tanto de lado pelo cinema independente do país ultimamente. Nas poucas exibições até agora, surgiu um debate recorrente sobre o desenvolvimento clássico pelo qual Mitre optou, e as perguntas e críticas se relacionavam principalmente com o final adotado pelo diretor. Mas essa parte da nossa conversa eu não posso contar.

(Publicado em 03 de agosto de 2011 na Revista Beta)

Discussão

Um comentário sobre “Rede de intrigas – El estudiante, de Santiago Mitre

  1. E “El estudiante” levou o prêmio especial do júri na categoria Cineasta do Presente do Festival de Locarno! Quando chega no Brasil, hein, hein, distribuidoras???

    Publicado por Natalia Barrenha | 14/08/2011, 23:07

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