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Woody Allen begins

BUENOS AIRES – Woody Allen diz que, quando empaca e não consegue desenvolver uma ideia, ele gosta de tomar uma ducha. Em algumas ocasiões, nem precisa: só mudar de ambiente – do escritório pra sala, do quarto pra cozinha – ajuda a destravar seu processo de criação. Apesar de a crise criativa ser um mal dos mais humanos, às vezes é difícil acreditar que, 45 anos e 42 filmes na direção depois, alguém como Woody Allen padeça de conflitos que emperrem o fluir da invenção.

Esses dias vi a melhor descrição do cineasta norte-americano, pelo escritor Márvio dos Anjos: “na categoria meio-médio-ligeiro, Woody Allen é campeão do mundo”. Pois é: depois de tantos e tantos longas, tantos e tantos sucessos, a última produção do diretor, Meia-noite em Paris, conseguiu ser o filme mais rentável de sua carreira, ultrapassando Hannah e suas irmãs, de 1986. Até nos Estados Unidos, onde pouca gente dava bola pra Woody Allen ultimamente – casar com a enteada tinha sido demais para oamerican way of life -, o filme teve lá seus recordes.

Allen nasceu no Brooklin, em 1935, como Allan Steward Konigsberg, e em 1952 começou a escrever piadas para jornais. Adotou o pseudônimo por vergonha de seus colegas, com medo que eles descobrissem seu ofício. E também porque pensava que todos que estavam no show-business deveriam ter um nome artístico. Começou a escrever para outros comediantes, e uns anos depois foi levado para a rede de televisão NBC, em Hollywood, dentro de um plano de desenvolvimento de novos roteiristas. Em 1960, ganhava um salário 80 vezes maior que suas primeiras remunerações. Nessa época, começou a se dedicar a monólogos cômicos, e suas atuações como humorista lhe renderam o contrato como roteirista e ator para O que é que há, gatinha?, comédia com maior bilheteria em 1965.

Protagonizada por Peter Sellers e com direção de Clive Donner e Richard Talmadge, O que é que há, gatinha? tinha pouco a ver com o roteiro original de Allen, o qual afirmou que se os produtores tivessem se afeiçoado mais ao que ele havia escrito o filme teria o dobro de diversão, mas a metade do sucesso. E ele percebeu que, se quisesse escrever filmes, precisaria do controle total sobre sua obra. E assim tem sido em todos os filmes que dirigiu e escreveu até hoje.

O que há, Tigresa?, de 1966, é e não é a primeira produção de Allen como diretor. O que há, Tigresa? é uma espécie de avô do Tela Class de Hermes e Renato: a AIP, American International Pictures, costumava fazer uns frankensteinscinematográficos com filmes que comprava do mercado asiático, os quais tinham a trilha sonora apagada e eram redublados. Em ascensão como roteirista, Allen foi chamado para transformar o thriller de espionagem japonês Key of Keys(Senkichi Taniguchi) em comédia. A busca por um microfilme se transformou na caçada pela salada de ovos perfeita, sem perder o toque James Bond. Nonsense nu e cru, são necessárias algumas inserções do diretor tentando explicar do que se trata o filme. Em algum momento do processo, Allen se desentendeu com o estúdio e saiu do projeto, e até mesmo seu personagem de diretor foi redublado.

Em 1969, Allen escreveu e dirigiu Um assaltante bem trapalhão (Take the money and run), onde também atuou. Em suas entrevistas a Eric Lax, no livro Conversas com Woody Allen, o cineasta conta que seu produtor Jack Rollins não queria que ele atuasse e dirigisse pois poderia gerar uma sensação de prepotência em torno do “estreante”. Allen explica que não se importava em não dirigi-la, mas era difícil encontrar alguém disposto a tocar um projeto miúdo como aquele. Jerry Lewis se interessou, mas ele era da United Arts, produtora de O que é que há, gatinha?, que não queria se envolver mais com Woody. Ao final, uma companhia nova chamada Palomar Pictures topou realizá-la, e como não tinha poder de negociação por seu pequeno porte, Woody assumiu sem problemas os papéis de diretor e protagonista.

Um assaltante bem trapalhão é um documentário falso com direito a narrador onisciente, depoimentos, entrevistas e cenas dramatizadas – em Zelig (1983), Allen voltaria ao mockumentary. A trama trata de um desajustado social que se entrega ao mundo do crime, mas nem aí o pobre consegue se dar bem. Seu próximo filme, Bananas(1971), demonstra a inventividade de Allen para criar uma história: Fielding Mellish, um fracassado (outro!) testador de produtos em uma empresa, se apaixona por uma ativista política hipponga que lhe dá um pé na bunda. Para curar o fora, ele viaja a San Marcos, uma ilhota da América Latina sobre a qual sua amada falava o tempo todo. Mas San Marcos estava em pleno processo revolucionário contra uma ditadura, e Mellish, ao envolver-se com os revolucionários, acaba libertando o país e se torna seu presidente, reconquistando seu amor.

Com humor descompromissado, já temos vestígios de muitos elementos que estarão presentes em diversos momentos de sua filmografia – a começar por sua persona com os grandes óculos de armação negra e a calvície disfarçada nos cabelos desgrenhados. Também começam aí as visitas ao psicanalista, o medo da morte, o jazz, a relação problemática com os pais, o judaísmo, a maneira aguçada de observar os estereótipos e até citações de seus ídolos, mesmo que de maneira sutil e desajeitada – como na cena do carrinho de bebê nas escadarias, em Bananas.

Nesses primeiros filmes, é muito forte o background de Allen como showman e cômico dos palcos, e o humor visual predomina sobre a verborragia de suas produções mais consagradas como Annie Hall (1977) e Manhattan(1979). Allen ainda não tinha intimidade com a linguagem cinematográfica e sofria principalmente com a imaturidade rítmica de seus roteiros episódicos. Apostando nas gags, Woody Allen nos remete a um Carlitos neurótico ou às situações absurdas e tramas anárquicas dos ingleses do Monty Python. Ele mesmo comenta a Eric Lax sobre a falta de argumento de seus primeiros filmes: “Se uma comédia tem argumento, se trabalha em ótimas condições. Quando se faz uma comédia carente de argumentos como Bananas, o que se apresenta é uma autêntica façanha – tem que ser engraçado do princípio ao fim; depois de uma hora de filme nada do que se mostrou antes serve. Então, o final tem que ser seis vezes mais divertido. Ao invés disso, quando se parte de uma premissa e se tem uma história em mãos se pode tirar proveito de tudo que foi sendo semeado pelo caminho. Em Um assaltante bem trapalhão Bananas trabalhei muito duro para conseguir manter o interesse do espectador, e não sei se consegui”.

Após Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar (1972), organizado emsketches, Allen realiza O dorminhoco (1973), que demonstra o encontro do diretor com uma narrativa melhor estruturada. Além disso, o cineasta deixa de ser o centro das atenções e escreve mais afiado para outros personagens – no caso, Diane Keaton, a quem Allen aproveitava muito bem a verve cômica e que seria sua parceira em muitas outras produções. É em O dorminhoco também que se impõem os clássicos créditos em branco, com fundo preto e jazz, que abrem e fecham todos os filmes de Woody Allen a partir de então.

Eric Lax, biógrafo do cineasta, conta que, logo após seu primeiro encontro com Allen, em 1971, não teria apostado um centavo nas possibilidades de êxito daquele homenzinho cujo nome figurava na abertura deO que há, Tigresa?Um assaltante bem trapalhão Bananas. Para Woody Allen, o insight de banho funcionou mesmo.

(Publicado em 27 de julho de 2011 na Revista Beta)

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