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Andrei Ujica: As imagens fazem a História possível

BUENOS AIRES – Rodica Marcau tem metade do corpo enfaixado e grita, grita de dor. Entra no quarto carregada por outras pessoas. É colocada na cama, e quando vê que há uma câmera no local, pede para deixar uma mensagem. Após perguntar se estavam gravando som e imagem, a jovem entra em estado de transe ao despejar seu discurso. A descrição desta cena, abertura de Videograms of a revolution (1992), não dá conta do horror que ela transmite. O filme não tem créditos, não tem abertura, não tem fundido em negro – de repente aparece Rodica urrando, suas mãos cheias de hematomas, uma toalha cor-de-rosa suja de sangue velho na cabeceira da cama, a exposição odiosa da violência da polícia romena. A força e crueza desta imagem nos paralisarão por todo o filme, para além dele, por muitos e muitos dias.

Na Romênia, a revolução foi televisionada. Em dezembro de 1989, dias antes da queda do ditador Nicolae Ceausescu, que comandava o país desde 1965, manifestantes tomaram a televisão pública e assumiram sua programação por 120 horas ininterruptas. Em Videograms of revolution, o cineasta romeno Andrei Ujica e o alemão Harun Farocki unem imagens dessas transmissões com vídeos amadores que enquadravam o início da ruína de Ceaucescu. Videograms é a primeira parte da trilogia sobre o fim do comunismo levada a cabo por Ujica, que esteve em Buenos Aires durante o 13º BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independente), em abril deste ano.

Ujica é um velhinho, baixinho, com uma agilidade incrível, e a cada vez que topei com ele pelo festival – debates, conversas pós-filme, praça de alimentação do shopping – ele falava uma língua diferente: inglês, francês, alemão, tentativas de espanhol e algo que eu acho que era romeno. Nasceu em 1951 em Timisoara, a mais importante cidade romena depois da capital, Bucareste. Estudou literatura em seu país, e emigrou para Alemanha (onde vive até hoje) em 1981. Em 1990, começou a dedicar-se ao cinema, e o documentário em parceria com Farocki foi seu debutOut of the present (1999) e The autobiography of Nicolae Ceausescu (2010) completam sua filmografia de longas até agora, a qual se soma alguns curtas para tevê e museus. Em 2001, tornou-se professor de cinema da Universidade de Artes e Desenho de Karlsruhe, também na Alemanha, e no ano seguinte fundou na mesma cidade o ZKM Film Institute, do qual é diretor. Em tempos de Primavera Árabe, rever seus filmes é fundamental.

The autobiography of Nicolae Ceausescu foi sensação no Festival de Cannes de 2010, e uma das curadoras do BAFICI (o qual contava com mais de 400 títulos no catálogo), ao fazer uma apresentação do filme, contava que o longa de 180 minutos era a joia dos programadores devido ao novo olhar que proporcionava tratando-se de found footage. Assim como em Videograms, em The autobiography Ujica só utilizou imagens que já existiam, fazendo algo assombroso com o que poderia se considerar morto e sonolento como arquivos oficiais.

The autobiography inicia-se com uma entrevista (está mais para julgamento) de Nicolae e sua esposa Elena. Faltavam poucos minutos para a execução de ambos, que seriam fuzilados; liquidados ao estilo em que eles mesmos liquidavam. Mas não interessava a Ujica o voyeurismo do assassinato, mas sim o longo flashback que tomara Nicolae durante o juízo final. A partir daí, vemos desfilar a ascensão, glória e queda do carrasco, uma mise en scène de suas memórias.

Nessas três horas seguimos Ceausescu, estrela inabalável do partido comunista romeno, dono de títuloshonoris causa, convidado do Palácio de Buckingham, de Camp David, do Kremlin, alvo de homenagens soberbas na China. Em meio à grandiloquência das atividades do líder que acompanhamos, o mais impressionante são as recepções de Ceausescu na Coreia do Norte, esse canto do mundo que despreza nossa avidez por suas imagens. As apresentações que o líder romeno e Kim Il-Sung assistiam em um estádio, com aquelas formações humanas que vão mudando de forma, deixam no chinelo qualquer abertura milionária de olimpíada e fazem Leni Riefenstahl parecer Lisandro Alonso tal seu minimalismo comparado ao que acontecia nessas ocasiões.

The autobiography levou três anos para ficar pronto. Ujica começou seu trabalho sobre 1000 horas de material, que estavam concentrados em duas instituições: o instituto de cinema e a televisão nacional. Durante um ano, dois pesquisadores selecionaram, sob a supervisão do diretor, cerca de 250 horas. As instruções de Ujica nessa primeira fase do projeto se concentravam em separar tudo que fosse: material bruto, momentos políticos importantes que ele havia assinalado, situações fora do protocolo. Depois, Ujica começou a editar junto com sua colaboradora habitual, Dana Bunescu (editora e sound designer de diversos sucessos romenos, como 4 meses, 3 semanas, 2 dias Contos da Era Dourada). Ele conta que explicava a Dana como queria a cena; ela lhe mostrava várias propostas e ele escolhia. Levaram outro ano neste esquema, organizando e catalogando o material, cuja menina dos olhos era sempre as filmagens brutas e as possibilidades que elas ofereciam de voltar no tempo e reconstruí-lo. Nesse momento, quando começou a montagem definitiva, a dupla já conhecia perfeitamente o que tinha em mãos, e esse processo levou apenas cinco meses, seguido de cinco meses de trabalho com o som – grande parte do material não contava com som, já que naquela época ele não era sempre registrado -, e mais dois para pós-produção.

Ujica pensa que essas imagens são interessantes porque, produzidas em uma época em que governo e mídia eram a mesma coisa, estão construídas para e desde o ponto de vista do chefe de Estado, de forma a construir a imagem dessa pessoa. Não existem imagens de outros pontos de vista. Assim, a única maneira de contar a história de um ditador a partir de imagens já existentes é fazer um filme a partir do olhar dele. Para o cineasta, The autobiography é uma espécie de ficção mas, consciente, Ujica escapa de qualquer limitação e assevera: “À ficção histórica,  geralmente falta algo em relação à realidade ou à veracidade da História. A ficção clássica faz um esforço para criar uma realidade, mas sempre falta algo. Ao contrário, o documentário clássico sempre tem algo demais – um tom pedagógico que guia o espectador. O que me parece interessante do cinema que proponho é que busca a mesma emoção que se poderia encontrar em um filme de ficção, mas gerando-a com fragmentos da realidade. Quando isso funciona, a intensidade da transmissão dos sentimentos é muito mais forte que a do documentário ou a ficção clássicos. É fascinante o acesso aos materiais de arquivo porque eles conservam fragmentos da vida em sua complexidade, e não sei se a ficção dá conta da mise en scène da vida. Ainda não encontrei uma denominação para o que eu faço – só posso defini-lo por negação. Só duas coisas são certas: meu último filme está feito através de documentos mas é não documentário; e provavelmente também não é uma ficção”.

A ideia inicial de The autobiography surgiu em 2005, quando Ujica foi convidado a ir a Bucareste porque a televisão romena ia transmitir, pela primeira vez, Videograms. Na ocasião, ele reencontrou a produtora Velvet Moraru, que havia sido sua assistente no filme com Farocki. Velvet questionou-o se já não era hora de se fazer um filme sobre Ceausescu, e Ujica prometeu que ia pensar em uma perspectiva para abordar o assunto. Ujica sempre trabalhou pensando no título de suas produções em primeiro lugar, pois ele tinha muito claro que toda a estrutura de seus filmes estavam contidas no título. Três meses depois, seu amigo Peter Sloterdijk ficou sabendo do interesse do diretor pela figura de Fidel Castro, e lhe presenteou com o livro The autobiography of Fidel Castro, cuja capa dizia: A novel by Norberto Fuentes. Após essa ocasião, ele se deparou com The autobiography of Alice B. Toklas, escrito por Gertrude Stein nos anos 1930, e sentiu esses títulos como incentivos; como ordens, até. E tal abordagem lhe pareceu ideal para o caso de Ceausescu.

Videograms nasceu com Farocki, que em 1991 visitou Ujica e lhe propôs a realização de um filme a partir de quatro diálogos editados em um livro sobre a queda de Ceausescu. O romeno não se interessava em fazer uma adaptação ou um documentário, cabeças falantes ou entrevistas, e pensou que seria mais atraente mostrar coisas que não estavam nessas conversas, lembrando-se das inúmeras imagens caseiras feitas na ocasião e da televisão tomada durante a revolução. Primeiro, eles pensaram em uma análise desconstrutiva de tais imagens, mas tomaram outra direção ao observarem que seria mais atraente reconstruir esse movimento da História.

The autobiography segue nessa mesma direção, assim como Out of the present, no qual Ujica deu uma câmera (a primeira de 35 mm no espaço!) ao cosmonauta soviético Sergei Krikalev, engenheiro de voo da missão que passou 311 dias, 20 horas e um minuto (entre maio/1991 a março/1992) a bordo da estação espacial MIR. Quando Krikalev retornou à Terra, ele continuou sendo um cosmonauta consagrado, mas não era mais soviético: a URSS havia acabado de vez. Ujica escreveu um roteiro que funcionaria como uma espécie de diário de Anatoli Arzebarski, que acompanhou Sergei em parte da missão. Enquanto Sergei está imerso em sua rotina de comer, fazer exercícios, testes e curtir a gravidade zero, Anatoli vai contando sobre o caos ao qual seu companheiro estava alheio, retratado por imagens amadoras da Rússia e do leste europeu em chamas.

Ujica recriou todo o som do filme, já que a qualidade do material original era péssima. Ele falou muito sobre a dificuldade de fazer o som do espaço, principalmente do ponto de vista conceitual, já que ele havia descartado a verossimilhança do silêncio absoluto. O cineasta tinha a intenção de emular algo de 2001 – Uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968), que para ele possui a melhor trilha sonora de todos os tempos. Nesse processo, o diretor imaginou o espaço como mar, e registrou em estúdio o som de uma concha. Há também o techno, que Ujica acha péssimo. Entretanto, ele justifica que esse tipo de música, além de ser potente, é muito representativo do início dos anos 1990 e se relaciona intimamente com computadores primitivos e toda a parafernália que então era exclusiva de grandes epopeias como os programas espaciais.

Em uma conversa com o diretor do Bafici e crítico de cinema Sergio Wolf, Ujica relatou que não havia um plano para uma trilogia quando ele fez Videograms Out of the present, e que a ideia de relacioná-las emergiu apenas com The autobiography. O cineasta discute as diferenças de ponto de vista que marcam os três filmes realizados sob a crença de que as imagens fazem a História possível: em Videograms, ele e Farocki tentam (re)construir uma narrativa discursiva da História usando documentos históricos; o que está muito próximo de The autobiography, armado apenas com imagens já existentes, mas a partir da perspectiva de Ceausescu, personagem de sua própria novela histórica. Já em Out of the present, mesclam-se imagens de arquivo com as imagens produzidas por Krikalev (não há nada filmado por Ujica nos três longas), costuradas pelo relato de Anatoli, o qual era, na verdade, uma armadilha, já que totalmente criado pelo diretor.

Durante o debate, comentou-se a sensação de estar vendo ficção científica ou imagens de um planeta remoto quando assistimos a filmes da Europa do Leste sob o comunismo, e Ujica rematou: “É um problema muito mais geral do que se pensa. Sempre que se veem imagens de um momento específico do passado, há uma forte sensação ficcional, seja tratando-se da Primeira Guerra ou de exploradores do Pólo Norte, como aparecem nos filmes de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi. Ao mesmo tempo, do material de arquivo das ditaduras, tanto de esquerda como de direita, surpreende ver a mise en scènepropagandística da vida privada dos governantes, que se converte em algo de índole surrealista, teatral. As pessoas se perguntam como pode ser que povos inteiros aceitaram interpretar papéis nesses shows montados pelas ditaduras sobre um pano de fundo tão terrível. Finalmente, o grande espetáculo propagandístico acaba pondo em cena a estupidez pública. A estupidez coletiva sempre está presente. A única diferença é que nas sociedades democráticas a estupidez pública está privatizada. Também para as sociedades livres poderia se construir um espelho aterrador delas mesmas”.

Você pode ver aqui o site oficial de The autobiography of Nicolae Ceausescu aqui o site de Andrei Ujica.

Dica: Videograms of a revolution está disponível em oito partes com legendas em inglês no You Tube.

(Publicado em 20 de julho de 2011 na Revista Beta)

Discussão

3 comentários sobre “Andrei Ujica: As imagens fazem a História possível

  1. Oi Natália!

    Adorei o seu texto! Acabei de ler e fiquei super afim de ver.

    Descobri no Youtube o filme completo em 1 parte: http://www.youtube.com/watch?v=gwo9apG5A4k

    Parabéns,
    Amaral

    Publicado por Tadeu Amaral | 28/07/2011, 15:15
    • Oi, Tadeu!
      Obrigada:)
      Eu vi que havia o filme em uma parte, mas me parecia que estava sem legenda…
      Acho que os outros não são difíceis de encontrar por aí também… Ano passado, teve uma mostra do Harun Farocki, co-diretor do “Videograms”, no Cinusp Paulo Emílio, mas eu não estava aí pra ver…

      Beijos e volte por aqui!

      Publicado por Natalia Barrenha | 28/07/2011, 15:37
    • mas a legenda está em romeno (quando aparece)… =/

      Publicado por Tadeu Amaral | 29/07/2011, 2:13

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