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Os castelos de Helena – Entrevista com Helena Solberg

BUENOS AIRES – A cineasta carioca Helena Solberg estava em Nova Iorque quando lhe enviei um e-mail perguntando se podíamos reunir-nos virtualmente para um bate-papo, numa conexão Buenos Aires – Nova Iorque que sempre passa pelo Brasil. Helena é a homenageada da oitava edição do Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, que teve início no dia 11 e vai até 17 de julho na Caixa Cultural do Rio. O festival vai exibir apenas seu documentário Das cinzas… Nicarágua hoje (From the ashes… Nicaragua today, 1982), produzido pela a televisão norte-americana e pouco conhecido por aqui. No Brasil, apenas a obra mais recente de Helena nos é familiar:Carmen Miranda – Banana is my business (1995), documentário sobre a cantora brasileira, o qual Helena realizou enquanto ainda vivia nos Estados Unidos; Vida de menina(2003), adaptação do diário de Helena Morley, a qual descrevia suas aventuras na Diamantina do fim do século XIX; e Palavra (en)cantada (2008), “ensaio” sobre os cruzamentos entre música popular, literatura e poesia no Brasil.

A gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente. O Brasil de Helena, que o olhou de longe por muito tempo, tem uma vivacidade que nos faz deixar o cinema com um sorriso no canto da boca. Não importa a queda trágica de Carmen Miranda: aquela mulher lindíssima (nunca tinha visto Carmen tão bonita como neste filme!), com a barriga de fora e abacaxi na cabeça, é apaixonante e curiosa para qualquer brasileiro, que sente uma cumplicidade com a “personagem” ao ouvir seus sucessos. Da mesma maneira, é uma delícia ver lendas vivas de nosso imaginário (Chico Buarque, Jorge Mautner, Bethania, Tom Zé…) tão à vontade em Palavra (en)cantada. Os documentários de Helena são estruturados em cabeças falantes e imagens de arquivo, mas antes de dar sono ou nó no estômago dão sim é nó na garganta.

Vida de menina, sua primeira e até agora única ficção, arrebatou um montão de prêmios no Festival de Gramado de 2004: Roteiro, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de Arte e Melhor Filme (tanto pelo júri quanto pelo público) – sem contar o prêmio de Melhor Filme eleito pelo público no Festival do Rio do mesmo ano. O filme é baseado no livro Minha vida de menina, diário que Alice Brant escreveu dos 13 aos 15 anos (entre 1893 e 1895) e publicou sob o pseudônimo de Helena Morley em 1942, quando já tinha mais de 60 primaveras. O livro gerou um entusiasmo enorme na escritora norte-americana Elizabeth Bishop, que na época morava em Ouro Preto e o traduziu para o inglês. Em um momento onde a palavra de ordem no cinema brasileiro era “violência”, é admirável o encontro com a doçura espirituosa de Helena Morley e seu caos calmo na Diamantina pós-diamantes, interior do interior da ex-colônia.

Assim como Helena Morley nos escreveu sobre sua vida e suas histórias – “castelos”, como ela as chamava -, Helena Solberg nos teclou sobre seus castelos e cinema brasileiro.

Natalia – Helena, você fez alguns curtas no Brasil nos anos 1960, foi assistente de direção em produções importantes, e na década seguinte foi aos EUA, onde ficou por mais de 20 anos. Eu queria que você falasse um pouco dos seus primeiros contatos com o cinema e também sobre essa mudança de país (teve alguma coisa a ver com o cinema?). E algo de seu trabalho nos EUA, desconhecido por nós, e se você manteve alguma relação com o cinema e o audiovisual brasileiro enquanto esteve no exterior.

Helena – A minha geração viu o Cinema Novo nascer. Eu estudava Letras Neolatinas na PUC e lá conheci Arnaldo Jabor e Cacá Diegues, entre outros. Foi um momento muito rico e estimulante. Passei a escrever para O Metropolitano, do qual Cacá era diretor, e a frequentar a Cinemateca e o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), onde assistíamos a palestras. Meu primeiro filme, A Entrevista (1966), foi fotografado pelo Mário Carneiro, que era também um amigo pelo qual eu tinha grande admiração. O financiamento veio da CAIC (Comissão de Ajuda à Indústria Cinematográfica) – foi Glauber Rocha que me aconselhou a enviar o projeto para lá, quando lhe contei do projeto. Que eu soubesse, naquele momento não havia nenhuma mulher fazendo cinema (dirigindo).

Meu primeiro trabalho pago no cinema foi em Capitu (1968), do Paulo César Saraceni. Fui continuísta e aprendi muitíssimo. Trabalhei com o Rogério Sganzerla no Mulher de Todos (1969) como assistente de direção de uma maneira muito informal. Meus filhos eram pequenos (aparecem no filme como extras), o que não me permitia envolvimento total.

Fui para os EUA por razões familiares, e lá trabalhei muito; foi importante para minha formação. Entretanto, nunca me “desliguei” do Brasil. O distanciamento me fez ver e compreender melhor meu país. Muitos filmes daquele período tratam da relação dos Estados Unidos com a América Central e a América do Sul [como From the ashes… Nicaragua today (1982), Brazilian Connection: a struggle for democracy(1982), Chile: by reason or by force (1983), Retrato de um terrorista (1986), Forbidden Land (1988)].

Natalia – Eu tenho a impressão de que há pouco material audiovisual sobre a Carmen Miranda, o que me parece estranho devido à potência imagética incrível que ela oferece, não só estética quanto afetivamente para nós, brasileiros. Vi em uma entrevista que você dizia que o seu marido e produtor, norte-americano, havia sido criado vendo a Carmen na TV, e te pareceu muito interessante ele ter se formado com a presença dela. Eu queria que você falasse de onde veio o desejo de fazer o filme, o estopim inicial, as decisões sobre algumas poéticas, como as recriações em meio ao material documental… E como você e o seu marido foram organizando a maneira de ver a Carmen sendo ele norte-americano e você, brasileira.

Helena – Carmen Miranda: Banana is my business é um documentário afetivo. É minha viagem sobre esse personagem tão complexo para mim. A forma como ela está inserida em um momento político tão específico e do qual ela era uma peça no tabuleiro é absolutamente fascinante. A vida privada e a vida pública estão misturadas aí. Todos os elementos de um grande drama estão presentes. Fizemos uma pesquisa de arquivo exaustiva e muito longa, mas essencial para armar o quebra cabeça. E achei que valia à pena romper os limites do documentário e partir para a fantasia como uma licença poética que me permitisse chegar ao ícone. Foi muito curioso como meu marido, David Meyer, tinha na sua infância uma imagem tão vívida dela. Ele me ajudou a compreender a Carmen “americana”.

Natalia – Há uma entrevista na qual você diz que não acreditava muito no desejo dos jovens de conhecer a Carmen, mas que você se surpreende sempre porque a Carmen não sai da moda, é cada vez mais contemporânea, com esse estilo kitsch. Eu queria que você falasse como continua sendo a recepção do filme hoje, 16 anos depois, já que ele é a única ou uma das únicas cinebiografias da Carmen.

Helena – O filme continua sendo imensamente popular. É um assunto que ainda não foi esgotado, merece um grande filme de ficção que, infelizmente, mais uma vez, por questões de direitos autorais, não vai pra frente. Aloísio de Oliveira [produtor musical e ex-integrante do Grupo da Lua, que acompanhou Carmen em seus primeiros shows pelos EUA. Ele também teve um romance com a cantora. Faleceu em 1995] me disse uma vez que acreditava haver uma “maldição” nessa questão e que o filme nunca seria feito. Espero que ele não tenha razão.

Natalia – Como você chegou ao livro Minha vida de menina? O que chamou a sua atenção no personagem de Helena Morley?

Helena – Só fui ler o diário de Alice Brant nos EUA, na tradução da Elizabeth Bishop, e fiquei assombrada com a astúcia e a inteligência da menina. Foi o seu lado transgressor que mais me atraiu e me fez pensar na possibilidade de um filme.

Natalia – Como foi o processo de adaptação do filme? Vi que houve 12 versões para o roteiro! O que foi mudando nesse caminho? E somente o livro foi seu ponto de partida, ou você fez pesquisas sobre a Helena/Alice, conheceu os familiares dela?

Helena – O diário é muito denso e foi muito difícil pensar como traduzi-lo para outra linguagem. Foi importante trabalhar o roteiro com a Elena Soarez e tê-la como interlocutora. Acho que fomos fiéis ao espírito da menina e não fizemos uma mera “ilustração” dos seus relatos.

Conversei com muitos parentes da Alice, que foram muito generosos em responder todas as minhas perguntas. Sarita, filha de Alice, tornou-se uma amiga e organizou encontros com o resto da família. Ana Cristina Reis (neta) foi a Diamantina durante as filmagens.

Sobre a produção, a escolha de Ludmila Dayer como Helena foi perfeita. Rodamos em Diamantina mesmo, a cidade onde Helena nasceu e passou sua adolescência, assim que tínhamos o cenário ideal. O diário foi praticamente um guia para as locações. Beto Mainieri, nosso diretor de arte, “vestiu” a cidade quando necessário e com artesões locais construiu alguns lugares como o Empório do Motta [pequeno armazém onde Helena comprava de tudo] e a cabana no garimpo, onde Helena tinha nascido. Para a casa de Teodora [avó de Helena], conseguimos autorização da prefeitura para usar a antiga casa da Chica da Silva.

Natalia – Você sabe o que se passou com a Helena/Alice depois?

Helena – Alice casou-se com um primo e foi morar no Rio de Janeiro. Durante a ditadura de Getulio viveram algum tempo na Argentina, em exílio. Alice se tornou uma espécie de grand dame na sociedade carioca, o que acho uma grande ironia, considerando sua história. Os que a conheceram nesse tempo dizem que continuou impagável, impossível e irreverente até o final – morreu aos 90 anos.

Natalia – Eu queria saber como você recebeu a ideia do Marcio Debellian [produtor cultural e músico] que daria origem ao Palavra (en)cantada. Como vocês desenvolveram o tema das pesquisas, selecionaram os convidados… E queria que você falasse da sua relação com a música, a poesia e a literatura.

Helena – Marcio Debellian tinha uma ideia de filmarmos uma espécie de pocket show com artistas/compositores que falariam de sua relação com a literatura. Foi uma ideia ótima que necessitava ser pesquisada e desenvolvida para chegarmos a um filme. Sendo de uma geração bem mais jovem que a minha, ele contribuiu muito para o filme.

Para mim foi importante retornar à minha formação original que foi a literatura e descobrir sua relação com a música na cultura brasileira. Tivemos uma equipe de pesquisadores conduzida pelo Júlio Diniz (Diretor do Departamento de Letras da PUC) que foi essencial para o projeto. Foi um desafio muito grande, pois se tratava de um filme de ideias com uma cronologia que cobria muitas décadas, e era preciso ter cuidado para que não virasse algo acadêmico e didático. Acho que o pano de fundo do filme é, na verdade, uma reflexão sobre nós mesmos, nossa identidade, um tema que acredito estar presente em todo o meu trabalho.

Natalia – E como foi entrevistar gente tão assediada, que já foi entrevistada tantas vezes, como os “personagens” de Palavra (en)cantada?

Helena – A relação entrevistado-entrevistador é bastante interessante e, no caso do documentário, essencial. Às vezes pode rolar alguma coisa parecida com a relação de uma sessão de psicanálise. Tem que haver uma empatia, e os silêncios e as pausas são tão importantes quanto as palavras. É importante ouvir e descobrir novos temas durante uma entrevista e deixar ela “respirar”, por assim dizer. Acho também que reconduzir o entrevistado para a trilha que interessa ao filme é sempre delicado, mas se não for feito perdemos o fio da meada.

Natalia – Você poderia comentar as diferenças e semelhanças do seu processo de criação quando você trata com documentários e quando trata com ficções?

Helena – O documentário geralmente descobre sua estrutura na mesa de montagem. É ali que vamos saber se existe um filme e qual será esse filme. É um momento de revelação bastante angustiante. É a hora da verdade, onde vamos nos confrontar com nossos erros e acertos.

A ficção se apoia mais em um roteiro que pode ou não ser respeitado no momento crítico da filmagem, mas geralmente sua estrutura já está determinada. Os ensaios com os atores para mim são momentos de revelação onde podemos rever ideias preconcebidas. Em Vida de Menina, pedi que Elena Soarez viesse a Diamantina no meio das filmagens porque algumas coisas do roteiro estavam me incomodando, e fizemos mudanças ali mesmo, com os atores em locação.

Natalia – Queria que você, quem trabalhou em outro país, falasse da atividade de fazer cinema hoje no Brasil, sobre como você vê nossas leis de incentivos, a grande produção que não consegue aproximar-se do público, os sofrimentos com a distribuição e exibição…

Helena – Desde que o mundo é mundo os artistas que querem manter sua independência vivem os mesmos problemas. A independência tem seu preço. No Brasil, o problema mais grave é a burocracia que nos estrangula. Nos últimos meses, a pressão que as entidades têm feito nos órgãos do governo parece estar surtindo um efeito. É difícil militar por nossos direitos e ao mesmo tempo correr atrás de patrocínio para nosso próprio filme!

(Publicado em 12 de julho de 2011 na Revista Beta)

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