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Oui, je t’aime – Gainsbourg, o homem que amava as mulheres, de Joann Sfar

BUENOS AIRES – Lucien Ginzburg, com aquela cara que tinha, estaria perdido quando chegassem os alemães. Porém, a inventividade do menino feio e esquisito era maior que os nazistas que ocupavam Paris: ele podia apresentar um general da SS, companheiro em suas aulas de pintura, ao delegado da cidade. Ele podia escrever poemas tórridos a sua modelo, amante e musa de tetas generosas. Ele podia cantar músicas sujas com Madame Fréhel. Podia desenhar mulheres peludas sem nunca tê-las visto de perto. Podia ser um herói.

Serge Gainsbourg, apesar de ter amado incríveis e infinitas mulheres, parece desfrutar melhor do título de sua biopic no original: Gainsbourg, vie heroïque. O diretor Joann Sfar, também artista gráfico e quadrinista, se abstém de reconstituir a trajetória do músico, ator, pintor, poeta, escandaloso Serge Gainsbourg para vagar afetivamente na história de um herói todo seu. O filme de Sfar é uma fábula sobre como o deliciosamente insolente Lucien se transforma em uma das maiores estrelas da França, e opta por um gato falante a uma camareira, pelo colorido vasto e luxurioso ao espetáculo de autodestruição, pelo mito à biografia, entregando-nos assim o Gainsbourg que o cineasta ama para que o amemos também.

Serge era praticamente um rockstar e, como todo bom rockstar, era tão famoso por sua música quanto pelo seu modo de viver desajustado. Filho de judeus russos que emigraram à França durante a Revolução de 1917, tocava piano em cabarés por uns trocados (como seu pai) enquanto estudava pintura, até tornar-se um cantor popular no fim dos anos 1950. Estava sempre acompanhado de longos cigarros, La Gueule, mulheres divinas e ia visitar seus pais todas as semanas.

La Gueule  termo de inúmeros sentidos difícil de traduzir para o português (acho que poderíamos chamá-lo A voz) – é um alter ego de Gainsbourg, e já figurava nas HQs de Sfar. Esse personagem, caricatura gigante do cantor, anjo da guarda/diabo a inspirá-lo e provocá-lo com suas frases irresistíveis e seus dedos hipnotizantes, encaixa brilhantemente no universo fragmentário e de encantamento proposto por Sfar, e é elemento que chama a atenção para a presença sutil da estética dos quadrinhos no filme. O produtor de Gainsbourg, interpretado por Claude Chabrol, é a personificação de um personagem de HQ com suas caras e bocas em close, seu terno branco e enorme charuto que inundam o escritório a laBauhaus onde ele escuta por primeira vez o escandaloso Je t’aime… moi non plus acompanhado de Jane Birkin, Serge e o cachorro exótico do casal.

A atriz inglesa Jane Birkin, interpretada por Lucy Gordon, foi a relação mais duradoura de Serge, emocional e artisticamente. Após engavetar por anos Je t’aime… moi non plus, gravada originalmente por Brigitte Bardot mas deixada de lado devido à fúria do marido da francesa, Jane firma sua parceria com o marido ao participar do que seria o maior sucesso de Gainsbourg (que há pouco andamos escutando frequentemente por conta do comercial da Dior estrelado por Natalie Portman e dirigido por Sophia Coppola). Jane foi o último papel de Lucy Gordon, que se suicidou em maio de 2009, antes mesmo do lançamento do filme, dedicado a ela. Foi também a última participação de Claude Chabrol no cinema, que faleceu em setembro do ano passado.

Antes de conhecer Jane, Gainsbourg viveu em meio a um desfile invejável e inacreditável de mulheres célebres e belas, a começar por Juliette Gréco, seguida por inúmeras e incógnitas amantes que enviavam cartas à casa dos pais do cantor para despistar a esposa de então. E houve, claro, Brigitte Bardot. A modelo Laetitia Casta está exuberante na pele do grande ícone francês, desde a sua entrada acompanhada de um cachorro bizarro até comer pepinos em conserva aos prantos pouco antes de deixar Serge. No quarto do amante, enquanto ele está ao piano e a torre Eiffel está ao fundo, Laetitia joga a cabelereira loira e canta e dança enrolada em um lençol, reproduzindo graciosamente o baile de Bardot em E Deus… criou a mulher (Roger Vadim, 1956). Toda a voluptuosidade de Bardot/Laetitia cede lugar ao improvável e charmoso micro vestidinho e às longas pernas que terminam em sapato de boneca de Birkin/Gordon que iriam conquistar Gainsbourg.

Sfar retrata o Gainsbourg que amava as mulheres, o Gainsbourg engenhoso e o Gainsbourg excêntrico, e não se preocupa com a queda trágica de seu ídolo (também tão típica dos rockstars), que terminou na morte por ataque cardíaco em 1991, um mês antes de completar 63 primaveras. O diretor dedica pouco dos 130 minutos de seu filme aos últimos anos escandalosos do cantor, e nos devolve um homem à altura dos heróis das histórias em quadrinhos.

 

 

Gainsbourg, o homem que amava as mulheres (Gainsbourg, vie heroïque). Direção: Joann Sfar. França, 2010, 130 minutos. Confira o site oficial do filme aqui.

(Publicado em 06 de julho de 2011 na Revista Beta)

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