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Claire Denis, um olhar em deslocamento e as paixões que ele provoca

BUENOS AIRES – Estou apaixonada por Grégoire Colin. Já tinha visto o ator constante de Claire Denis em outras ocasiões, mas vê-lo nos filmes da cineasta francesa foi completamente diferente. Aproveitando o ensejo da Mostra Claire Denis, Um olhar em deslocamento, que faz uma retrospectiva completa da diretora – em cartaz até 03 de julho na Caixa Cultural do Rio de Janeiro e de 04 a 10 de julho na Sala P.F. Gastal de Porto Alegre (há burburinhos de que Mostra chegue a São Paulo e Belo Horizonte) -, resolvi consertar uma falha de caráter que consistia em não conhecer os filmes de Denis. Há tempos havia assistido Desejo e obsessão (2001) e Sexta-feira à noite (2002), e ainda não tinha entendido porque ela era tão incensada pela crítica.

Deixar-me apaixonada por Boni, Sentain ou Noé, vividos por Colin, já me diz muito sobre Claire Denis. Ela se aproxima de seus personagens com uma discrição incrível, apesar da curiosidade que sente. Há um mistério que rodeia as coisas e as pessoas, que nunca encontram um estereótipo para repousar nem pontos seguros em suas biografias para retornar. Denis também está apaixonada por seus personagens, e desfruta de um amor recente, quando se quer ficar colado o tempo todo, quando se quer descobrir tudo. A câmera de sua parceira habitual na direção de fotografia, Agnès Godard (nada a ver com Jean-Luc), flutua, como pisasse em ovos; aquele estado etéreo da paixão. Todos os que habitam os filmes de Denis são retratados assim.

Todos estão cercados de enigmas hipnotizantes, fragrâncias afrodisíacas que se desprendem de suas peles, e possuem uma força interior que dificilmente pode ser verbalizada, potencializando a indeterminação não só das pessoas, mas dos espaços, da trama, que dificilmente respeita a lógica da causalidade para abrir alas aos impulsos vitais. Apesar dos recorrentes sonhos que aparecem nos filmes, não há lugar para o abstrato, e tudo o que pode ser revelado o faz através do corpo: os movimentos interiores tomam forma humana em incessantes close-ups, em um trêmulo Grégoire Colin, em um rígido Isaach De Bankolé, em uma frágil Isabelle Huppert.

Denis trabalha quase sempre com os mesmos atores, desde seu primeiro filme, Chocolate (1988). Antes de estrear na direção, ela foi assistente de Jim Jarmusch, Wim Wenders, Costa-Gravas e Jacques Rivette (e em 1990 fez um documentário sobre o cineasta francês: Jacques Rivette, le veilleur, também presente na Mostra). Em diversas entrevistas, Claire conta que se apaixonou pelo cinema de verdade nesses momentos, acompanhando esses diretores.

Denis estudou no conceituado IDHEC (Institut Des Hautes Études Cinématographiques, hoje La Fémis: École Nationale Supérieure des métiers de l’image et du son), formando-se em 1972 e compartilhando as atividades no cinema com uma carreira de professora. A cineasta nasceu em Paris em 1948, e passou a infância na África, onde seu pai trabalhava para a administração colonial francesa. A cada dois anos a família se mudava para uma localidade diferente do continente. O senhor Denis falava diversos dialetos negros e era a favor da libertação das colônias; suas filhas consideravam a África sua terra legítima, já que desde bebês faziam parte daquele espaço. Aos 13 anos, Claire e sua irmã tiveram que voltar a Paris por conta de uma poliomelite, o que se constituiu em um trauma e, ao mesmo tempo, em uma surpresa: coisas cotidianas para elas faziam parte do sonho da maioria das crianças, que se encantavam com os relatos sobre girafas, zebras, elefantes. Elas retornaram ao Senegal quatro anos depois para finalizar os estudos, mas muito havia mudado: agora elas se davam conta do não-pertencimento àquele lugar que tanto amavam, do poder que a cor da pele podia exalar, da densidade das relações colonialistas e pós-colonialistas.

Essa trajetória de viagens, somada ao fato de o avô materno de Denis ser brasileiro de Belém do Pará, chama a atenção para os múltiplos movimentos que se dão em seus filmes – do cosmopolitismo dos arredores de Paris ao Camarões, Argélia, países africanos imaginários, Tahiti, Coreia do Sul. A sensação de estar num espaço e o questionamento sobre fazer parte dele integralmente são explorados diversas vezes, evidenciando a felicidade do título Um olhar em deslocamento escolhido para nomear um mergulho em toda a produção da diretora.

A filmografia de Claire Denis, e também cada filme em si, me parecem irregulares, com momentos que me aborreceram um bocado, principalmente em Desejo e obsessão O intruso (2004). Entretanto, além do enamoramento por Grégoire Cólin, não pude deixar de me enfeitiçar por sua obra, livre e de imagens memoráveis: através dela é até possível que nos apaixonemos pela feiúra imensa de Denis Lavant em meio a seu baile frenético e apoteótico ao som de Rhythm of the night no final de Bom trabalho (1999).

Você pode ver aqui a programação e o catálogo da Mostra Claire Denis, Um olhar em deslocamento.

 

 

(Publicado em 29 de junho de 2011 na Revista Beta)

Discussão

2 comentários sobre “Claire Denis, um olhar em deslocamento e as paixões que ele provoca

  1. Nat,

    Aqui é o Ruan de Rio Claro, tudo bem ??
    Me passe seu email ou msn…
    Add ou me escreva: ruancq@yahoo.com.br

    Bjusssss

    Publicado por Ruan Rio Claro | 09/07/2011, 14:53

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