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Conflito sem conflito – Fora da lei, de Rachid Bouchareb

BUENOS AIRES – Entre os cineastas árabes, o francês de origem argelina Rachid Bouchareb é um dos mais conhecidos no Brasil, já que seus filmes recentes não ficaram restritos a festivais e estrearam em circuito comercial: Fora da lei (2010), London River – Destinos cruzados (2009) e Dias de glória (2006). Em Fora da lei Dias de glória, Bouchareb está preocupado em resgatar questões históricas, cutucando episódios incômodos da relação França/colonizador e Argélia/colonizada. Já em London River, seu olhar se volta para questões contemporâneas – o encontro e as chispas entre uma católica (ou protestante? Não me lembro) inglesa e um muçulmano africano em busca de seus filhos desaparecidos no ataque terrorista ao metrô londrino em 2005. Fora da lei, seu último longa, pode ser considerado uma continuação de Dias de glória. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011, participou da competição pela Palma de Ouro em 2010 (onde a segurança foi reforçada durante as projeções), e foi exibido nos cinemas brasileiros no comecinho deste ano, passando meio despercebido.

Há pouco mais de dez anos, Bouchareb e seu roteirista Olivier Lorelle iniciaram uma pesquisa que se transformaria em Dias de glória, sobre os soldados africanos que lutaram pela França na Segunda Guerra e não receberam os mesmos direitos daqueles de sangue francês. Durante esse processo de investigação, eles sempre se encontravam com os acontecimentos do pós-guerra, quando os argelinos mais uma vez defenderam a Pátria-mãe, na Guerra da Indochina (1946-1954). A França saiu derrotada deste conflito, o que deu força para que outras colônias iniciassem seus processos de independência – entre elas, a Argélia. Fora da lei dá conta dos anos em que o país africano lutou pela liberdade, de 1954 a 1962.

As cenas iniciais já dão o tom do que está por vir: uma família é expulsa de suas terras argelinas, herdadas dos ancestrais – um pedaço de papel lhe tira o direito de propriedade, e ela é obrigada a deixar esse canto, que como mostra o plano geral é um fim de mundo absoluto, onde as pessoas que aí estão não incomodam ninguém e não deveriam ser incomodadas. Injustiça 1.

Seguem-se imagens de arquivo de Paris no fim da Segunda Guerra – os franceses comemoram a vitória contra o Eixo. No mesmo dia, porém, os gloriosos soldados que livraram o mundo do jugo nazi-fascista esmagavam violentamente uma manifestação na cidade argelina de Sétif. A família expulsa estava aí, e vários de seus membros são mortos. Injustiça 2.

Oito anos depois, a mãe e Saïd, um dos filhos, resolvem ir a Paris, onde está Abdelkader, irmão de Saïd preso por suas ideias políticas, e para onde também seguiria o primogênito, Messaoud, que voltava da Indochina. Na capital francesa, os imigrantes se amontoam em favelas e podem seguir apenas dois caminhos – ou ser escravo da Renault, ou ser um fora da lei. Injustiça 3.

Os irmãos elegem a segunda opção: Saïd torna-se cafetão, enquanto os outros dois entram para a Frente de Libertação Nacional (FLN), partido colocado na ilegalidade devido à sua luta pela libertação argelina. Os conflitos históricos são observados entrelaçados aos dilemas familiares, e essa aposta acaba recaindo em personagens caricaturais: há a mãe boa e íntegra, o irmão malandro e mercenário, o revolucionário idealista, o que busca humanidade. Há ainda uma porção de chavões que vão enfraquecendo cada vez mais a história de Bouchareb: heroísmo, patriotismo, honra, a troca dos sonhos individuais pelo bem comum, a difícil escolha entre fraternidade e ideologia, os podres poderes. A potência incrível do evento é desperdiçada em prol de um engajamento apoquentado que serve ao didatismo e à burocracia, transformando o filme em um ótimo material de debate em universidades, e só.

O clássico A batalha de Argel (1965), do italiano Gillo Pontecorvo, retrata o mesmo evento de Fora da lei, e é baseado nas memórias de um militante do movimento pela independência, o qual acompanhou todo o processo de escrita do filme e atua no papel de si mesmo. Creio que, devido à intensa participação desse homem, A batalha… desfruta de uma força da qual carece Fora da lei, e que podemos sentir principalmente nos enormes planos de multidão – os quais, apesar da estética documental, granulada e em preto e branco, eram todos encenados e chegavam a contar com mais de 15 mil figurantes. Entretanto, apesar da impecável mise en scène, tampouco o filme de Pontecorvo nos atravessa de tensão ou paixão, deixando um tanto a desejar quando o comparamos com seus contemporâneos que se aventuravam pelo cinema político na América Latina.

Em Dias de glória há mais do mesmo: os soldados africanos são tão bem comportados quanto o roteiro e os movimentos de câmera. Os filmes tratam de conflitos, mas não provocam conflitos. Bouchareb diz, em diversas entrevistas, que fez Dias de glória e Fora da lei pensando no sentimento universal da injustiça. Apesar da pontinha de raiva que pode emergir, dá pra sair do cinema sem nem ter vontade de googlearsobre as tragédias que acabamos de presenciar.

London River é o mais conquistador dos filmes de Bouchareb que pude ver. Ao promover a aproximação entre diferentes por meio de uma experiência dolorosa compartilhada, o diretor tropeça em um maniqueísmo chato que senta bases na ideia do bom selvagem, mas a dupla protagonista Brenda Blethyn e Sotigui Kouyaté portam uma aflição tão intensa que finalmente conseguimos nos comunicar com aquele pesar provocado não pelo que é injusto, mas sim pelo que é humano, oportunidade que Bouchareb perdeu em seus filmes históricos ao aproximar o micro do macro sem se decidir por nenhum deles.

Fora da lei está em cartaz novamente em São Paulo. Ele faz parte da sexta edição da Mostra Mundo Árabe, com exibições até 29 de junho no CineSESC, Centro Cultural São Paulo, Cinemateca Brasileira e Matilha Cultural. Depois, a Mostra segue para Brasília e Belo Horizonte, saindo da capital paulista pela primeira vez. Contudo, o filme de Bouchareb parece meio deslocado na programação.

Os outros 14 filmes que integram a Mostra estão imersos em questões de seus países de origem – mesmo que quase todos sejam co-produções com países europeus, são co-produções financeiras, e não artísticas -, e são irresistíveis para compreender a Primavera Árabe que simplesmente mudou o mundo nos últimos meses. Os filmes são anteriores às manifestações nas quais milhares de jovens saíram para protestar contra os regimes instalados em seus países, mas apresentam uma série de conflitos determinantes para a detonação desses eventos. São todas produções inéditas no Brasil, de uma geração nova, mobilizada e disposta a contagiar o público de uma maneira diferente de Bouchareb – com filmes de resistência, e não apenas sobre a resistência.

Você pode ver mais informações e a programação da 6ª Mostra Mundo Árabe aqui.

(Publicado em 22 de junho de 2011 na Revista Beta)

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