Revista Cinema Caipira

O nascimento de uma nação: Cinema peruano e Claudia Llosa

No ano de 2009, o Festival de Cinema de Berlim confirmou sua disposição em estimular a cinematografia latino-americana. Após premiar o turbulento Tropa de Elite em 2008, este ano a Berlinale agraciou com o Urso de Ouro mais uma produção deste lado do Atlântico: o peruano La teta asustada (que, felizmente, não foi trasladado para o português como O leite da amargura, mantendo a tradução direta para A teta assustada). Foi a primeira vez que um filme do Peru aterrissou no festival germânico, completando seu triunfo ao vencer por unanimidade. O longa de Claudia Llosa também levou os troféus de Melhor Filme e de Melhor Atriz no Festival de Guadalajara, foi selecionado para abrir o 4º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo e participou da competição oficial do 37º Festival de Gramado.

O diminuto setor do audiovisual no Peru atinge entre cinco e dez produções anuais, as quais dificilmente chegam ao principal interessado – o público. Com uma cinematografia heterogênea e pouco integrada, os longas de oscilante qualidade e bilheteria são produzidos ao lado de centenas de curtas e médias-metragens feitos a partir da facilidade do vídeo digital e que não contam com um mercado exibidor. A história se complica mais ainda devido ao fato de o próprio governo peruano desrespeitar a lei pela qual o Estado, através do Ministério da Educação, deveria entregar ao Conselho Nacional de Cinematografia certa quantia em dinheiro para financiar projetos fílmicos por meio de concursos – orçamento o qual nunca chegou ao ente oficial do cinema no país, mesmo após treze anos de vigência da norma.

Entretanto, o surgimento de jovens diretores com desejo de renovação e a parceria com algumas instituições internacionais (principalmente espanholas) tem movimentado a cena peruana, que nos últimos anos apareceu em diversas ocasiões nos festivais, sendo coroada vez ou outra por importantes premiações, e culminando com a conquista de A teta assustada. A exploração da exuberante cultura andina e a inquietante preocupação com a situação do país, que experimentou seus piores momentos nos primeiros anos da década de 90 (assim como grande parte dos países latino-americanos acometidos por violentas crises econômicas e políticas), são os principais objetos das realizações peruanas que vêm dando impulso à criação de uma cinematografia no país nos últimos dez anos. Aliás, como já havia comentado o cineasta e estudioso boliviano Jorge Sanjinés, “são dos momentos conflituosos que brotam as mais transformadoras invenções” – assim como aconteceu com o florescimento do Nuevo Cine Argentino no mesmo período (e ainda hoje) e até mesmo com o Neo-realismo italiano no pós-Segunda Guerra.

Ricardo de Montreuil, Josué Méndez, Fabrizio Aguilar, Silvana Aguirre, Rossana Alalu, Rosário García-Montero, Enrica Pérez e Gabriela Yepes fazem parte da geração que oxigena o cinema peruano ao lado dos veteranos Alberto Durant e Francisco Lombardi, os quais estão na ativa desde o fim dos anos 70. Completando o time, a novata Claudia Llosa – que, aos 32 anos, se tornou a mais jovem cineasta a ser indicada (e premiada) em Berlim. Alémde A teta assustada, Claudia traz mais um longa (Madeinusa, 2006) e um curta-metragem (Seeing Martina, 2004) no currículo.

Sem deixar de lado a história, as paisagens e as tradições peruanas, Claudia centra suas narrativas em dramas pessoais – principalmente os que trazem os conflitos femininos (tanto os íntimos como os que partem da sociedade) em primeiro plano. Em Madeinusa, que recebeu uma série de prêmios (inclusive o da FIPRESCI – Federação Internacional dos Críticos de Cinema – no Festival de Rotterdam, em 2006), a confusão da diretora entre a imersão em problemas particulares e a abordagem de problemas sociais, aliados a um desfecho pouco convincente, atravancam uma entrega do espectador e faz com que o filme passe um tanto despercebido. A narrativa, situada em um pequeno poblado aos pés da Cordilheira dos Andes, trata de um festejo chamado tempo santo, e tem como protagonista Madeinusa, uma garota de 14 anos (em primeira estância, o filme não se relaciona com os Estados Unidos, e a diretora afirma que “Madeinusa” – assim como “Usnavy” ou “John Kennedy” – é um nome muito comum no Peru). Durante o tempo santo – entre as três da tarde da Sexta-feira Santa (horárioem que Jesus morreu e foi crucificado) até às seis da manhã do domingo (momento de sua ressurreição), acredita-se que Deus está morto, o que o impede de ver as faltas das pessoas. Assim, tudo é permitido devido à inexistência do pecado e da culpa. Apesar da história inusitada e controversa, alguns descuidos com o roteiro e com os atores não-profissionais (os quais integram todo o elenco) prejudicam a bonita fotografia e o desenrolar do enredo.

Contudo, a evolução do trabalho de Claudia em A teta assustada expurga pecados cometidos em seu debut e encaixa as peças que haviam ficado soltas em Madeinusa. As canções, por exemplo, que se encontravam deslocadas na película de estreia, descobrem definitivamente os seus papeis em A teta assustada, cuja trama se centra nos medos da personagem Fausta, que possui a doença da teta assustada, a qual lhe foi passada pela mãe – violentada durante o período de terrorismo no Peru dos anos 80 – quando a amamentava. Após a morte da mãe, Fausta – que colocou uma batata na vagina devido ao temor de sofrer o mesmo que sua progenitora – é obrigada a retirar-se da borda de existência na qual se mantém e a descolar-se de uma lembrança alheia. Assim, o filme acerta ao mergulhar nas inquietações e na busca de liberdade da protagonista, o que não o impede de erroneamente ser categorizado como uma metáfora do Peru subordinado às tradições, ou diminuído como mais um retrato de costumes exóticos.

Ao invés de prender-se em alegorias, em seus dois filmes Claudia vasculha sua terra natal de forma muito mais leve: pelas cores. Em Madeinusa, a frequente utilização dos vermelhos realça a narrativa que trata dos deleites que levam ao inferno. Em A teta assustada, os azuis e verdes contrapõem-se para montar um quadro que distancia a periferia da riqueza. Ao lado do colorido tapete que caracteriza o tempo santo em Madeinusa e da extravagância de cores que domina os matrimônios kitsch em A teta assustada, um marrom descorado marca as paisagens dos dois filmes, o que faz com que Claudia ilustre e descortine um Peru sempre imaginado em marrom.

As cores trazidas por Claudia em seus filmes, acompanhadas do reconhecimento de um dos três maiores festivais do mundo, prometem colocar o Peru no mapa cinematográfico mundial. Assim como aconteceu com o cinema brasileiro após a vitória de Central do Brasil em Berlim em 1998, espera-se que o vizinho do altiplano experimente uma guinada na produção da sétima arte. Afinal, com aquele potencial fotográfico e tal efervescência de talentos, é uma pena que o Peru continue sendo cenário apenas para retratos de férias.

(Publicado na Revista Cinema Caipira número 07 – setembro/2009)

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