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O amor segundo Rohmer

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Como na quadrilha de Drummond, o cineasta francês Eric Rohmer plantava uma ciranda amorosa em seus Seis Contos Morais, filmados entre 1963 e 1972, compondo o primeiro conjunto de filmes interligados que se tornariam costumeiros na obra do diretor – com os posteriores blocos Comédias e Provérbios (anos 1980) e Contos das quatro estações (anos 1990) – e o coroando como o grande observador do cotidiano.

Rohmer nasceu como Jean-Marie Maurice Scherer, em 1920, e faleceu em janeiro do ano passado. Foi jornalista, professor de literatura, e um dos primeiros críticos de cinema que frequentava a cinemateca de maneira incansável a partir para a direção. Com o seu longa de estreia O signo do leão (1959), Rohmer não se impôs imediatamente como os colegas Truffaut e Godard, e ganhou reconhecimento apenas uma década depois com o terceiro dos contos morais, Minha noite com ela, e nos 50 anos de carreira cinematográfica realizou pequenos filmes elegantes que exploram a excepcionalidade do cotidiano e as idiossincrasias do comportamento afetivo.

Os Seis Contos Morais, joias do intimismo que percorrem os labirintos das relações amorosas, foram introduzidos pelo curta-metragem A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, 1963), seguido pelo média A carreira de Suzanne (La carrière de Suzanne, 1963). Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969), A colecionadora (La collectionneuse, 1967 – apesar de ser filmado antes de Minha noite com ela, é o conto moral IV), O joelho de Claire (Le genou de Claire, 1970) e Amor à tarde (L’amour l’après-midi, 1972) são os longas que completam os contos nos quais a premissa é basicamente a mesma: uma crença é colocada em questão a partir de uma dúvida – mais diretamente, um homem ama uma mulher, apaixona-se por outra, mas acaba retornando à primeira. A apreensão do prosaico, o rigor formal e os diálogos precisos também são comuns a todos os filmes da série – características presentes em toda a obra de Rohmer, sutil comentarista dos relacionamentos homem/mulher.

Nestes ensaios sobre as atribulações do amor, ao lado da introspecção do roteiro está a inquietação do discurso. Opondo-se ao cinema de poesia formulado por Pasolini em 1960, Rohmer defendia o que chamava de cinema de prosa, tomando a palavra como condutora de suas histórias. Assim, os diálogos são os protagonistas de Rohmer, e o que importa são as fendas reveladas pela fala – isso fez com que o diretor fosse acusado, por muito tempo, de fazer filmes tão literários que nem precisariam ser filmados.

As intrigas banais dos Contos Morais são permeadas de desencontros, numa lenta exposição de situações que conduzem os personagens a seus pequenos (mas cruciais) conflitos. A despeito das elipses temporais que fazem correr os dias em seus roteiros, Rohmer não tem pressa e dispensa movimentos vertiginosos de câmera, fazendo impossível prever o andamento da trama. Apesar do rigor do cineasta com a marcação das cenas, e da cobrança para que os diálogos se ativessem ao roteiro, os filmes têm uma atmosfera despojada e de improviso, numa aparente despretensão de Rohmer, que primava pela discrição ao captar quase sem querer a vida interior das personagens.

Assim, entre belas mulheres e belas paisagens – outras duas constantes nos Contos Morais -, Rohmer desfila com leveza suas impressões sobre a moral, que podem ser condensadas como suas impressões sobre o amor. Afinal, nada mais moral – ou amoral – do que os conflitos que atravessam as cirandas das seduções.

(Publicado na Revista Projeções em outubro/2009. Reproduzido em espanhol – se pode ver aqui – na Revista OCNI – Objeto Cultural No Identificado)

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