Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – Um divã para a China

A nova potência faz auto-análise

03 de julho de 2009, de Paraty

1,3 bilhões de habitantes, 5 milhões de anos de civilização, a economia que vai deixar os poderosos Estados Unidos de joelhos, o outrora lugar das utopias… A gigante China, que pode ser descrita de milhares de maneiras, está sempre na pauta dos dias de hoje. Com as artes chinesas não está sendo diferente: recentemente, as artes plásticas protagonizaram uma explosão de obras e pintores que se espalharam pelo mundo, com quadros vendidos a peso de ouro e exposições que vão do Oriente ao Ocidente.

Segundo a Art Price – líder mundial dos bancos de dados sobre a cotação e os índices de arte -, um terço dos 100 artistas plásticos que mais vendem no mundo são chineses – Zhang Xiaogang, Yue Minjun, Wang Guangyi estão entre os principais nomes da lista. No cinema, Wong Kar Wai, Jia Zhang Ke e Zhang Yimou destacam-se nos festivais e também arrebatam prêmios e público pelo planeta. Nas letras, escritores contemporâneos como Juan Chang, Diane Wei Liang e Ha Jin são incansavelmente traduzidos para línguas ocidentais.

Sim, a China está em alta. Um dos indicadores foi a presença dos autores chineses Ma Jian e Xinran nesta edição da Flip: coletiva de imprensa lotada, tenda dos autores lotada, tenda do telão lotada, e muitos, muitos títulos dos escritores perambulando pelas mãos e pelos olhos dos visitantes de Paraty. Apesar de todo o frenesi em torno das artes e da literatura, Ma Jian e Xinran abordam em suas obras o aspecto realmente mais discutido sobre a China no mundo Ocidental: liberdade, governo repressivo e memória – habitués nos debates sobre o “maior país do mundo”. Assim, aqui em Paraty não foi diferente: tanto na coletiva quanto na mesa que dividiram (a mesa 4, China no divã), apenas tocou-se rapidamente no assunto do processo criativo dos autores, e as discussões de verdade giraram em torno de política.

Pequim em coma, livro de Ma Jian lançado agora no Brasil, revisita o conflito da Praça da Paz Celestial, na qual muitos estudantes foram mortos ao exigir a democratização do país em 1989. Porém, para Ma Jian, pior que o massacre foi a lavagem cerebral realizada pelo governo depois do conflito e até os dias de hoje, o que deixa o povo chinês em um estado de letargia e transforma as pessoas em seres não-pensantes. O pessimista e amargo Ma Jian apenas cedeu ao falar de sua terra quando comentou que o momento de crescimento econômico pelo qual passa o país é um momento de mudanças, onde podem começar a surgir questionamentos.

Já Xinran, bem mais sorridente e otimista que o colega, já é velha conhecida no Brasil pelo seu best-seller As boas mulheres da China (2002). Sempre se utilizando de exemplos para justificar suas opiniões, a jornalista e escritora é mais interessada em histórias pessoais e direitos humanos, deixando um pouco de lado a economia e a política. Nesta Flip, ela lança Testemunhas da China, resultado de 20 anos de pesquisas e entrevistas, e que traz relatos de sobreviventes da Revolução Cultural empreendida por Mao entre as décadas de 1960 e 1970.

Ma Jian e Xinran moram em Londres há duas décadas – as duras críticas ao governo chinês e o resgate histórico narrados fizeram com que seus livros fossem banidos da China e que eles não pudessem mais escrever por lá. Apesar do furor que causa mundo afora, o país, ainda coibido, tem muitos casos mal-resolvidos para expor no divã.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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