Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – Sermões de Richard Dawkins

Biólogo britânico decreta: “Deus é uma falácia”

03 de julho de 2009, de Paraty

“Este é um livro sobre as evidências incontestáveis de que a evolução é um fato. Não tem por fim ser um livro antirreligioso”, escreve o biólogo britânico Richard Dawkins nas páginas inicias de seu livro, com previsão de lançamento para outubro de 2009, O maior espetáculo da Terra. As palavras evidência, evolução e religião possuem certamente ressonância significativa no léxico de Dawkins, reconhecido internacionalmente – com diversas publicações já traduzidas no país como O gene egoísta e Deus, um delírio – como um ateísta convicto.

Mediado por Silio Bocannera em mesa às 19h de quinta-feira, Richard Dawkins veio pela primeira vez ao Brasil para celebrar os duzentos anos de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos de publicação do livro mais importante da História, segundo o biólogo, A origem das espécies. “A ciência confirma que Darwin acertou quase tudo e errou totalmente na genética. As pessoas pensavam que a genética fosse uma mistura de substâncias químicas do homem e da mulher”, falou Dawkins, trajando uma camisa preta com flores cinza estampadas, à vontade na cidade histórica. “Se fosse verdade, a seleção natural não faria sentido, pois não haveria variedade suficiente”, arremata, inferindo à premissa fundamental da teoria darwiniana, que aponta para a seleção natural como ferramenta evolutiva.

O autor, conhecido por questionar os dogmas religiosos e contestar a existência de Deus, indagando tanto judeus ortodoxos quanto islâmicos fundamentalistas, disse que é inadmissível à sociedade atual submeter-se à prerrogativa de que o mundo foi criado em seis dias há seis mil anos. “Eu fiz a conta, acreditar nisso (na gênese segundo o judaísmo) é o mesmo que acreditar que a América do Norte tem oito metros”, o que levou a platéia a risadas.

Ainda que estivesse caminhando sobre um terreno minado, considerando que o Brasil é um país majoritariamente católico, Dawkins não fez concessões quanto à apresentação de suas teorias. Pela manhã, em entrevista coletiva, respondeu categoricamente que a humanidade poderia ser mais harmoniosa se a necessidade de Deus fosse eliminada, pois assim as pessoas deixariam de agir segundo uma falsa moral – pelo simples temor do pecado e dos sortilégios da pós-vida – para pensar num cotidiano no qual impera a ideia de vida como um fenômeno único, sem precedentes e repetição, para cada um e, sendo assim, não deve ser desperdiçada com a suposição de que haverá uma outra subseqüente, para o deleite do público que aplaudiu euforicamente.

Falando de seu livro O gene egoísta, Richard explicou o conceito de meme, proveniente do próprio termo gene. Na obra, o autor tenta provar como o egoísmo genético tende ao altruísmo individual, ressaltando que há um corresponde cultural à idéia genética. Ou seja, um equivalente arraigado na cultura que de forma análoga ao gene é transmitido de geração a geração, como o hábito de usar um boné para trás ou o assovio de uma música. O meme, portanto, constitui uma espécie de herança cultural que os indivíduos recebem e são transferidas para a próxima geração e, assim como a seleção natural atua nos genes, os memes sofrem alterações em cada geração, podendo ser suprimidos ou espalhados com o decorrer dos anos.

“Simplesmente porque algo faz com que nos sintamos bem espiritualmente não pressupõe a existência real de tal coisa. Deus é uma falácia”, completou o biólogo. Se para os cristãos, judeus, islâmicos, evangélicos, Richard Dawkins é um delírio, para a platéia desta Flip suas palavras soaram como doce sermão.

– A FlipZona está movimentando o antigo cinema de Paraty: um entra-e-sai de adolescentes falantes e que fazem piadas a todo tempo, divertindo e distraindo até os palestrantes, está agitando, juntamente com a Flipinha, a Praça da Matriz.

– O que já havia sido anunciado pela previsão do tempo – e que estava parecendo balela, tal o céu lindo que coroava Paraty nos últimos dias – se concretizou: pela tarde de quinta-feira, todo mundo já tinha que passear com o guarda-chuva e, de noite, as pessoas tiveram que tirar a blusa da mochila.

– Não são só escritores consagrados que vendem seus livros na Flip: muitos autores iniciantes – e outros nem tão iniciantes assim – vêm para o paraíso da literatura divulgar suas obras. É o caso de Paulo Cavalcante, autor de O martírio dos viventes, já na quarta edição. Natural de Campina Grande (PB), é a quinta vez que Paulo marca presença na Flip com seu romance realista. “De todas as feiras literárias que eu conheço, a Flip é a mais nobre e completa, onde unem-se a beleza natural e histórica à humana”, diz ele.

– E Flip não é só lugar de escritores: músicos e artesãos também perambulam pela cidade chamando a atenção das pessoas. A dupla Joaley Almeida e João Bart, com violão, pandeiro e gaita, animavam o Centro Histórico entre as mesas dos bares. Nesta sexta-feira, eles inauguram a Cachaçaria Poética, na Rua da Lapa. Aqui, eles dão uma palinha exclusiva para Brasileiros:

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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