Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – Que homem é aquele que faz sombra no mar?

Lobo Antunes, humilde e grande

05 de julho de 2009, de Paraty

A tenda dos autores estava cheia. Flávio Moura entrou pelo palco, seguido por Humberto Werneck, o mediador, e António Lobo Antunes, aplaudido com entusiasmo pelo público que lotou todos os lugares na mesa Escrever é preciso. Como síntese de tudo o que foi dito ao longo dos últimos dias, a Flip convidou um dos mais importantes nomes da literatura “de nosso tempo”, como frisou Werneck, aturdido em meio aos seus papeis, com um polido António que lhe ofereceu elogios acerca de seu livro – lançado aqui no ano passado – O Santo Sujo, biografia do personagem boêmio Jaime Ovalle.

No início, Werneck, meio desalinhado, parecia tatear por tópicos familiares tentando conduzir a conversa. Chegou, inclusive, a interromper Lobo quando fazia uma sensível explanação sobre suas memórias infantis, do tempo dos avós e os laços que foram mantidos com o Brasil desde pequeno. Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, Monteiro Lobato, Cesário Verde, em suma, a literatura brasileira – mas principalmente os poetas, como Jorge de Lima – foi a base no processo de aprendizado e paixão pela escrita. Deixou de fazer a habitual leitura de um trecho da obra mais recente, protocolo de todas as mesas, – “Não sei onde está o papel” – para alongar-se nas memórias e em declarações ao Brasil, que “não é um país”, mas uma mistura de cheiros, comidas e lembranças.

Aparentemente jogada, a fala foi se enveredando por um caminho que pareceu ter sido previamente elaborado, trabalho de alguém que lida com a técnica e a sensibilidade de narrar desde os sete anos, quando se deu por si de que não haveria outra coisa a ser feita que não ser um escritor. Escrevendo assim, parece que enchemos de uma falsidade poética as falas e que mitificamos as frases de António Lobo Antunes transformando-o numa espécie de entidade superior, mas vê-lo dizer, com uma paixão profunda pelo que faz, na agudeza com que constrói belíssimas imagens, tudo se justifica – ainda que reconheça o valor de sua importância, confessando que é, sim, um dos maiores autores de seu tempo, justamente por ter sido esse o objetivo: ser um dos maiores autores de seu tempo. Obsessão provavelmente embutida pela rigidez da criação do pai, que “não queria ter filhos, queria lutadores de karatê”. Pai que também foi responsável por trazer a poesia para dentro da casa. “Meu pai tinha a sensibilidade, mas não tinha os meios de expressão”, confessou, lembrando-se que do seu avô, oficial da cavalaria, homem severo, recebeu: “Ouvi dizer que você escreve versos. Silêncio. Você é viado?”. Não houve como não rir.

O discurso converteu-se numa articulada construção sobre sua própria poética e o processo de composição literária. “Admiro a proeza técnica, mas me irrita um pouco a proeza pela proeza”, respondendo a Werneck, quando este afirmou que Lobo não era um grande admirador do autor de Ulisses, James Joyce, um dos maiores estetas da palavra. O escritor, para Lobo, possui um vício singular de se auto-exaltar no decurso do texto, admirando-se por suas metáforas, pelo modo inteligente com que desenvolve e envolve o leitor numa teia admirável de pequenas soluções estéticas. No entanto, Lobo reconhece atualmente que o escritor deve deixar de se evidenciar no texto, “a gente demora a entender que o livro todo é uma metáfora”, alegando que as pequenas resoluções formais não passam de desvios das próprias dificuldades do autor – uma pequena metáfora alocada como solução para eventuais bloqueios na narrativa. Assim, o livro não se constrói pelas figuras de linguagens pontuadas aqui e ali, mas no conjunto de suas páginas, revelando, ao longo da complexidade da leitura, o poder de se dizer sem necessariamente demonstrá-lo com as palavras.

“Um livro é um organismo vivo”, salientou Lobo Antunes, “quando o livro é bom ele não depende de você”, a respeito do metafísico, que não é inspiração, existente na arte. Inspiração, para ele, vem do esforço do ofício, pois a escrita não se encerra nela mesma, mas nas infindáveis horas de correção, no artesanato da palavra, no reconhecimento de que determinadas estruturas devem ser suprimidas e que o escritor tem de ser humilde com seu texto. Noção que trouxe da poesia – infinitamente superior à prosa na precisão do sentido das palavras – e do “maior poeta do século”, o recifense João Cabral de Melo Neto, cuja escrita provinha de estudo, esforço e, sobretudo, suor.

Irônico que, nesta Flip, com seus tantos autores – poetas e prosadores – apenas um deles, o maior, com a humildade e grandeza que só o tempo deve conceder aos sujeitos, tenha dedicado suas últimas palavras ao motivo único de existência deste evento: o leitor.

“Fiquem com Deus”, finalizou. Se a literatura não é feita de livros, como disse, mas de sonhos e pesadelos, que esse homem continue dormindo.

(Cobertura publicado no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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