Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – O velho e a literatura

Português António Lobo Antunes fala sobre literatura, guerra, medicina e da vida

03 de julho de 2009, de Paraty

Apesar dos olhos de um azul claro brando, a presença edificante de António Lobo Antunes transpassa a ideia de que alguns homens intimidam apenas pelo ímpeto da pronúncia de seus nomes. “Estão todos com medo”, arriscou uma voz perdida no meio dos repórteres, fotógrafos, estudantes e curiosos que mal respiravam sob o olhar observador do autor de Os cus de Judas, obra das mais reconhecidas pelos leitores brasileiros tratando-se de nossos ex-colonizadores e irmãos idiomáticos – em parte por ser, ainda hoje, título quase certo das listas de livros de vestibular.

Lobo, de educação severa e normativa, disse ao pai que gostaria de fazer o curso de letras. “Ótimo, então vai ser médico”, contou na coletiva realizada no fim da tarde de quinta-feira. Dedicando-se pouco ao ofício da medicina, abandonou a chance de ser cirurgião – pelo tempo hábil para leitura que o ocuparia, além de lhe cansar as mãos com as horas infinitas de práticas nas salas cirúrgicas – para o estudo da psiquiatria: havia algo de Dostoiévski na escolha. “Pensava que havia alguma coisa entre aquilo e a literatura”, assentiu.

Da guerra, que participou ao longo de quatro anos, prefere evitar o vício dos comentários. “Não vamos falar da guerra”, desconversa. Mas pouco depois se vê discorrendo novamente sobre, como um fantasma que assombra ainda que se fechem os olhos. “Não acredito que exista vencedor na guerra, todos perdem”, da sua própria experiência nos campos de batalha, onde conheceu o horror e a tragédia, desprezando as noções de pátria, honra e glória, alegando que não é de Portugal, assim como não o é sua literatura – num tom universal.

De costas para o realismo

“Eu devo ao hospital psiquiátrico por ter aprendido o mais importante sobre a técnica de escrever”, continuou, indagando sobre a medida em que o compromisso com a medicina foi estreitando os laços com a prática literária. De jovem autor a renomado literato, António Lobo Antunes confessa que hoje já não lhe apetecem as nomenclaturas – próprias dos jornalistas, fazendo questão de ressaltar -, assim como não reconhece os romances, em sua expressão mais formal, realistas e naturalistas como prática literária reveladora na atualidade.

“Sou um péssimo leitor. Quando começo a ler, logo tenho vontade de corrigir tudo”, riu, deixando escapar que poucos autores contemporâneos lhe interessam. Lobo defendeu o caráter mais onírico e ficcional enquanto linguagem, desprendida de um compromisso com a vida factual – a linguagem como invenção ou reinvenção do mundo. “Os mares de Hemingway e Conrad nunca existiram. (…) para escrever é preciso criar um repertório ficcional”. Em defesa de sua literatura, disse que “não me interessa contar histórias”.

Para o autor, os escritores atualmente compõem as obras como se estivessem obrigados a propor um sentido definido ao texto, tentando reconhecer os modos de interpretação do leitor, seduzindo-o com técnicas narrativas e tentando manter-se anterior à obra. Para ele, os livros deveriam ter impresso nas capas os nomes dos leitores – e não daqueles que os escrevem. “Isso eliminaria um grande número de problemas”, brincou e alertou que “os bons livros são aqueles que trazem as próprias chaves”.

A literatura de invenção de Lobo Antunes baseia-se na construção a partir da riqueza infinita das pessoas e nas coisas simples. Então o temor do homem severo de olhos azuis deu lugar a uma admiração pela sensibilidade de um autor honesto consigo mesmo, de um compromisso encantador com a hipótese de salvação pela palavra, resgatando um sentido literário que o aproxima da busca do ser humano em encontrar soluções para si mesmo. Nada de uma noção racional, de uma busca positivista por chaves e respostas para os dilemas lógicos. Mas, do poder que possui a literatura em revelar a partir das “coisas que as pessoas não prestam atenção”. “O mundo foi feito por trás”, disse Lobo Antunes, contando que sua grande lição foi aprender a lidar com aquilo que não estava na superfície.

O maior escritor português contemporâneo? “Eu”, responde sorrindo, “mas se você quiser eu posso mentir”.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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