Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – O (re)contador de histórias

Em Paraty, Gay Talese provavelmente não entrevistaria Gay Talese

05 de julho de 2009, de Paraty

Gay Talese, segurando uma taça de vinho numa mão e uma lata de Coca-Cola na outra, estava num canto iluminado do palco ao lado do mediador, o jornalista e editor da revista Piauí Mario Sergio Conti, e do público que esperava ouvir alguma palavra dele.

Filho do alfaiate que deixou a Cálabria, região italiana ao sul de Nápoles, para os Estados Unidos, Gay aprendeu desde pequeno que um homem deve vestir uma roupa com um belo corte e que existem sempre duas versões da realidade. Pelo menos duas. “Não queria escrever sobre notícias, mas queria escrever sobre personalidades e a complexidade do comportamento humano”, afirmando que reconheceu, ainda jovem e inexperiente na carreira que o perseguiria pela vida, o modo como a sociedade à margem se refletia nas notícias e no jornalismo.

Passou, assim, a se interessar pelos personagens estigmatizados, pessoas “absolutamente comuns”. Operários, prostitutas, jogadores. Havia um desejo em “penetrar diferentes níveis da sociedade”, dos estratos sociais mais inferiores aos astros em seus conflitos psicológicos. Talese conta que sua motivação fundamental girou sempre em estar no lugar onde as coisas acontecem, de ir em busca, com perseverança, daquilo que quer dizer. “Se você quiser escrever sobre essas pessoas tem que ser como essas pessoas”, contou.

“Eu queria ser um escritor de não ficção escrevendo como um escritor de ficção”, diz o storyteller, pois “as pessoas não dizem realmente o que elas pensam, eu sei disso”, ao lembrar-se do perfil, posteriormente publicado no livro Fama e Anonimato, “Frank Sinatra está resfriado”, quando não foi recebido pelo músico e, mesmo assim, conseguiu escrever uma das mais impressionantes construções psicológicas baseadas num personagem real. Se Frank não tivesse aquele resfriado e não fosse seu mau humor, o texto ficaria aquém das possibilidades, pois o complexo é conseguir atingir aquilo que não é expresso pelas pessoas, que fica submetido num contexto e emana somente com a observação e a perspicácia.

“Você não tem que escrever sobre o personagem principal, você pode escrever sobre aqueles personagens secundários, que são menores”, disse. Entretanto, menores num sentido da força de expressão social que possuem e não de seu papel como sujeitos na sociedade. Em Paraty, Gay Talese provavelmente não entrevistaria Gay Talese – mas o rapaz que vende balões, o técnico de som ou a camareira da pousada: esses, sim, seriam matéria para suas histórias de não-ficção.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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