Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – As outras vidas de Catherine M.

Muito à vontade, Catherine falou de todas as suas vidas

05 de julho de 2009, de Paraty

“Ciúme: 1. Receio ou despeito de certos afetos alheios não serem exclusivamente para nós. 2. Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração. 3. Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação”. O ciúme foi o tema que guiou a conversa da psicanalista Maria Rita Kehl com a escritora e crítica de arte Catherine Millet, que prometia ser muito mais picante e muito menos analítica – ao invés de abordar a deliciosa face do amor que envolve o sexo, falou-se muito mais da face terrível que embala o ciúme.

Uma comedida Catherine, muito diferente da divertida e lúbrica presente na coletiva de imprensa apenas alguns dias atrás, foi conduzida por uma sagaz psicanalista que transformou a mesa de literatura em análise. Odebate focou-se no segundo livro da escritora, A outra vida de Catherine M., no qual ela conta seus difíceis três anos de ciúme doentio nutrido por seu marido Jacques Henri. O mais interessante é o paradoxo que Catherine construiu em sua trajetória, pois seu livro anterior, A vida sexual de Catherine M., abordava sua imoderada e ousada vida sexual – a qual não atrapalhava seu casamento, que se consumava juntamente a um pacto mútuo de liberdade.

Prato cheio para uma psicanalista – a qual se sentiu muito à vontade para confabulações e até provocou uma “compreensão” repentina em Catherine, que a agradeceu -, a francesa contou todo o seu percurso desde que o ciúme arrebatou-a e o sofrimento que isso lhe causou. Fez revelações interessantes e inesperadas – como quando confessou que o tal sentimento que a destruía não provinha do amor, como todos supunham, mas era um ciúme de ordem carnal, do sexo, pois ela não tinha dúvidas que Jacques a amava. Além disso, contou que só conseguiu se livrar do incontrolável ciúme quando percebeu a dimensão masoquista que aquilo estava lhe causando: quando notou estar sentindo prazer naquela dor, alimentada por fantasias nas quais encarnava Jacques – e as quais nunca poderia viver na verdade pois, como todos os humanos, traz em si tabus, e um deles era não participar ou assistir às aventuras do parceiro.

No meio do bate-papo, Maria Rita Kehl ainda citou a poeta Ana Cristina Cesar, a qual dizia que “a mulher mais discreta é aquela que não tem segredos” – pensamento que imediatamente se cola à Catherine, que expôs tão visceralmente ao público as dores e as delícias de suas partes mais íntimas, e que falou do ensandecer de seu corpo e de seu coração de maneira tão madura e distante que parecia estar tratando de outras vidas – menos da sua própria.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: