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Cobertura 13o BAFICI – O BAFICI chega ao fim

18 de abril de 2011, de Buenos Aires

É um misto de alívio e tristeza quando termina um festival de cinema da magnitude do BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente). Um alívio porque a gente pode comer e dormir direito, sem ter que ficar correndo de uma sessão pra outra, escovando os dentes no banheiro do cinema, olhando pro caderninho pra ver se está atrasado pro próximo filme, decepcionando-se com umas bombas que a gente escolheu preterindo possíveis sucessos da programação. E é triste porque nossas preocupações deixam girar em torno do filme que vimos, que vamos ver, da descoberta cinematográfica que fizemos… Uns dias antes do início do evento, o crítico argentino Eduardo Antín (mais conhecido como Quintín), um dos fundadores da revista El Amante e ex-diretor do BAFICI, escreveu em seu blog que um bom festival de cinema como o que envolveu Buenos Aires de 06 a 17 de abril aporta toda a informação necessária para um ano. “Não é preciso nem ler os jornais”, assegurou. Mesmo exagerada, a afirmação tem um pouquinho de verdade.

Nessa 13ª edição, foram 11 dias, 1083 sessões, 438 filmes (e não 427, como eu havia dito aqui, quando apresentei o festival – culpa da assessoria de imprensa!) – 307 longas, 100 curtas, 31 médias -, 300 convidados internacionais, 210 mil entradas vendidas. Somando as atividades gratuitas, como projeções ao ar livre, concertos, mesas redondas, lançamentos de livros, entre outras, estima-se que 300 mil pessoas tenham participado do evento, confirmando seu crescimento frente ao público de 280 mil espectadores do ano passado.

Na aposta a um cinema diferente, arriscado e plural, a cada edição o BAFICI conquista lugar como um dos grandes eventos cinematográficos da América Latina (senão o maior). Eu acho que a grandiosidade da programação desvirtua um pouco a qualidade do festival – afinal, não é nada fácil encontrar e agrupar mais de 400 filmes e todos serem joias da tela grande. O BAFICI pode vangloriar-se da excelente Seleção Oficial Internacional deste ano – eu até arriscaria dizer que através dela podemos encontrar as mais diversas buscas que figuram no cinema contemporâneo. Isso se reflete na premiação, já que o júri dessa competição concedeu a rara quantia de três menções especiais. O grande ganhador como Melhor Filme foi o francês Qu’ils reposent en révolte (des figures de guerre), de Sylvain George, que também levou o prêmio FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos de Cinema), e sobre o qual falamos um pouquinhoaqui.

Já na Seleção Oficial Argentina, o arrebatamento não foi o mesmo. O BAFICI é um espaço de vital importância para a formação de jovens cineastas nacionais, sendo plataforma de decolagem para suas carreiras. Podemos perceber que muitos diretores que apresentaram seus curtas em edições anteriores estão mostrando hoje seus primeiros ou segundos longas, e daí geralmente partem para festivais internacionais. Mas o que vimos neste BAFICI é que o cinema argentino não está em seu melhor momento, e não é de agora. A inspiração não acompanhou muitos dos cineastas que despontaram exitosamente entre meados dos anos 1990, conformando uma geração que chamamos de Nuevo Cine Argentino, e os novos débuts não despertam tanto a atenção. Tudo bem que o país levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ano passado com O segredo de seus olhos (Juan José Campanella), o qual não tem nada a ver com o cinema independente convocado pelo BAFICI. Para um pequeno adendo que não vale desenvolver em poucas linhas, O segredo… possui um brilho há léguas de distância da maioria dos filmes comerciais produzidos na Argentina, que não ficam muito a dever às tão criticadas comédias televisivas que arrasam quarteirões no Brasil. Depois do Oscar, os brasileiros (movidos por aquela eterna contenda com os hermanos) começaram a exaltar de maneira excessiva a cinematografia do vizinho, fazendo diversas comparações com o cinema tupiniquim, de maneira a dar uma cutucada em nossos realizadores. Porém, como já comentei, é impossível comparar O segredo… com toda a produção argentina, seja comercial, seja independente. Sobre o cinema independente, em 2008 seis argentinos foram a Cannes (Lisandro Alonso, Lucrecia Martel, Marco Berger, Pablo Agüero, Pablo Fendrik e Pablo Trapero), e os críticos comemoraram a estreia do incrível Histórias extraordinárias, de Mariano Llinás – porém, esse entusiasmo foi pontual, menor que a tendência à homogeneização que faz com que os filmes se pareçam cada vez mais uns aos outros, com uma estética que se tornou lugar-comum, respaldando o cansaço e a preguiça que dá acompanhar a Seleção Oficial Argentina do BAFICI, cujo vencedor foi La carrera del animal, de Nicolás Grosso. Os dois filmes argentinos que mereceriam destaque estavam na Seleção Internacional: El estudiante (Santigo Mitre) e Yatasto (Hermes Paralluelo).

Os principais prêmios do festival foram:

Seleção Oficial Internacional

– Menção especial: Mercado de Futuros, de Mercedes Álvarez (Espanha)

– Menção especial: Las marimbas del infierno, de Julio Hernández Cordón (Guatemala/Francia/México) – você pode ver uma entrevista com Julio aqui

– Menção especial: Os Monstros, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti (Brasil)

– Distinção a Melhor Filme Argentino: Yatasto, de Hermes Paralluelo (Argentina)

– Melhor Ator: Jorge Jelinek, por La vida útil, de Federico Veiroj (Uruguai/Espanha)

– Melhor Atriz: Jeanne Ballibar, por At Ellen´s Age, de Pia Marais (Alemanha)

– Prêmio Especial do Júri: El estudiante, de Santiago Mitre (Argentina)

– Melhor Diretor: Athina Rachel Tsangari, por Attenberg (Grécia)

– Melhor Filme: Qu’ils reposent en révolte (des figures de guerre), de Sylvain George (França)

Seleção Oficial Argentina

– Distinção Melhor Fotografia: Iván Fund e Eduardo Crespo, por Hoy no tuve miedo, de Iván Fund

– Melhor Diretor: Román Cárdenas, por Las Piedras

– Melhor Filme: La carrera del animal, de Nicolás Grosso

Cine del Futuro

– Menção para: Year Without a Summer, de Tan Chui Mui (Malásia)

– Melhor Filme: Verano de Goliat, de Nicolás Pereda (México/Canadá)

Clique aqui para ver todos os laureados deste 13º BAFICI.

aqui para saber de todos os filmes dessa edição e cruzar os dedinhos para que muitos deles cheguem logo aos cinemas do Brasil.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

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