Revista Beta - O cinema online

Cobertura 13o BAFICI – Fábula dos trópicos: Sleeping sickness, de Ulrich Köhler

10 de abril de 2011, de Buenos Aires

A doença do sono, cuja transmissão se dá pela mosca tsé-tsé e o contágio por contato humano, só existe na África. O médico alemão Ebbo Velten vive aconchegadamente em Camarões dirigindo um programa com fundos europeus para erradicação/controle da enfermidade. Mas parece que o seu trabalho já foi feito, e ele está pronto para voltar à Alemanha com sua esposa e filha adolescente. Tudo acertado: casa vendida, sucessor preparado, as mulheres retornam à terra natal e Velten fica um pouco mais para resolver pendências. Parecia muito simples e sem graça, apesar da curiosidade que rondava a situação e o incômodo que ela provocava lá no fundo.

Sem avisar, Sleeping sickness muda de tempo e ponto de vista, envolvendo-nos em algo mais e mais intrigante. Parece que Velten ficou na África; sabe-se lá quantos anos se passaram – seremos informados numa conversa espontânea e haverá uma epifania quanto ao passado e futuro do filme, revelação que ao cabo apenas tornará as coisas mais enigmáticas. Parece que o programa contra a doença do sono está em estado caótico. Tudo “parece que…”; há uma incerteza com as ações, que sempre tomam rumos inesperados.

O médico Alex Nzila, francês de antepassados congoleses, é enviado a Camarões para fazer uma avaliação do projeto de Velten. E encontra um homem desalinhado, perdido em uma excentricidade febril, que de onde vem? Um desenraizamento de si mesmo e de suas origens, uma afeição hipnótica por aquela terra, a atração que se desprende da selva.. A câmera do diretor Ulrich Köhler se acerca dos personagens de maneira invisível, sem intrometer-se em seus ambientes, e a partir desse distanciamento as situações se desenvolvem de maneira espontânea, fluída, apesar do profundo estranhamento que provoca em sua naturalidade que pisa terrenos do fantástico.

Sleeping sickness é o terceiro longa do alemão Ulrich Köhler (1969), que tem no currículo Bungalow(2002) e Windows on Monday (2006), nenhum estreado comercialmente no Brasil. Sleeping sickness tem mais chances de chegar ao país devido ao Urso de Prata (Melhor Direção) que saiu carregando do Festival de Berlim deste ano. Köhler faz parte do que se chama “Escola de Berlim” dentro do “novo cinema alemão” – apesar de não ter estudado em Berlim, e sim em Hamburgo e na França. Como grande parte dos “novos cinemas” que floresceram a partir de meados da década de 1990 (geralmente falamos dos países do Terceiro Mundo que estabeleceram leis de incentivo e iniciaram uma política de financiamento e apoio estatal fazendo possíveis o renascimento da indústria cinematográfica nacional após o colapso econômico dos anos 1980 – como por exemplo o Brasil e a Retomada, ou a Argentina e o Nuevo Cine Argentino -, mas países ricos, como a própria Alemanha, também provaram uma “nova onda”), os filmes do “novo cinema alemão” não se relacionam através de afinidades temáticas ou ideológicas, e sim por meio da similaridade dos meios de produção e distribuição alternativos. E há uma coincidência geracional: vários cineastas, mais ou menos da mesma idade, fazendo uma porção de filmes completamente diferentes uns dos outros, mas que conformam um movimento renovador. Junto a Köhler podemos destacar diretores como Benjamin Heisenberg (The robber, 2010), Christian Petzold (Jerichow, 2008), Valeska Grisebach (Longing, 2006) e Maren Ade, ganhadora do Grande Prêmio do Júri com Todos os outros no Festival de Berlim de 2009, além de importante produtora (e esposa de Ulrich).

Sleeping sickness brotou de uma experiência longínqua de Köhler – quando criança, de 1974 a 1979, ele viveu com a família em um povoado perdido no Zaire (hoje, República Democrática do Congo), e seus pais trabalhavam como voluntários. Há tempos ele tinha vontade de filmar ali, e estabeleceu como pressuposto não ocupar o lugar arrogante do europeu que imagina ser o dono da verdade. Saiu-se muito bem. O (branco) europeu que se sente africano, o (negro) europeu de raízes africanas que não consegue encaixar-se em suas origens, as relações ambíguas e movediças entre África e Europa e as pessoas que vão, vêm e ficam em um lugar ou outro – dessa vez, o movimento da Europa à África, percurso inverso ao que estamos acostumados a ver. Distante do pitoresco do subdesenvolvimento e do politicamente correto, os impulsos pós-coloniais fazem um pano de fundo interessante, e só.

Os encontros e desencontros entre esses diferentes mundos são protagonizados pela entrega que os personagens fazem ao desconhecido, mesmo caminho percorrido por nós quando observamos e perseguimos o nonsense em que Ebbo está absorvido. No surreal que circunda o relato, tudo e nada fazem sentido, e Köhler nos regala uma fascinante fábula.

Sleeping sickness (Schlafkrankheit), de Ulrich Köhler. Alemanha/França/Holanda, 2011, 91 minutos.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

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