Revista Beta - O cinema online

Cobertura 13o BAFICI – Distribuição e exibição de cinema independente e a ACID (Association du Cinéma Independant pour sa Diffusion)

15 de abril de 2011, de Buenos Aires

No BAFICI do ano passado, os filmes argentinos mais comentados, celebrados e aplaudidos foram Los labios, de Santigo Loza e Iván Fund, e Lo que más quiero, de Delfina Castagnino.Los labios, que depois seria exibido na mostra Un certain regard do Festival de Cannes 2010 (e suas três protagonistas compartilhariam o galardão de Melhor Atriz nessa seção paralela), saiu vencedor na Seleção Oficial Argentina na categoria de Melhor Diretor, e também levou o prêmio da Asociación de Cronistas Cinematográficos Argentinos. Lo que más quiero foi escolhido como o Melhor Filme Argentino dentro da Seleção Oficial Internacional e ficou com o prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos de Cinema). Entretanto, após o furor festivalesco, nenhum deles conseguiu distribuição em salas argentinas, assim como muitos e muitos outros filmes nacionais que haviam feito a festa do público nos dias do 12º BAFICI.

No Brasil, o negócio também vai por aí. A Mostra de Cinema de Tiradentes, que em 2012 chega à 15ª edição e é hoje a grande vitrine do cinema contemporâneo brasileiro (assim como o BAFICI para os filmes argentinos), padece da mesma desgraça: nas últimas edições, nenhum dos grandes vencedores conseguiu distribuição – Os residentes (Thiago Mata Machado, 2011), Estrada para Ythaca (Irmãos Pretti e Primos Parente, 2010), A fuga da mulher gorila (Felipe Bragança e Marina Meliande, 2009), e também os laureados em 2008, 2007, 2006, 2005…

Todo mundo já sabe que o grande problema do cinema hoje não é a produção, e sim o encontro dessa produção com o público, quando o círculo se completa. Todo mundo também já sabe que as grandes distribuidoras e os multiplex é que atravancam o mercado para produções independentes, colocando sempre a culpa em um público desinteressado em tal ou tal tipo de cinema. Como vai haver demanda se não há espaço para oferta? Mas isso não é um problema só dos tristes trópicos.

Pensando mais especificamente na exibição e nos cinemas independentes nacionais, podemos falar sobre a cota de tela, que determina a quantidade de filmes nacionais que as salas de cinema devem exibir, e é um dos mecanismos implantados em vários países (entre eles Coreia do Sul, Espanha, França, México…) para proteger o cinema local – o que não garante, por exemplo, que a Globo Filmes e seusblockbusters não vão ocupar este espaço e esmagar a chance dos brasileiros menores de servir-se desse cantinho. No Brasil, como base, cada sala de cinema é obrigada a exibir três filmes nacionais por ano, durante no mínimo 28 dias, e a porção de filmes e de dias vai variando conforme o número de salas dos complexos. Na Argentina, os números são estipulados dependendo do tamanho do cinema e, em 2009, foi implantada a média de continuidade – se um filme atinge uma determinada quantidade de público, seu tempo de exibição vai se estendendo. Abrindo um parêntese, apesar das muitas semelhanças entre os dois países com relação às leis do cinema e aos sistemas de produção ligados aos subsídios e financiamentos, há uma diferença importante ao tocarmos na exibição: quando no Brasil um projeto consegue apoio público, não há a obrigatoriedade de exibi-lo, apenas de prestar contas de que o trabalho foi concluído. No vizinho, todo filme que tem apoio do INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, uma sorte de ANCINE) é obrigado a ser exibido por pelo menos duas semanas. Para isso estão os Espacios INCAA: salas presentes em todo o país (e também no exterior) que privilegiam o cinema argentino e dão lugar àquelas produções que não conseguiram ser projetadas em outros lugares.

Falando sobre o cinema independente como um todo, os festivais de cinema têm se tornado, além de co-produtores (a partir de iniciativas que incluem desde oficinas para desenvolvimento dos projetos ou como vitrine de works in progress em busca de parceiros para sua finalização), fundamentais quando se fala em distribuição. É nos festivais que, na maioria das vezes, se dá o encontro do filme com um distribuidor e, mais recentemente, parcerias com redes de televisão que garantem a exibição do filme, nem que seja na telinha – algo muito comum na Europa, mas que ainda está engatinhando na América Latina, e se faz presente, por exemplo, no BAFICI com o I.Sat (canal a cabo de propriedade da Time Warner com sede em Buenos Aires e transmissão para vários países sul-americanos, inclusive o Brasil) e em Tiradentes com o Canal Brasil.

Assim, essa questão que rodeia a maioria dos filmes da programação do BAFICI foi tema de um diálogo interessante entre as atividades especiais desta edição do festival portenho: Sergio Wolf, crítico de cinema e diretor artístico do BAFICI, conversou sobre as inquietudes da distribuição do cinema independente com o estreante cineasta francês David Dusa (Les fleurs du mal) e com a francesa Fabienne Hanclot, delegada geral da ACID (Association du Cinéma Independant pour sa Diffusion), que foi o centro do debate.

A ACID surgiu em 1992, época em que os multiplex começavam a invadir a França encurralando os filmes pequenos.  Criada e dirigida por cineastas, a associação nasceu a partir da preocupação desses realizadores em fazer com que suas produções não fossem esmagadas em poucas salas, mas que se difundissem como deus manda por todo território francês. Se, naquele momento, eles não se ocupassem dos problemas de distribuição, logo poderiam surgir também problemas na produção.

A França não escapa da situação grande produção – dificuldade na distribuição/exibição que vivenciamos por aqui (é a regulamentação imposta pelo mercado, né), e a ACID ajuda no equilíbrio dessa balança ao criar caminhos paralelos ao esquema tradicional – e eles não se restringem apenas ao cinema nacional (Fabienne conta, inclusive, que os distribuidores locais se interessam mais, geralmente, por filmes estrangeiros). Funcionando como uma espécie de cooperativa, a ACID é inteiramente financiada com dinheiro público, o qual provém, principalmente, do CNC (Centre National du Cinéma et de l’image animée – correspondente a nossa ANCINE), Unifrance (sociedade promotora do cinema francês em âmbito nacional e mundial), dos governos da região de Île-de-France (onde está Paris) e da região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, da prefeitura de Paris, e de sociedades de direitos de autor, além de alguns outros parceiros.

Fabienne comenta que, hoje, o trabalho da ACID divide-se principalmente em duas partes: uma delas é a seleção de filmes sem distribuidor para serem exibidos em Cannes, onde estão presentes distribuidores do mundo todo em busca de novidades. Quando o filme sai do festival de mãos vazias, há um outro caminho através das salas de exibição: a ACID entra em contato com as salas e, se surge um interesse por parte delas, os distribuidores acabam também atraídos e entram em ação, já que é um negócio garantido.  A outra é a manutenção nos cinemas de filmes que possuem distribuidor, mas que não conseguem manter-se em cartaz. São cineastas que fazem todo esse trabalho de seleção e divulgação dos filmes – e, segundo ela, não ganham financeiramente nada com isso.

Como explica Fabienne, o grande objetivo da ACID é fazer com que o público se encontre com os filmes, os quais não têm dinheiro suficiente para publicidade e para engatar essa aproximação. A associação procura criar uma rede de espectadores, e organiza exibições em centros culturais, festivais, colégios, prisões, povoados distantes. Além disso, eles procuram evitar a ideia de que Paris decida o que vai ser projetado no resto da França: geralmente, um filme só chega ao interior se fez sucesso na capital, o que acaba sabotando o potencial êxito de uma produção. Presente em mais lugares e por mais tempo, os filmes são mais vistos e fazem funcionar um boca-a-boca (impraticável no circuito comercial, já que rapidamente podem ser retirados de cartaz) que cada vez mais aviva o filme, que pode assim fechar o círculo. O problema é que o público dessas exibições não entra nas estatísticas oficiais, que são as consultadas pelos distribuidores – e assim continuamos a ter salas comerciais vazias, salas de festivais cheias, e a desconfiança dos distribuidores.

Como forma de diminuir essas incongruências, Fabienne defende a constante aproximação do público para a criação de uma demanda antes da oferta, já que o contrário (o público diz que não há salas, e as salas dizem que não há público) trava as coisas. Para ela, essa aproximação não deve ser feita filme a filme (e nem se teria dinheiro para isso), e sim a partir de uma proposição, de uma ideia de cinema independente, que é o divulgado pela ACID. As pessoas lotam os festivais mesmo que não conheçam a programação, e isso é porque têm confiança nos festivais, concebidos com um espírito, e não a cada filme. Dessa maneira, Fabienne acredita que os programadores deveriam trabalhar no circuito com a mesma concepção que adotam ao trabalhar nos festivais – através de uma curadoria com base em uma ideia, focalizando na conjunção e fidelidade do público, que estará aberto e disponível não importa o filme.

Surgiram muitas questões sobre por que não existe uma entidade assim na Argentina ou na América Latina. Sergio Wolf tentou e tentou responder: mais do que um impedimento operativo, há um impedimento ideológico, que começa com uma política cinematográfica defeituosa, um poder público que prefere partir em outra direção, um poder privado que não se interessa (pois não há retorno suficiente), e uma falta de articulação entre o poder público e o poder privado e, mais que tudo, entre os próprios interessados (ele cita, por exemplo, que na Argentina existem seis sociedades que congregam quem atua no cinema, desarticulando uma união). Na verdade, foi muito difícil encontrar uma resposta e uma solução que poderia desenvolver-se no país para diminuir o monstro que está embaixo da cama de todo cineasta independente – e no Brasil não é diferente.

Enquanto isso, a internet vai cobrindo essas brechas e tornando-se um habitat atraente para os filmes independentes (mesmo que ainda não se saiba como obter retorno financeiro com ela) – Gonzalo de Pedro Amatria, programador do Punto de Vista Festival Internacional de Cine de Navarra, inclusive citou em outro debate que descobriu alguns filmes selecionados para o Punto de Vista através da rede. Para ver alguns filmes que estão em festivais pelo mundo, há o MUBI e o Festival Scope.

Para ver o site da ACID e quem sabe colocar o seu filme na roda, aqui. Há muitas informações interessantes, e é legal observar como é abordado o espectador – mais especificamente aqui.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

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