Revista Beta - O cinema online

Cobertura 13o BAFICI – Como diabos marimba com heavy metal? Entrevista con Julio Hernández Cordón

16 de abril de 2011, de Buenos Aires

Quando comecei a fazer minha curadoria para não me perder entre as centenas de filmes do 13º BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente), Las marimbas del infierno, com esse nome insólito, despertou-me curiosidade, mas acabou ficando na lista do “talvez”. Nos primeiros dias de festival, fui a um debate sobre cinema latino-americano contemporâneo e Julio Hernández Cordón, diretor de Marimbas, estava por aí. Julio me pareceu tão, mas tão tímido, e de certa maneira inseguro a cada coisa que falava, que de início pensei que ele ia cair duro de tanto nervoso lá em cima do palco. O desassossego que ele transmitia, entretanto, era só impressão – Julio fala assim mesmo, devagarzinho, pensando um monte antes, dispensando a ansiedade, colocando umas pausas no lugar errado, mas ele está muito certo de tudo que está dizendo. No decorrer do diálogo, Julio narrou com tanta leveza a cruzada que era fazer cinema na Guatemala que Marimbas transferiu-se para a relação “ver este filme com certeza!”.

Em Marimbas, Don Alfonso toca marimba, uma espécie de xilofone de madeira, típico da Guatemala, que apesar de toda a tradição que o envolve já não dá conta nem de animar almoços em restaurantes turísticos. Somado a isso, Don Alfonso está sendo alvo de uma extorsão, o que o obriga a despedir-se de sua família e zanzar de um lado a outro se escondendo com sua marimba e tentando sobreviver com sua música. Do outro lado está Blacko, uma lenda do heavy metal guatemalteco. Essas duas figuras, completamente opostas, compartilham a paixão ilimitada pela música e pelos seus sonhos e se inserem em um contexto muito similar – a dificuldade de criar em um país como a Guatemala. O encontro entre eles – que dá origem à banda “Las marimbas del infierno”, cujo objetivo é a fusão absurda entre a sonoridade doce da marimba e o heavy metal – é propiciado por Chiquilín, afilhado de Don Alfonso, moço com uma espirituosa imaginação que vive por aí cheirando solvente e fazendo qualquer coisa para ganhar uns trocados.

Marimbas é um filme pequeno com coração grande, como caracteriza Julio. Melancólico, mas brilhantemente cômico (daqueles filmes tristes que fazem a gente ficar feliz), narra as situações desesperadoras que envolvem a ideia improvável de mesclar as músicas de Blacko e Don Alfonso, os quais contam com Chiquilín como manager (!). É a odisseia daqueles que pretendem ter suas intenções artísticas como meio de sobrevivência, e que vai além do descaso das pessoas e do enfrentamento com estúpidos trâmites burocráticos (a sequência de Chiquilín na galeria de arte é irresistível). É o amor à criação mais forte que as adversidades, e o diretor se diz fanático por histórias de gente que não se rende.

Julio nasceu por acidente nos Estados Unidos, no momento em que seu pai (mexicano-guatemalteco) fazia um doutorado por lá. Sua mãe é guatemalteca e ele, que passou a infância e a adolescência entre México, Costa Rica e Guatemala, se considera mexicano-guatemalteco (ou guatemalteco-mexicano, tanto faz). Quando o cineasta era criança, seu pai adorava fotos, e chamava os filhos todos os domingos para ficar vendo slides com paisagens – desde criança Julio é acompanhado pelo enquadramento. A primeira coisa que filmou foi o videoclipe de um grupo de rock que ele perseguiu por meses até convencer a banda da gravação – na rodagem, o guitarrista saiu para comprar cigarros e não voltou, mas o vídeo acabou na MTV. Julio estudou Ciências da Comunicação na Guatemala e depois passou pelo Centro de Capacitação Cinematográfica do México. Entre 2004 e 2005, retornou à Guatemala e filmou seu primeiro longa, Gasolina, que estreou no ano seguinte.  Marimbas, seu segundo trabalho, também conta uma história da Guatemala, na Guatemala. Os dois filmes circularam por diversos festivais em todo mundo, colhendo prêmios aqui e acolá, e também botaram os pés no Brasil, quando Gasolina foi exibido na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo (2008) e no 5º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo (2010), e Las marimbas del infierno na 34ª Mostra, ano passado.

Quando vi Marimbas, quis falar com Julio e marcamos uma entrevista. Nos encontramos minutos depois de uma sessão esgotante de The Turin Horse, e resolvemos atrasar nossa conversa em uma hora para recuperarmos as forças após a porrada que havia sido o filme de Béla Tarr. Com seu espanhol sereno da América Central, Julio falou comigo por pouco mais de meia hora, já que ele ia embora de Buenos Aires no dia seguinte e imediatamente havia outro jornalista lhe esperando.

Como nasceu Marimbas?

Marimbas surgiu como uma forma de relaxar. Fui selecionado no programa de residência da Cinéfondation [programa do Festival de Cannes que acompanha cineastas estrangeiros na elaboração de seus filmes] e estava em Paris desenvolvendo Polvo [, em espanhol], um projeto muito intenso. Necessitava sorrir, apaziguar-me um pouco, e comecei a escrever Marimbas casualmente. No fim de 2009, arranjei um pouco de dinheiro na Guatemala e depois consegui firmar uma co-produção com França e México, e assim rodei o filme entre janeiro e fevereiro do ano passado. Trabalho muito com gente que estudou comigo no México, e formamos uma equipe de seis pessoas (tinha gente de todo o lado: a fotógrafa uruguaia que me acompanhou em todos meus trabalhos, uma editora espanhola, um boliviano). Filmávamos com uma câmera de fotografia Canon 7D, emprestada pela Les Films du Requin, produtora francesa. Trabalhei quase nada com roteiro e houve muito espaço para improvisação e experimentação. É um filme que começou como um jogo e ao final tornou-se uma surpresa muito linda – estreou em Toronto, passou por San Sebastián, Miami, Friburgo, Torino, Toulouse, Valdivia, Morelia, aqui em Buenos Aires… um recorrido muito bonito.

E esse negócio de juntar marimba com heavy metal?

Fazia tempo que eu tinha essa ideia na minha cabeça, e esse nome Las marimbas del infierno, que pra mim é ótimo pelo humor. A marimba é um instrumento típico da Guatemala e as pessoas ficavam bravas, me criticavam, dizendo que tinha que ser “marimbas do paraíso”, porque o som da marimba é muito lindo, e isso me parecia divertido. E os personagens me deram a oportunidade de contar essa história. O primeiro em que pensei foi Blacko. Depois, conheci Don Alfonso quando fazia Gasolina, e a situação da extorsão me comoveu, ao mesmo tempo que fez um click na minha cabeça – era o pretexto ideal para que um músico tradicional quisesse fusionar-se com o heavy metal: a falta de oportunidade, a perseguição, a necessidade de criar outro espaço para poder trabalhar. Pareceu-me muito natural esse encontro.

Como você conheceu Blacko e Chiquilín?

Eu vivia na Costa Rica e cheguei à Guatemala quando era adolescente. Eu gostava de punk e não existia isso na Guatemala: ou era música tropical, ou era heavy metal, que os meus amigos foram me mostrando. Blacko é uma figura lendária no país, e eu nunca tinha falado com ele; me dava um pouco de medo por sua personalidade tão forte, ao mesmo tempo que me chamava a atenção sua capacidade de não renunciar. De dizer “é isso que eu gosto de fazer e aconteça o que acontecer me dedico a ela”. Isso me deixou louco; me identifiquei com isso. Estamos em um país onde não é lógico criar certas coisas, mas por que vou desistir? E isso me seduzia, assim como a postura radical dele com o rock – ele é realmente médico e não veste branco, não corta o cabelo. É interessante que ele é tão inabalável no rock e ao mesmo tempo tão flexível, por exemplo, com a religião, a qual ele muda constantemente – satanista, cristão, evangélico, judeu ortodoxo.

Chiquilín foi meu aluno em uma escola de cinema na Guatemala, e quase não aparecia nas aulas. Os outros estudantes contavam muitas histórias sobre ele: que trabalhava em um negócio de gruas com o pai e ficava rebocando carros na madrugada; que era um expert em escapar de centros de reabilitação (pois tinha problemas com drogas). Esse personagem se fez muito cinematográfico para mim. De início, Chiquilín era secundário, e durante a rodagem, pouco a pouco, foi deslocando os demais até que no meio do processo eu decidi que a história ia ser contada através dele.

Quais foram as reações de Don Alfonso e Blacko quando souberam da ideia do filme?

Don Alfonso tinha dúvidas se podia atuar e expor a experiência da extorsão. Ele não conhecia heavy metal. Quando conheceu Blacko se impressionou muito por sua forma de se vestir e se comportar. Ao escutar a música não fez nenhum comentário, ficou sério. Blacko achou interessante e se preocupou em como entrelaçar os gêneros, e eu lhe respondi que isso era tarefa deles; não me importava se funcionava ou não. A intenção era tentar a fusão. Disse a Blacko que a música dele ia ter exposição e ele gostou dessa perspectiva.

Como foi ganhando vida tudo isso?

Don Alfonso e Blacko se conheceram no primeiro dia de filmagem. Os dois ensaios que há no filme são os únicos que gravamos e são documentais. Eu coloquei todos eles no quarto de ensaio e disse pra tocarem; ao Chiquilín falei pra cantar de tal e tal maneira, e a Blacko que Chiquilín ia cantar horrivelmente e que ele teria que interrompê-lo e ficar bravo. Eu colocava os atores em situações que iam me ocorrendo, dava umas indicações, e assim foi se construindo. Havia um roteiro mas eu quase não o usava pelo fato de trabalhar com atores não profissionais, assim como em Gasolina. Para mim, o roteiro serve para conseguir dinheiro para os projetos e para saber que cenas vou fazer a cada dia. O roteiro, no meu caso, é meio uma camisa de força que me impede de obter a naturalidade que eu busco nas pessoas. Sigo a ideia do roteiro, mas os diálogos são todos improvisados, pois eu peço aos atores que usem as palavras deles, que me emprestem suas palavras e movimentos para o filme, para o personagem.

A Lucrecia Martel tem mais ou menos a mesma concepção que você sobre os diálogos – ela também não os escreve quando trabalha com crianças e com não-atores.

Eu participei de uma oficina dada pela Lucrecia Martel na Costa Rica e foi muito revelador para mim. Ela mostrou como trabalhava e como colocava atenção na fala. As pessoas falam de maneira muito peculiar; mudam de temas, emoções, o jeito de pronunciar as palavras, o subtexto que está aí. Isso me pareceu muito importante e de certo modo eu o acoplei à minha maneira de trabalhar.

Fala um pouquinho sobre a sua predileção pelos não-atores.

Prefiro trabalhar com não-atores pela espontaneidade e porque busco pessoas que sejam próximas aos meus personagens e não pessoas que devem tornar-se personagens. Me sinto em uma linha entre o documentário e a ficção, e acredito que trabalhando com pessoas que não são atores estou documentando uma maneira de falar, pensar, de ser. Em Marimbas eu não mudei a roupa de ninguém, eles saíram da maneira que estavam ali, como são, e essa textura me agrada. Pode parecer muito artesanal, mas, para mim, apesar dos erros ou lasquinhas, dá algo particular, é uma peça única.

Uma dúvida sobre uma coisinha do filme: o que é a extorsão, a ameaça que fazem a Don Alfonso?

Na Guatemala, as maras [quadrilhas, ou facções] fazem algo mais ou menos como Al Capone: vão aos comércios e cobram uma taxa que se não é paga resulta em morte. Nos bairros marginais da Ciudad de Guatemala [capital do país], as maras extorquem vizinhos: se não recebem certa quantidade de dinheiro, que deve ser deixado em um lugar determinado, os marginais estupram filhas, esposas, matam familiares. O pior é que nunca se sabe quem são essas quadrilhas. Há cartas e telefonemas, mas de onde vêm? Eu achei interessante colocar o ponto de vista de alguém que está sendo extorquido; da vítima que reconhece que está sendo perseguida, mas não sabe por quem. O único que se sabe é que estão ameaçando-o e que são pessoas verdadeiramente perigosas, o que gera uma paranoia terrível.

Você podia contar um pouquinho sobre Gasolina?

Em Gasolina, uns meninos se dedicam a roubar gasolina de veículos que estão estacionados para colocar no carro de um deles e dar voltas pela noite. Para produzi-la, ganhei 20 mil dólares de um fundo latino-americano chamado Cinergia, e depois comecei a buscar mais dinheiro na Guatemala, mas ninguém me deu muita bola. Pensei em voz alta quem seriam os mais sensíveis no país para me dar essa grana; quem entenderia a importância de um filme ou de um gesto artístico: seriam outros artistas. Os artistas plásticos na Guatemala andam muito bem, são sumamente cotizados e por uma peça podem ganhar até seis ou sete mil dólares. Entrei em contato com alguns e fomos convocando um grupo, apresentando o projeto, e lhes pedi que cada um me doasse uma peça. Arrecadei 37 obras e, como tínhamos pressa, fizemos um desconto de 60% no lote todo, e conseguimos vendê-lo a um colecionador na mesma noite em que o conjunto foi apresentado. Consegui assim mais 20 mil dólares e depois algumas pessoas, em particular, foram me dando cinco mil, sete mil dólares, por aí, além do apoio de algumas fundações.

Do que se trata Polvo, o novo filme que você acabou de filmar?

Polvo é a história de um menino indígena cuja mãe está buscando o pai, que desapareceu no conflito armado. O garoto sabe quem delatou seu pai; é um filme de vingança. Ao mesmo tempo, há uma relação entre este menino e um mestiço, o qual está documentando a busca da mãe. É um filme sobre a vingança e sobre a família.

O que foi esse conflito armado na Guatemala?

Foi um conflito que durou 36 anos. A Guatemala teve o primeiro governo de esquerda por eleição popular da América Latina, em 1944, e ele esteve no poder por dez anos. Tentaram fazer uma reforma agrária com terras ociosas, e essas terras pertenciam a uma empresa norte-americana bem “pequenininha”, a Banana Fruit Company. Resulta que o dono desta companhia era irmão do diretor da CIA, que ao descobrir que queriam expropriar as propriedades do seu irmão promoveu uma invasão à Guatemala, que foi o primeiro país invadido pela CIA e serviu de modelo para o que aconteceu depois em Granada, no Chile, na Bolívia… Era o Exército que comandava o país, mas não houve um homem forte; o poder passava de mão em mão dentro das Forças Armadas. A paz foi firmada em 1996. Este conflito deixou cerca de 250 mil vítimas (entre mortos e desaparecidos) e houve 462 massacres, dos quais apenas dois foram julgados. A Guatemala tem vivido na impunidade há muitas décadas.

E como é o cinema da Guatemala?

Aí, cinema se faz com dinheiro próprio e todos os filmes se fazem em vídeo. Houve um pequeno boom recentemente, como em todos os lugares, devido à tecnologia. Há muita influência de Hollywood, tanto na forma de produzir quanto nos tipos de história. Assim, se fazem filmes parecidos aos hollywoodianos, mas como não se dispõe do mesmo orçamento, a coisa sai mal. No ano passado, foram feitos 12 filmes, a maioria com orçamentos que variam de cinco a 70 mil dólares. Agorinha estão surgindo algumas pessoas que veem o cinema de outra maneira, contam de outra maneira; gente que foi estudar fora do país e está voltando para tentar realizar seus projetos. Nos anos 1990 houve El silencio de Neto (Luis Argueta, 1996), que foi o primeiro filme que apareceu mais no cenário internacional. O que se fazia anteriormente era muito cinema mexicano, que usava a Guatemala apenas como locação, e assim saíam filmes de lucha libre, de marcianos, umas coisas que eu nem sei dizer. Mas acho que na América Central o que mais se produziu (principalmente pelo conflito armado dos anos 1980), e se produz, são documentários. Entretanto, não creio que tenha existido ou exista um movimento, um estilo. Eu não vivo do cinema que eu faço, mas as histórias que eu tenho pra contar estão na Guatemala, e a vantagem de fazer cinema aí é que tenho liberdade total para fazer o que eu quero, já que os meus filmes são tão baratos que eu não tenho muito a perder. As co-produções são importantes, mas tem que haver cuidado para que não se perca qualquer coisa que está no germe do projeto.

Então não existe lei de cinema?

Não. Há quatro anos estamos pressionando para que seja aprovada uma lei de cinema. Está no Congresso, mas a coisa vai muito lenta. Por outro lado, faz dois anos que o país entrou no Ibermedia, um fundo ibero-americano, mas desde que ingressou o país não pagou sua cota anual. Isso me afetou porque eu consegui apoio do Ibermedia para Polvo, e um dia antes do início das filmagens, em dezembro passado, nos ligaram do fundo dizendo que o dinheiro seria congelado.  Até o momento em que a Guatemala não pagasse, eles não nos liberariam a ajuda. E isso nos colocou em um grande aperto… mas vai sair tudo bem.

Sim! Com certeza nos vemos em um próximo BAFICI e voltamos a conversar sobre Polvo.

Las marimbas del infierno, de Julio Hernández Cordón. França/Guatemala/México, 2010, 73 minutos.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: