Revista Beta - O cinema online

Cobertura 13o BAFICI – Cinema vivo: Poesia, de Lee Chang-Dong

08 de abril de 2011, de Buenos Aires

Mija, protagonista de Poesia, é uma senhorinha emperiquitada de inocência e bondade incomuns, de vida anódina e solitária porém entusiasmada, ali nos arredores de Seul. Ela devia ser muito bonita quando jovem, ter arrasado corações; todos dizem a toda hora. Seu apartamento é cheio de caminhos de mesa, bibelôs, tranqueiras em geral – tudo no seu devido lugar; dá até pra sentir o cheiro de casa de vó. Seu neto adolescente, de apatia intolerável, também mora aí, e é criado por ela. A mãe do menino se foi há muito, e Mija pendura-se ao celular com essa filha ausente, de um distanciamento monumental – nós nunca a escutamos, de tão longe que a mulher deve estar. Mija também trabalha, cuidando de um senhor que parece ter tido um AVC. Um dia, ela se matricula em um curso de poesia. Afinal, sempre gostou de flores e falou coisas esquisitas. Nas aulas que frequenta, não ouvimos nada sobre técnicas literárias: a grande lição é sobre como ver as belezas cotidianas, como olhar pra tudo como se fosse a primeira vez.

A poesia que o filme traz no título não corresponde ao termo ao qual nos acostumamos. A cena inicial já diz um pouco sobre isso, com uma imagem que tinha tudo para fazer-nos lembrar de algo “poético”: a natureza, o rio de um verde bonito, as crianças brincando por ali… se não fosse a menina que vem boiando, morta. Essa garota, que se suicidou pulando de uma ponte, era estuprada há meses pelo neto de Mija e alguns colegas.

A protagonista também descobre que tem um princípio de Alzheimer, e se esquece dos substantivos – logo serão os verbos, e depois o olvido absoluto. Entretanto, em meio ao desmoronamento de sua vida, Mija não questiona de maneira enérgica suas desgraças: sua maior fragilidade e aflição provêm da impossibilidade de seu encontro com a inspiração poética.  A poesia é inatingível para Mija que, perseverante, faz tudo o que diz o professor, porém sem lograr nenhum verso.

O mundo caminha alheio aos sofrimentos de Mija, e ela caminha desconectada do mundo. Não se sabe se é o Alzheimer que a descola e assim nos desconcerta, ou se nossa incompreensão origina-se da meticulosidade com a qual a câmera (não) se aproxima da calma interiorizada que carrega essa mulher. A tragédia, a um passo do melodrama, se cristaliza em poesia.

Karaokê, badminton, Viagra fazem parte dessa poesia – que não perde a sua força devido à crueza com a qual o diretor Lee Chang-dong aborda a dor que não aflora de Mija, interpretada pela veterana Yun Jeong-hie. A atriz, que não atuava há 16 anos, foi uma estrela nacional nos anos 1960 e 1970, período no qual fez mais de 300 filmes e participou da infância de gente como Lee, nascido em 1954.

Lee foi Ministro da Cultura da Coreia do Sul, romancista de sucesso e aos 40 anos entregou-se ao turning point da vida – agoniado por uma necessidade de mudança, deixou a literatura para dedicar-se à sétima arte. Estreou na direção em 1997 com Chorok Mulkogi (Green Fish), seguido por Bakha Satang(Peppermint Candy, 1999), Oasis (2002), e estourou com Milyang (Sol Secreto, 2007), vencedor na categoria de Melhor Atriz no Festival de Cannes de 2007. No ano passado, Poesia também saiu premiado da Croisette: Melhor Roteiro. Como comentou o crítico Luiz Carlos Merten, muita gente, como o pessoal da Positif (revista francesa “rival” da Cahiers du Cinéma), defendia que Poesia deveria ter levado a Palma de Ouro no lugar do tailandês Tio Boome que pode recordar suas vidas passadas. O filme de Lee também perdeu para o de Apichatpong no 5º Asian Film Awards como Melhor Filme, mas foi laureado com os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Lee já havia saído de mãos cheias na segunda edição do AFA, em 2008, com Melhor Filme, Diretor e Atriz por Sol Secreto. No ano passado, foi um conterrâneo de Lee que levou o galardão maior do festival asiático: Mother, de Bong Joon-ho, com o qual Poesia guarda algumas semelhanças: a vida de província, um crime, as mulheres que defendem o filho ou o neto, esse sofrimento solene que não transparece e ao mesmo tempo é tão claro; um aperto que vai dando na garganta, no estômago, no coração. Também pude me lembrar de Lola, do filipino Brillante Mendoza, no qual duas avós – a do assassino e a do assassinado – debatem-se pela salvação de seus netos, sob chuva incessante e opressiva. Porém, enquanto em Lola (que, em filipino, quer dizer justamente “vovó”) eMother as mulheres mergulham numa via-crúcis por seus herdeiros, em Poesia essa situação desenvolve-se em paralelo aos recônditos problemas de Mija, ao esquecimento das palavras que não a permite avançar com seu poema, à impossibilidade de esquecimento que não a deixa ver as coisas frescas como se fosse a primeira vez, ao abraço resignado que ela dá na vida que a menina morta deixou.

Lee declara, em muitas entrevistas, acreditar que o cinema e a poesia estão morrendo; sem mais. Mesmo acompanhando o vigor cinematográfico que sopra da Coreia do Sul, não assisti a nenhum dos filmes anteriores do diretor. Fui ver Poesia (título tão suspeito quanto tentador) devido à afirmação de um amigo de que filmes como este mostram que o cinema está vivo. Após a sessão, daquelas em que no fim todo mundo fica sentado vendo os créditos por entorpecimento e depois sai em silêncio absoluto, é impossível acreditar no apocalipse de Lee, já que ele mesmo prova que o cinema vive da maneira mais pulsante e orgânica que se possa imaginar.

 

 

Poesia (Shi), de Lee Chang-dong. Coreia do Sul, 2010, 139 minutos.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

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