Revista Beta - O cinema online

Cobertura 13o BAFICI – Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente

06 de abril de 2011, de Buenos Aires

Apesar de acompanhar com euforia, de longe, grandes festivais como Cannes, Berlim e Veneza, sempre bate um desânimo quando penso que talvez eu nunca veja aqueles filmes. A Mostra de Cinema de São Paulo e o Festival do Rio abraçam o cinéfilo e nos confortam nessa hora, trazendo ao Brasil (às vezes para uma ou duas exibições, apenas) joias raras que talvez nunca mais tenhamos a oportunidade de ver, além de permitir que nos aventuremos em cinematografias e nomes completamente estranhos ao universo que está ao nosso alcance nas salas comerciais (e mesmo nas alternativas).

Embora conhecida pela intensidade de sua vida cultural, em Buenos Aires os amantes de cinema também sofrem esperando filmes sobre os quais se têm notícias apenas do outro lado do Atlântico. O BAFICI – Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente, que começa hoje na capital portenha, transforma a cidade em um paraíso cinematográfico e faz a alegria dos cinéfilos que resistiam ao circuito torrent de exibições para ter acesso ao melhor do cinema contemporâneo.

Atual éden dos turistas brasileiros com a competição das operadoras aéreas e um câmbio R$ 1 = 2,50 pesos, Buenos Aires ainda tem diversos cinemas de rua (que estão desaparecendo) e uma quantidade incrível de estudantes de cinema por metro quadrado – com uma população de 40 milhões, há 12 mil alunos matriculados em audiovisual e áreas afins, enquanto no Brasil há seis mil, em 190 milhões de habitantes -, mas padece para emplacar o cinema nacional e alternativo nas salas dominadas pelasmajors norte-americanas. Assim como no Brasil, há horas em que só os festivais salvam.

O BAFICI surgiu em 1999, na esteira do florescimento do Nuevo Cine Argentino – o aparecimento de uma nova geração que iria despertar os cinemas adormecidos do país. Após a brutal ditadura entre 1976 e 1983, a redemocratização retomou de maneira pífia a produção cinematográfica (apesar de alguns grandes sucessos de público), a qual entrou em estado terminal no início dos anos 1990 com o fim de financiamentos públicos e privados e um completo desinteresse do público, de uma maneira muito semelhante ao desmantelamento da Embrafilme no Brasil. Com a criação de leis de incentivo e ajuda governamental a partir de 1994 (da mesma forma que a nossa Retomada), a invasão das escolas de cinema e a facilidade para importar equipamento com a paridade peso-dólar, o Nuevo Cine Argentino seria responsável pelo renascimento da atividade cinematográfica no vizinho. Entre os grandes expoentes doNCA, estão Lucrecia Martel, Daniel Burman, Pablo Trapero e Lisandro Alonso, entre muitos outros. O BAFICI, criado pela Secretaria de Cultura da prefeitura de Buenos Aires em 1999 (hoje ele é organizado pelo Ministério de Cultura da prefeitura), foi outro pilar do NCA. Plataforma de lançamento de filmes essenciais para o desenvolvimento do cinema independente, dava prestígio às produções jovens e vanguardista, constituindo-se em sua principal vitrine para o exterior. A premiação de Mundo grúa, de Pablo Trapero (vencedor nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Ator – Luis Margani, que não era ator profissional), na primeira edição, representou a consagração do NCA, que a partir daí inundou as telas argentinas e virou um selo de qualidade nos festivais internacionais.

Em 1999, o BAFICI programou 150 filmes e teve 120 mil espectadores. No ano passado, houve 422 filmes que levaram 280 mil pessoas às suas salas. Em sua 13ª edição, de 06 a 17 de abril, há 427 filmes (325 longas e 102 curtas), dos quais 101 são argentinos (42 longas e 59 curtas). O BAFICI é hoje um dos mais celebrados festivais do mundo, e não deixou de privilegiar o descobrimento de novos talentos e tendências, tornando-se um importante espaço de encontro e difusão do cinema independente, além de ser fundamental para a produção argentina – na venda antecipada de entradas deste ano, que começou no dia 28 de março, as primeiras exibições esgotadas eram de filmes nacionais, o que se seguiu nos próximos dias, confirmando o interesse do público em prestigiar o cinema local (o que nem sempre é levado a sério) e o papel protagônico do festival ao alcançar essa audiência potencial.

Na generosidade de sua programação, o BAFICI divide-se em numerosas seções: Competição Internacional, Competição Argentina (cujo programa é formado, em sua maioria, por estreias mundiais), Competição de Curtas Argentinos e Competição Cinema do Futuro (que abrange novos realizadores com singularidade de olhares e propostas inovadoras). Há também a Competição UNICEF (que buscam produções que abordam a temática da infância e adolescência), a Competição Direitos Humanos, o Prêmio do Público, da Organización Católica para la Comunicación, da FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos de Cinema), e da Associación de Cronistas Cinematográficos de la Argentina,  as quais contemplam filmes de qualquer seção do festival. Na mostra não-competitiva, está a seção Panorama, com filmes novos de diretores consagrados, os destaques dos festivais internacionais, realizadores desconhecidos no país; enfim, cinema contemporâneo de todo canto do mundo. Há também os focos e retrospectivas, que reúnem produções de grandes mestres ou promessas do cinema, se configurando como oportunidades fabulosas de conferir obras-primas na tela grande, ou mesmo conhecer a trajetória de algum cineasta. Ainda fazem parte do festival o BAFICITO, com programação infantil, e as atividades paralelas, como encontros e conversas com realizadores convidados, críticos, shows de bandas vinculadas aos filmes, e seminários.

O BAL – Buenos Aires Lab, iniciativa do BAFICI em conjunto com a Fundación TyPA – Teoría y Práctica de las Artes, é um espaço dentro do evento que tem por objetivo fomentar o desenvolvimento e produção de cinema independente na América Latina, selecionando projetos em processo de filmagem para entrarem em contato com importantes profissionais do cinema, produtores, distribuidores, cadeias de televisão, fundos de apoio e vendedores internacionais, auxiliando assim encontros que propiciem financiamento para a conclusão dos filmes. O colombiano El vuelco del cangrejo, de Oscar Ruiz Navia (2009), laureado em Berlim e em diversos outros festivais, e o paraguaio Hamaca paraguaya, de Paz Encina (2006), que também colheu prêmios pelo mundo, são exemplos de projetos finalizados através do BAL. Há também outras iniciativas que fomentam o encontro de realizadores nacionais e internacionais para a concreção de ideias e co-produções, como os seminários Industry Office; e o Talent Campus, uma série de oficinas realizadas em parceria com o Festival de Berlim e a FUC – Fundación Universidad del Cine. Essas iniciativas fazem com que o BAFICI expanda seus alcances para além da simples projeção de filmes, transformando-se em um ponto de confluência e vitalidade na produção de cinema independente latino-americano, aspecto um tanto ausente nos grandes festivais brasileiros.

Para o brasileiro que teve a sorte dupla de planejar a viagem Buenos Aires para esses dias – além do BAFICI, há um delicioso início de outono -, não vai dar pra não sentir uma vibração diferente na cidade, que terá suas salas de cinema abarrotadas, e o assunto predominante aqui e acolá vai ser a sétima arte, devido à força do festival no calendário cultural da capital portenha. Aí é só cair no dilema de quais filmes ver. Nos próximos dias, aqui na Revista Beta, vamos acompanhar e discutir alguns destaques da programação – para quem ficou no Brasil, há filmes que estão em cartaz exatamente agora, alguns que em breve podem chegar por aí, outros que demorarão mais um tanto, além de produções completamente novas pra serem descobertas. Afinal, o grande trunfo do BAFICI não é consolar os latino-americanos que ficam chupando o dedo sem acesso aos filmes apresentados nos festivais europeus, mas promover o encontro com as cinematografias da região e com gratas surpresas naquele intervalo despretensioso entre Apichatpong e Herzog.

Clique aqui para ver a programação e tudo o mais sobre o BAFICI.

(Cobertura publicada na Revista Beta. Você pode ver este texto aqui)

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