Revista Brasileiros

Cobertura 13a Mostra de Cinema de Tiradentes – 24 quadros por segundo, 24 horas do dia

A 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi aberta com muita celebração e exibição quase ininterrupta de filmes

25 de janeiro de 2010, de Tiradentes

À tarde, um imenso calor. À noite, fortes chuvas. Entretanto, as intempéries metereológicas não foram nenhum obstáculo para os turistas e amantes da sétima arte que lotam Tiradentes desde o dia 22 para a celebração do cinema nacional, com a 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Nas filas que serpenteiam antes do início de toda e qualquer sessão – que são todas gratuitas -, é possível ouvir sotaques de todos os cantos do Brasil e até perceber rostos estrangeiros, o que confirma o fortalecimento do festival não só nas terras mineiras, corroborando sua importância nacional. O apuro da organização com a estrutura do evento, com os materiais de divulgação e com a liberdade dos convidados – que circulam pelas ruas da cidade e se aproxim do público – por vezes faz-nos duvidar que se trata de uma festa onde absolutamente tudo é gratuito.

Na sexta-feira (21), a abertura da Mostra contou com os discursos de praxe de patrocinadores e organizadores, os quais defenderam o cinema como modificação social e como um patrimônio que precisa de tombamento, além da homenagem ao cineasta cearense Karim Aïnouz, que recebeu um Troféu Barroco (premiação exclusiva da Mostra) das mãos de Lázaro Ramos (que atuou em Madame Satã – 2002 -, primeiro longa do diretor), de Hermila Guedes (atriz de O céu de Suely – 2006) e de Felipe Bragança (roteirista de O céu de Suely).

Mesmo saindo fora do protocolo – o troféu seria entregue pelo pernambucano Marcelo Gomes, cineasta parceiro de Karim em diversos projetos e que devido à chuva forte não chegou a tempo -, a homenagem a Karim continuou com a melodramática (e linda) canção de O céu de Suely, a qual o diretor resgatou dos anos 1970 para emoldurar seu filme, configurando-a como a típica música de amor que faz todo mundo lembrar de “alguma coisa”.

Aliás, a lembrança de uma paixão também foi a tônica de Viajo porque preciso, volto porque te amo, o novo filme de Karim feito em parceria com Marcelo Gomes, cuja pré-estreia se seguiu à cerimônia de abertura. Antes de entrar na sessão, perguntei a Karim como era pra ser assistido seu novo trabalho, fazendo alusão a uma declaração do cineasta na qual ele dizia que O céu de Suely era para ser assistido com o coração cheio de generosidade. “É um filme pra ser assistido pensando num grande amor que a gente teve. Afinal, todo mundo já foi abandonado, não?”, respondeu, depois de um curto silêncio.

Realmente, o longa deixou uma boa porcentagem de plateia com os olhos inchados de choro – muita gente seguiu o conselho do cineasta. Viajo porque preciso, volto porque te amo traz imagens captadas no sertão nordestino entre os anos de 1999 e 2009, que são guiadas – ou guiam, realmente não importa – a narração em off (onde o personagem não aparece) de um geólogo que viaja pela região a trabalho ao mesmo tempo em que busca esquecer um abandono.

Nascidos e criados no litoral nordestino, os cineastas possuíam uma inquietação com relação ao sertão desconhecido, empreendendo um percurso pessoal com imagens documentais e narrativa ficcional. Ao contrário daquele cinema brasileiro que tem uma queda pelo sertão como paisagem rude e intratável, tablado estético para discursos políticos sobre pobreza, Gomes e Karim utilizam essa geografia como campo do íntimo – tônica presente em seus filmes anteriores. Ao fim da exibição, os jornalistas continuavam em polvorosa atrás do homenageado, que ainda destacou a Mostra como uma vitrine principalmente do cinema jovem fora do eixo Rio/SP, destacando seu estado, o Ceará, que participa com diversas produções. Para fechar a noite, o espaço do Cine-Tenda continuou lotado com o show de Lívia Lucas.

No segundo dia de festival, mais Karim Aïnouz. O primeiro debate que abre os encontros entre cineastas, público e crítica abordou o percurso de Karim, que estava na mesa novamente em companhia de Lázaro Ramos, Hermila Guedes, Felipe Bragança, Marcelo Gomes e do mediador, crítico e curador da Mostra, Cléber Eduardo. Em um papo agradável que lotou até o chão das escadas do auditório, mais uma vez Karim falou do tesão de fazer cinema, que para ele é uma forma de estar mais perto do coração, além de uma questão política, fazendo uma crítica sutil ao cinema de entretenimento, o qual ele nomeou “gelol” (só é bom na hora), gerando risos no público, que manteve o bom humor com divertidas histórias dos outros convidados da mesa.

Para as crianças, a programação começou cedo, com o longa O guerreiro Didi e a ninja Lili, e se manteve com um grande público fiel até o fim do dia, na exibição de curtas. Pela tarde, as crianças se juntaram aos adultos no Cortejo da Arte, que percorre o pequeno centro da cidade com música e trupe circense, culminando na praça com a comemoração do aniversário da cidade e manifestação pela preservação e tombamento da Serra de São José, que emoldura as cidades barrocas da região.

Para completar a homenagem a Karim, no fim do dia foram exibidos seus médias-metragem Seams (1993), Sertão de acrílico azul piscina (2004, também em parceria com Gomes) e o curta Paixão nacional (1994). Pela noite, mais pré-estreias lotaram o Cine-Tenda: as sessões começaram com a primeira parceria entre Daniela Thomas e Felipe Hirsch, estrela pop no teatro, debuta na sétima arte – com muita beleza, diga-se de passagem.

Insolação povoou a tela de solidão e de paixões fracassadas, e foi seguido do filme rude e dispensável Cabeça a prêmio, do ator Marco Ricca, também estreante na direção. O esperado Os inquilinos (cujo ótimo site traz várias informações interessantes e o trailer), do sempre provocador Sérgio Bianchi, seria o último filme da noite, mas a plateia ainda contou com a exibição do documentário musical Dzi Croquettes, de Raphael Alvarez e Tatiana Issa.

A exibição de Dzi Croquettes estava marcada para inaugurar o Cine-Praça, a céu aberto. Porém, a chuva não arredou pé e a exibição teve que ser adiada e transferida para o Cine-Tenda, levando cinema noite adentro – e sem cansar o público, que animado ainda enchia a sala de madrugada. Aliás, o entusiasmo da plateia era o grande contentamento dos diretores presentes na apresentação de seus filmes, como Marco Ricca e Sérgio Bianchi, que se empolgaram com a lotação esgotada. E os visitantes de Tiradentes ainda terão que ter muito fôlego: esse foi apenas o primeiro dia regado a cinema.

Visite o site da Mostra e confira a programação.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui)

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