Juliette Revista de Cinema

Play a song for me – O lirismo adolescente de Esmir Filho

Em 1975, foi lançado nos Estados Unidos o Altair 8800, primeiro computador doméstico, que conduziu à fundação da Microsoft. Neste mesmo ano, a Creem Magazine, revista norte-americana dedicada ao rock’n’roll, publicava Let Us Now Praise Famous Death Dwarves (or how I slugged it out with Lou Reed and stayed awake), entrevista bombástica que o crítico musical Lester Bangs fez com Lou Reed e que se tornou um clássico nos anais do jornalismo musical. Na ocasião, ainda faltavam sete anos para o nascimento de Esmir Filho, cineasta paulistano que levaria o cobiçado Troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio 2009 com seu primeiro longa-metragem, Os famosos e os duendes da morte.

Ao invés de Lou Reed – referência presente apenas no nome do filme – há Bob Dylan, e o computador que, mais que doméstico, virou artigo extremamente pessoal. Porém, apesar do grande destaque que o enredo dá à presença da internet no cotidiano hoje, o grande foco do filme pertence às inquietações da adolescência, tema já tateado antes pelo jovem diretor em seus curtas. Dessa vez, Esmir baseia-se no livro homônimo e com pitadas autobiográficas de Ismael Caneppele, que co-roteirizou a película ao lado do diretor e interpretou Julian, um dos principais personagens de Os famosos e os duendes da morte. Ismael declara em todas as entrevistas a necessidade de se comunicar com os adolescentes, e Esmir faz coro ao escritor ao justificar a escolha deste universo devido à paixão pelos rituais de passagem que a adolescência proporciona. Na obra de Esmir – cuja filmografia anterior, premiada diversas vezes (inclusive em Cannes), pode ser vista no site Porta Curtas -, a predileção pelo tratamento onírico da juventude, com imagens que reproduzem ou se ligam às interioridades dos personagens, traz ecos inevitáveis dos filmes de Gus Van Sant, principalmente Paranoid Park (2007), com o qual Os famosos e os duendes da morte irresistivelmente guarda semelhanças.

A rotina insuportavelmente tediosa do menino sem nome, cuja identidade real esconde-se atrás da virtual – Mr. Tambourine Man -, arrasta-se em uma cidade do extremo sul gaúcho, território pouco explorado que causou surpresa no Festival de Locarno (Suíça), onde se estranhou aquele Brasil diferente. O isolamento das colônias alemãs da região, que impulsiona uma história de fugas de um mundo fechado, encontra na imensidão da internet uma de suas saídas – a outra poderia ser a morte, já que um dos mais altos índices de suicídios do mundo encontra-se ali (e isso não é ficção). Os dilemas adolescentes, mesclados a uma sensação de não-pertencimento ao mundo e às angústias diante do absurdo e da solidão da existência, cruzam-se através da rede, onipresença absoluta no dia-a-dia da geração pós-coca-cola nascida no estouro da globalização. Na web, o menino sem nome encontra-se com a menina sem pernas, com a qual ele se identifica. A partir daí, o menino viaja em uma vida paralela em companhia da menina, trazendo um mistério que se revela em doses homeopáticas durante a trama e que faz do poder da sugestão e do fantástico os grandes trunfos do filme, que às vezes tropeça em um apuro visual excessivo (o qual possui também méritos incontestáveis, como a contemplação do tempo promovida por alguns planos) que atravanca o desenvolvimento dos personagens ou ofusca boas situações.

O herói ordinário e trágico, cuja solidão na imensa tela de cinema exacerba-se com os espaços vazios do cinemascope – que constantemente separam o personagem do ambiente -, é apanhado com letargia e sensualidade, sendo suas inquietações internas exploradas com o cuidado de quem observa um microcosmo antes de filmar – e dessa maneira Esmir segue o estilo de seus curtas ao apostar no lirismo das experiências ilimitadas e constantes que povoam o mundo adolescente. Aqui se liga também a preocupação com a sensorialidade, e Esmir chama a atenção sobre a necessidade de sentir o que o personagem sente, já que o filme é visto pelos seus olhos e desfrutado a partir de sua subjetividade. Assim, desprende-se da tela a fumaça densa do baseado, a neblina antes da hora da aula, o frio por fora das toucas e cachecóis e casacos, o sufoco dos constantes interiores e escuros, e o desejo sutil pelo corpo fragmentado – e muitas vezes de costas – que é percorrido ora mais distante, ora mais próximo, pela câmera.

Assim como Mr. Tambourine Man, o filme estende-se ao espaço virtual, onde se encontra o mundo de Jingle Jangle, a menina sem pernas interpretada por Tuane Eggers, autora das fotos e dos vídeos de sua personagem. Antes de ser Jingle Jangle Tuane já possuía sua vida na rede, e assim foi descoberta por Esmir, que escolheu os participantes do filme – todos da região onde se desenrola a história de Caneppele (e na qual o diretor passou alguns meses) – através dos retratos que eles faziam do mundo pela internet. Nelo Johann, que fez a música, é mais um jovem que nasceu na cidade onde o filme é ambientado. Aos 25 anos, ele tem 150 músicas em 12 cds, todos gravados em seu próprio computador, e que podem ser baixados gratuitamente. A trilha sonora de Nelo Johann foi ouvida por Esmir durante todo o desenvolvimento do roteiro, contribuindo na concepção da atmosfera sombria e deprimida do filme. Segundo o cineasta, além dessas canções trazerem a voz interior do menino, elas trazem a voz de toda essa geração que navega na web.

A voz de Nelo Johann, o silêncio e o desalento de Mr. Tambourine Man, a tragédia e a imortalidade de Jingle Jangle, o magnetismo e o mistério de Julian, a desolação do distante interior, a proximidade e a distância do mundo virtual e a ternura e a melancolia de Os famosos e os duendes da morte deparam-se com a voz de Bob Dylan, cujos versos encontram toda a angústia e a ansiedade esboçadas pelos conflitos adolescentes: “Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I’m not sleepy and there ain’t no place I’m goin’ to. (…) And the ancient empty street’s too dead for dreaming” (Hey, Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção pra mim. Não estou dormindo e não há lugar onde eu possa ir. (…) E a velha rua vazia está muito morta para sonhar).

Pequena pílula

Além de ganhador do troféu Redentor como Melhor Longa-Metragem de Ficção e do Prêmio FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos de Cinema) no Festival do Rio 2009, Os famosos e os duendes da morte ainda foi galardoado com o prêmio de Melhor Direção no 16º Festival Internacional de Cine de Valdivia (Chile) e participou da seleção oficial pelo Leopardo de Ouro no Festival de Locarno (Suíça), onde estreou, e da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O próximo passo, segundo a produtora Sara Silveira, é figurar no Festival de Berlim, em fevereiro.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema em fevereiro/2010)

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