Revista Aimé

Para comer com os olhos

O cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007) dizia que sexo e fome são a mesma coisa: ambos impulsionam a humanidade e são canalizadores de sensações prazerosas. O cinema, arte de Bergman, é um prato cheio para a gastronomia e para o amor carnal; espaço onde os dois mais deliciosos pecados capitais têm lugar privilegiado.

Mais que privilegiado, a gastronomia já tem seu espaço reservado na sétima arte. Por exemplo, em Amor à flor da pele (2000), do diretor chinês Wong Kar-Wai, toda a paixão da trama desenrola-se delicadamente entre os noodles buscados na esquina. No italiano A comilança (1973), de Marco Ferreri, quatro amigos propõem suicidar-se de maneira pouco usual: comendo até a morte. Em Delicatessen (1991), os franceses Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet trazem uma comédia futurista na qual os alimentos tornaram-se moeda corrente devido à sua escassez. O cinema é um ambiente notável para a gastronomia, e daria para montar um cardápio farto com filmes que dão água na boca – tem para todos os gostos. Até o Festival de Berlim, um dos maiores festivais de cinema do mundo, dedica, desde 2006, uma programação especial que envolve a sétima arte e a gastronomia.

Além de o cinema ir à mesa e levar filmes que revelam o poder da comida – como em Chocolate (2000), onde a belíssima Juliette Binoche prepara fascinantes chocolates que alteram as posturas e humores dos personagens, há ainda as películas que trazem como ingrediente primordial a saborosa arte de cozinhar. Afinal, como af

irma a chef Eliane Carvalho, proprietária do paulistano Babette Restaurante, o cinema e a gastronomia são formas idênticas de manifestação da arte, e os filmes refletem o impacto que o ato de cozinhar causa na vida das pessoas. “Quem gosta de culinária, ao assistir tais filmes pode aprender alguma coisa sobre o ato de cozinhar. Alguns filmes dão uma base, mostrando detalhes que podem desvendar o segredo de uma receita”, explica. No caso de Eliane, não é difícil perceber qual é o impacto do cinema em sua vida. Tão marcada pela história da personagem Babette, ela homenageou-a ao batizar seu restaurante com o mesmo nome.

A Festa de Babette (Gabriel Axel, 1987), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988, não é marcante apenas para Eliane, e é sempre destaque quando o assunto é gastronomia no cinema. Para Aires Scavone, consultor e chef de cozinha há mais de 35 anos, “A festa de Babette foi um marco no Brasil, que despontava para o nascimento dos gourmets”. A história também é marcante para a chef Ariela Doctors, proprietária do restaurante Tanger, na capital paulista. “O prazer em cozinhar salta para fora das telas e a mise en place é de dar água na boca!”, diz ela. Babette é uma criada francesa, fugida da Comuna de Paris, de duas velhas irmãs solteiras e recatadas que vivem na gélida costa dinamarquesa ajudando aos pobres. Após anos trabalhando para as irmãs, Babette tem a oportunidade de voltar à França ao ser premiada com um bilhete de loteria. Porém, ela prefere gastar todo o dinheiro oferecendo um legítimo jantar francês para as irmãs e a pequena comunidade de paladar rude, que acreditava que o lauto banquete seria um ritual de feitiçaria. E era mesmo. Babette, que havia cozinhado em um dos maiores restaurantes parisienses, sutilmente desinibe o espírito desconfiado e conquista os habitantes da remota aldeia. A rústica cozinha do século XIX onde Babette prepara suas delícias com o requinte de uma apaixonada, a mesa posta belamente e, mais uma vez, o endurecimento que dá lugar à alegria, proporcionada pelo alimento, só podiam fazer parte de alguma magia.

Magia, aliás, é uma boa palavra para descrever o que os temperos faziam na comida e nas pessoas no filme O tempero da vida (Tassos Boulmetis, 2003), que mescla as fascinantes culinárias grega e turca ao entrelaçar-se na história de Fanis Iakovidis, o qual conta sua vida enquanto espera a visita de seu avô e mentor, o qual desenvolveu sua própria filosofia culinária – que é, aliás, apaixonante. No início da película, é encantador acompanhar as aventuras de Fanis enquanto criança na loja de temperos do avô, onde se aprendia, por exemplo, que a canela faz as pessoas olharem-se nos olhos, enquanto o cominho as deixa introspectivas, e que a pimenta é como o Sol (acompanha tudo). Eliane não aprova a dica: “Todos os temperos têm seu lugar de destaque numa receita. Mesmo a pimenta verde seca, aquela que usamos no moedor, não acompanha todos os pratos. Concordo que as pimentas estão presentes em todas as culinárias, brasileira, francesa, italiana, indiana… Mas não acompanham tudo”. Ariela fica com o pé atrás com o conselh

o: “Creio que cada cozinheiro tem seu método e paladar. Portanto, não podemos tomar um ensinamento como uma verdade absoluta (seja no cinema ou na vida real). A pimenta, pode tanto agregar sabor a um prato, como também destruir alguns sabores extremamente delicados”. Já Aires concorda com o avô de Fanis: “A pimenta serve para apimentar, aromatizar, podendo ser utilizada tanto em pratos doces como em pratos salgados”. Porém, Aires acha difícil aprender algo mais concreto com os filmes: “Penso que a relação do cinema com a gastronomia existe porque a gastronomia é um meio de expressar diferentes culturas, povos, personalidades, além de falar de poder e política. No cinema ela é um recurso como o figurino, a música, a fotografia. Sem falar que cinema sem pipoca é chato! Na cozinha, os filmes inspiram, instigam, mas para aprender  é necessário muito mais. Digamos que os filmes servem de disparador para se buscar o aprendizado ou aperfeiçoamento. Em muitos filmes é possível  repetir receitas – mas, somente se você já

possui algum conhecimento prévio”. Neste ponto, Ariela tem a mesma opinião de Aires. “As pessoas podem colocar em prática alguma receita executada em um filme. Entretanto, aprender com o cinema, eu não sei; mas com certeza aguçar a curiosidade de alguém que gosta de cozinhar e aumentar o desejo pelo saber culinário, não há dúvidas”.

 Há ainda uma lista infinita de filmes para experimentar, exercitar os dons culinários e passar vontade. Alimento para a alma, o cinema abocanha a gastronomia em uma mistura fina que envolve as duas artes para satisfazer paladares dos mais variados: de gourmets a cinéfilos. Delícia a 24 quadros por segundo.

(Publicado no blog da Revista Aimé em agosto/2009. O blog já saiu do ar)

 

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