Juliette Revista de Cinema

Memórias, crônicas e declarações de amor

Na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, antes de entrar na sala para a exibição de Viajo porque preciso, volto porque te amo, Karim Aïnouz, diretor do filme em parceria com Marcelo Gomes (de Cinema, aspirinas e urubus – 2005) e homenageado pelo festival, era assediado pelos jornalistas com aquelas perguntinhas costumeiras sobre inspiração. Eu já me apaixonara por Karim devido a seus filmes anteriores, Madame Satã (2002), explosão de raiva e desejo que revelou Lázaro Ramos e o cineasta, e O céu de Suely (2006), que trouxe o rosto bonito e quadrado de Hermila Guedes para o doce desassossego de Suely. Inegavelmente um dos grandes cineastas brasileiros da década que acaba de terminar – e com certeza da que acaba de começar -, Karim ficou ainda mais próximo de mim depois daquela olhada no Google, onde ele reitera em diversas entrevistas que, para ele, fazer cinema é uma forma de estar mais perto do coração, buscando o afeto e afetar o outro. Para ele, cinema de verdade não é aquele que explica, mas aquele que emociona, que arrepia, que dá vontade de dançar, que dá tesão. Nada de cinema psicologizante, pois as pessoas são o que elas fazem e sempre têm algo de inesperado – ninguém sabe explicar o outro. Karim interessa-se em fazer histórias sobre pessoas que ele gostaria de ter conhecido, ou de imaginar casos cujo final ele gostaria que fosse diferente – o cineasta adora gente, e não é nada pessimista em relação ao ser humano. Aïnouz havia dito em uma entrevista que O céu de Suely era um filme para ser visto com o coração cheio de generosidade. “E agora, Karim, eu vou entrar na sala e devo ver o Viajo como?”, perguntei inocentemente, recebendo de Karim algo tão simples e tão grande que só poderia ter vindo dele mesmo, e que na sua suavidade caiu como uma tonelada no meu coração recentemente estilhaçado: “É para ser visto pensando num grande amor que a gente teve, e que foi embora… Afinal, todo mundo já foi abandonado, né?”. Tive que agradecer às pressas e sair correndo antes de desabar na frente dele.

Viajo já me agradava pela sinopse – José Renato, geólogo de 35 anos, faz uma viagem a trabalho pelo nordeste para estudar as condições de transposição de um rio enquanto tenta esquecer a mulher que o deixou -, e eu tinha certeza que me emocionaria pra lá da conta. Mas fui correr o risco, e já entrei na tenda de Tiradentes – que não possui sala de cinema mesmo acolhendo um dos maiores festivais do país, que neste ano está na 13ª edição – em lágrimas, que se prolongaram por toda a hora e quinze de projeção. Mesmo aguardadíssimo e com um currículo extremamente satisfatório na sua precoce carreira, que conta apresentação no prestigiado Festival de Veneza e prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio, o filme não agradou a todos, só que muitos saíram da sala apaixonados ou com aqueles olhos inchados. Assim como Insolação (aqui, se der, acho que pode colocar o link pra crítica do Insolação), Viajo é uma experiência maravilhosa, mas para aqueles que estão dispostos a vivê-la. E eu, que viajava buscando esquecer um amor desfeito, claramente estava.

Viajo foi um filme feito ao contrário. Karim, cearense, e Marcelo, pernambucano, nordestinos nascidos no litoral, tinham o sertão da onde vieram seus avós como algo mítico e desconhecido, o que lhes trazia certa inquietação. Assim, entre 1999 e 2009, os diretores empreenderam uma viagem por este sertão colhendo imagens, que reuniram no curta-metragem Sertão de acrílico azul piscina (2004). Porém, o farto material merecia mais e ficou guardado por anos, enquanto os diretores investiam em seus primeiros longas-metragem. De volta às imagens com o intuito inicial de fazer um documentário, Karim e Marcelo perceberam que apenas uma ficção daria conta de expressar a travessia emocional e de transformação que os cineastas haviam feito. Assim, Viajo é um amontoado de imagens documentais guiadas pela voz do protagonista, que nunca aparece em cena – é um corpo ao mesmo tempo ausente e presente. Para Karim, não é preciso ver o geólogo para identificar-se com ele, e sua história permite que o público mergulhe numa reflexão de suas próprias memórias, apostando mais uma vez numa universalidade que se centra no que acontece na cabeça e no coração das pessoas – mesmo que o cenário seja importante fator para isso em Viajo, já que José Renato penetra no vazio do sertão enquanto reconhece seu próprio vazio, com um olhar que vai de dentro pra fora. Ao contrário daquele cinema brasileiro que tem uma queda pelo sertão como paisagem rude e intratável, tablado estético para discursos políticos sobre pobreza, Gomes e Karim utilizam essa geografia como campo do íntimo – tônica presente em seus filmes anteriores (principalmente em O céu de Suely, onde a moleza do espaço torna-se o tempo do filme). Mesmo absorto em seus sentimentos, em suas conversas imaginárias com a amada Joana e em questões filosóficas como a que discorre sobre o infinito, José Renato constrói uma ponte com o ambiente exterior a partir do momento em que se dá conta de que o que encontra é tão complexo quanto si mesmo – mesmo sentimento encarado pelos diretores, que encontraram o sentido de suas buscas ao se depararem com o isolamento de uma família em meio à vastidão da caatinga, onde uma menina lia e relia Dom Casmurro por não ter mais nada para fazer e um garoto pedalava por duas horas diariamente para poder assistir à novela das oito em um vilarejo vizinho.

Apesar do alumbramento proporcionado pela questão do isolamento, o deslocamento dos corpos e da subjetividade ocupa o centro de Viajo, e também das outras produções de ambos os cineastas, nas quais a deambulação e a partida representam a melhor maneira de se encontrar. Karim e Marcelo queriam que o filme causasse uma constante sensação de pertencimento e não-pertencimento, que é trazida através da revelação de uma espécie de diário de viagem num fluxo de pensamento, o qual expõe a intimidade, as dúvidas, a desolação e, principalmente, a vulnerabilidade à flor da pele neste tour existencial.

As imagens fragmentadas, efêmeras e instáveis foram capturadas em diversos formatos: desde o Super 8 até o digital, passando pelo 35 e 16 mm, snapshots, numa variedade de maneiras para representação do mundo. Descrito pelos diretores como um ensaio cinematográfico, e considerado como o verdadeiro debut de ambos, já que se caracterizou mais como um terreno de pesquisa do que como um objeto onde se queria chegar, Viajo foi um exercício de liberdade no qual se privilegiou o frescor do erro – e sobretudo da errância.   A errância de Karim e Marcelo me lembrou Chris Marker e seu Sans Soleil (1983), um quebra-cabeça de imagens conduzido por uma narração ficcional. Nele, um viajante compartilha suas memórias com uma amiga com quem se corresponde, a qual costura e constrói impressões através das imagens registradas por ele. Segundo o viajante, os critérios para filmar relacionam-se à mania de listas de uma escritora e dama da corte do século X, no Japão, chamada Sei Shonagon, autora de um dos clássicos da literatura japonesa, o Makura no Sôshi (Livro de cabeceira). Dentre as várias listas encontrava-se uma relação de coisas que fazem o coração bater, e este é o critério escolhido pelo homem ao eleger as imagens a serem captadas. Da mesma maneira, imagino que foi este o critério considerado por Karim e Marcelo nesta viagem emocional que penetra nas dores e delícias que o amor proporciona – neste caso, mais dor, o que é confirmado por uma frase de José Renato que inverte o título do filme (citação retirada de uma placa num bar em beira de estrada), transformando-o em algo triste, porém ainda mais sublime: “Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo”.

Não há coisa que faça o coração bater mais que o fim da paixão – nem o começo. Afinal, quem nunca foi abandonado, né?

(Publicado na Juliette Revista de Cinema em fevereiro/2010)

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Discussão

2 comentários sobre “Memórias, crônicas e declarações de amor

  1. Parabéns, foi a melhor crítica que li sobre este filme.

    Publicado por André Alves | 29/10/2011, 6:29

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