Juliette Revista de Cinema

Imagens partidas – Sobre Abraços partidos, de Pedro Almodóvar

Em Viagem à Itália (1954), de Roberto Rosselini, Katherine e Alex (em meio a uma turbulenta crise conjugal) visitam algumas escavações em Pompeia, cidade arrasada pelas lavas do Vesúvio há dois mil anos. Enquanto percorrem o sítio arqueológico, é descoberto um casal enterrado e imortalizado pela tragédia de séculos atrás. O achado emociona Katherine, vivida por Ingrid Bergman, e também emociona a Lena, personagem de Penélope Cruz, que assiste ao clássico italiano enquanto refugia-se com seu amado Mateo Blanco (Lluís Homar) na cidade espanhola de Lanzarote. Diante da reação das duas mulheres, Mateo pega a câmera e o fotografa junto à Lena, em um abraço, para que essa imagem os eternize como as lavas de um vulcão. Como quando Jeanne Moreau vê os retratos nos quais está abraçada a seu amante, logo depois da revelação de seu crime, em Ascensor para o cadafalso (1958, Louis Malle). A voz off de Moreau fala desses abraços fotografados como algo eterno, algo que nada poderá romper e permanecerá para sempre – como o embalsamamento pelas lavas. Segundo Pedro Almodóvar, é desse tipo de abraço que se fala em seu novo filme, Abraços partidos, onde se encontram e desencontram Lena e Mateo.

Mais uma vez, Pedro Almodóvar relata avassaladoras relações amorosas em um melodrama com pitadas de thriller e intersecções de comédias, flertando com os sentidos através de uma primorosa direção de arte e impecável direção de fotografia – além de vermelho, muito vermelho, habitué dos cenários almodovarianos. A metalinguagem que traz o cinema para suas tramas ocupa aqui grande papel, sendo as paixões intensas e turbulentas divididas com a paixão pela sétima arte e pelas imagens.

Almodóvar descreveu seu 17º filme como um canto de amor ao cinema. Além dos inúmeros intertextos e autocitações, o modo como o espanhol filmou sua musa Penélope Cruz (que sucede a Carmen Maura e a Victoria Abril no panteão do diretor) revela o arrebatamento que as imagens lhe causam. A morte da personagem de Penélope, concomitante à cegueira que acomete o protagonista (um cineasta), traduz a tragédia em viver sem ver à sua imagem ideal. Penélope Cruz traz uma beleza desmedida, que faz prenunciar seu destino trágico comum às beldades extenuantes, as quais estão condenadas à fatalidade devido ao fato de tornarem-se um foco de obsessão. A atriz desdobra-se em outras deusas da tela grande, endossando ainda mais o caráter etéreo de sua estampa na película: da suprassensual Marilyn Monroe – cuja encarnação inocente deixa Penélope irresistível como nunca – à sublime Audrey Hepburn.

A história de Mateo Blanco, o cineasta que se torna Harry Caine e roteirista após ficar cego, é desfiada por ele em um vai-e-vem temporal típico de Almodóvar. O pontapé da trama dá-se com a morte de Ernesto Martel (José Luis Gómez), importante empresário que teve participação determinante no destino de Mateo/Harry, que tateia acontecimentos passados há 14 anos. Lena, a voluptuosa secretária de Martel que se converte em sua amante, tem o sonho de ser atriz, entrando assim na vida do cineasta que tinha em andamento sua primeira comédia, Chicas y Maletas. O destino tratou com que a comédia de Mateo se transformasse no maior drama de sua vida: o desmedido amor vivido por ele e Lena e o ciúme e poder de Martel (que, além de obcecado pela amante, financiava Chicas y Maletas) levam a uma tragédia. Mais uma vez, Almodóvar investiga temas como a mágoa, a perda, a fatalidade e a culpa. Entretanto, Abraços partidos não é tão provocador e transgressivo quanto Volver (2006), sua produção anterior que trazia Penélope Cruz como protagonista. Mais melancólico, Abraços partidos incorpora uma declaração de Almodóvar, típico criador de heroínas intensas, de que os homens levam-no a pensar em coisas mais trágicas, enquanto as mulheres lhe dá ideias mais tranquilas e, por vezes, cômicas. Mateo/Harry, que protagoniza Abraços partidos, e Martel, seu inimigo, são homens destruídos pela ruína provocada por uma mulher a qual durante todo o filme é impossível adivinhar-lhe as intenções e os sentimentos – uma coadjuvante que não sai do centro de todos os acontecimentos, que permanece como uma figura vaga, uma personagem e uma pessoa de presença ao mesmo tempo vazia e notável.

Pivô das reviravoltas na vida dos dois homens, a curiosa Lena protagoniza Chicas y Maletas, um dos filmes dentro do filme, no qual ela é uma mulher que sofre de maneira desmesurada com o abandono de seu marido. Com inspiração absoluta em Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), sétimo longa de Almodóvar e que o projetou para o mundo e para o hall dos melhores diretores espanhóis ao lado de Carlos Saura e Luis Buñuel, Chicas y Maletas ainda originou um curta-metragem, o qual parte de uma personagem que aparece poucos minutos no longa. Produzido como maneira de distrair-se em meio às filmagens de Abraços partidos, o curta La consejala antropófaga resgata a estética extravagante e a temática picante do Almodóvar dos anos 80. No filmete – que está no youtube -, uma vereadora defende a ideologia do prazer como bem social, discute as funções sociais do sexo e discursa sobre suas taras.

Além do curta, Almodóvar também criou um blog enquanto realizava Abraços partidos, com fotografias de todo o processo e textos sobre o filme e a experiência de relatar a filmagem. A presença inexorável que o cinema teria nesta nova obra está expressa no blog, através das inúmeras declarações de amor que o diretor faz à sétima arte e na pesada influência que outros filmes exerceram em seu processo de criação, como Mortalmente perigosa (1950, Joseph Lewis), A noite (1961, Michelangelo Antonioni) e Oito e meio (1963, Federico Fellini). Almodóvar esclarece que não quis expressar a atmosfera desses filmes em seu novo longa, os quais apenas vieram espontaneamente à sua cabeça no momento da escrita. Para ele, as referências possuem lugar marcante pois ele gosta de contar os fatos através de outras formas de representação – e porque o cinema o inspira mais que a própria vida. Segundo ele, os cineastas, figuras recorrentes em suas películas, não pretendem ser autobiográficos – apesar de trazerem alguns traços do espanhol -, e sim trabalhar o estreito laço entre a arte e a vida real.

Mateo, vida real, e Lena, imagem divina, não terminaram juntos como o casal de Pompeia, e as suas fotografias rasgadas impossibilitam a eternidade que conservou Jeanne Moreau e seu par romântico no filme de Louis Malle. E é desse tipo de ruptura que se fala no novo filme de Almodóvar, cuja maior representação são as imagens partidas.

Pequena pílula:

 A foto da Praia do Golfo, em Lanzarote, na qual Mateo descobre um casal abraçando-se em frente ao mar apenas depois de tê-la revelado, é uma foto tirada por Pedro Almodóvar há nove anos. O diretor também só descobriu o abraço após a revelação do negativo.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema número 13 – novembro/2009 e reproduzido no site da Juliette)

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