Juliette Revista de Cinema

Febre – sobre “Insolação”, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas

Não faltaram contradições ao se abordar o debut no cinema do bamba dos palcos Felipe Hirsch em parceria com Daniela Thomas, companheira habitual de Walter Salles na sétima arte mas velha comparsa de Hirsch no teatro como cenógrafa. Cult demais, disseram alguns, o filme proporciona um distanciamento do espectador, causando uma frieza contrária ao que sugere seu cálido título, Insolação. Entretanto, Insolação não se dirige a qualquer um – não no sentido intelectualoide da coisa, mas no sentido íntimo mesmo: há de estar, talvez, de uma certa maneira, com a febre que sentem os personagens, a qual é tomada como um sintoma de insolação como metáfora ao calor causado pelo início da paixão. Porém, como disseram Hirsch e Thomas, essa é uma história não só sobre amor, mas “sobre amor e perdas. Perdas, principalmente”, na qual se aborda sobretudo o fracasso de buscas utópicas: em seu centro e convergindo para ele, o tal amor. Assim, o ardor que é tomado como o nascimento de um sentimento pode ser, na verdade, apenas prognóstico de sua morte prematura.

Com (o indescritível) Paulo José no papel que une todos os outros personagens, cujas histórias foram baseadas em contos russos do século XIX, Insolação traz a matriz literária fortemente impregnada nos diálogos que, com um tom que não se decide entre a naturalização ou a forte estilização – o que pode parecer estranho num primeiro momento, mas que depois se encaixa bem na mise en scène, que parece buscar uma artificialidade pretendida, algo teatral mesmo, principalmente nas recitações de Paulo José que, além de unir as narrações individuais, parece conduzi-las, como se todas as pessoas que ali se reúnem fossem seus personagens seguindo a palavra “tristeza”, escrita por ele nos primeiros planos do filme (e já contornando o que está por vir). Essa teatralidade não resulta de uma ingenuidade dos diretores que migraram de seu habitat natural para a tela grande, pois vislumbra-se o domínio dos artifícios cinematográficos, mesmo que o resultado final seja hermético – e provoque as reações tão avessas que têm provocado.

É praticamente impossível fazer uma sinopse dos “esquetes” que dão corpo ao filme, devido à complexidade que as paixões (principalmente as que não se concretizam, como é o caso aqui) sempre trazem consigo. Seria incrivelmente diminuto, por exemplo, citar o garotinho (ou rapaz) que se apaixona pela amante do pai – como falar disso sem descrever a cena tão doce onde ele lê a mão da moça prevendo o futuro que ele deseja? O mais palpável a se dizer sobre um personagem refere-se a discorrer sobre Brasília, cenário que é quiçá o protagonista do filme, e que também representa uma utopia fracassada no olhar dos diretores. Ressaltando a solidão das pessoas, que sempre aparecem sozinhas no quadro, a arquitetura dura e seca da capital realça o gélido em meio a tanto calor nos longos planos de câmera parada, nos quais os personagens transitam diminutos como que salientando a inquietude interior. Quando a câmera não está colada aos personagens, sentindo a respiração dos mesmos e as suas nucas suadas, ela quase os engole pela grandiosidade do espaço dos planos gerais.

A nuca, constantemente presente, lugar de exacerbada sensualidade, a pele marcada e as roupas desalinhadas e empapadas de suor ou chuva fazem com que o corpo, também, tenha um grande papel em Insolação. Afinal, o que abate os personagens é um mal físico. Apesar da dissolução emocional em que se centra o filme, tudo é indubitavelmente corpóreo e está longe do etéreo. A vagação (e a divagação) pela paisagem que, asséptica, por vezes cede lugar a entulhos, demonstra como que fisicamente a ruína emocional das pessoas.

Assim, é dessa maneira que os sentidos devem estar abertos para Insolação. Os sentidos em todos os sentidos – material e sentimental. Experimentar a fraqueza – material e sentimental – que recai sobre os personagens, naquele silêncio solitário da onde emerge o piano ou o violino, naqueles enquadramentos rigorosos em ambientes impiedosos e vazios, é a boa experiência de Insolação. Com uma influência russa que vai além da literatura (é possível sentir aquele sopro de Tarkovski e de Sokurov) e sem se encaixar (poético? Experimental?) ou se parecer com qualquer coisa do cinema brasileiro de hoje (muito menos com Walter Salles), a parceria Hirsch-Thomas trata do mais banal de todos os assuntos de todas as artes de todos os tempos: o amor, ou a ausência dele. Porém, mesmo de forma fria, conseguiram causar febre – para o bem ou para o mal.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema em fevereiro/2010)

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