Juliette Revista de Cinema

Dorothy no país das maravilhas

Dorothy, assustada, abre a porta após a aterrissagem de sua casa ao fim do tornado, descortinando-se um brilhante mundo em technicolor. Não era a primeira vez que a tela grande enchia-se de cores – entretanto, o travelling mágico que explora as reluzentes flores de plástico e depois se volta para a menina de boca e bochechas insistentemente vermelhas tornou-se célebre nos primórdios da sétima arte colorida.

Entre a inocência da era de ouro do cinema hollywoodiano e a explosão da Segunda Guerra Mundial, nascia o filme que, segundo o American Film Institute, se tornou o décimo maior clássico norte-americano de todos os tempos: a saga de Dorothy Gale na terra de Oz. Baseada no livro O mágico de Oz (1900), de L. Frank Baum, o filme homônimo chega ao seu 70º aniversário como um dos imperecíveis contos de fadas que suspendem a lógica e a causalidade para mergulharem no tempo da fantasia. A exuberância das cores, grande novidade das imagens em movimento no fim dos anos 1930 – e que transformou a ensolarada estrada que guia Dorothy em amarela (ela havia sido planejada para ser verde) e os sapatinhos originalmente pratas em cintilantes calçados de púrpuro rubi -, desfila durante as aventuras da graciosa e decidida garotinha, que parte em uma jornada interior e exterior no terreno do maravilhoso, onde se encontra com inúmeras peripécias e provações. Aliás, não foi só Dorothy que enfrentou numerosos problemas em Oz – a produção do filme também resistiu a incontáveis obstáculos durante sua filmagem.

O Mágico de Oz contabilizou quatro diretores em seus anais: Richard Thorpe, que ocupou a função por apenas doze dias, e não teve nenhuma de suas cenas aproveitadas na versão final, já que seu substituto George Cukor mudou todo o figurino de Dorothy em apenas três dias de trabalho, o qual abandonou para assumir a direção de … E o vento levou. Victor Fleming, o único que possui seu nome nos créditos, dedicou-se ao filme por quatro meses, quando foi chamado para substituir Cukor mais uma vez: agora em … E o vento levou. King Vidor ficou responsável pela finalização e pelas cenas em preto e branco que abrem e fecham a película. O filme sofreu também com conturbadas mudanças no elenco, a começar pela protagonista Dorothy, vivida por Judy Garland. A ideia inicial era dar o papel para a queridinha precoce Shirley Temple que, sob contrato com outro grande estúdio, permitiu que Garland se imortalizasse na personagem e firmasse seu nome no céu estrelado de Hollywood. Apesar do pouco tempoem que Cukor ocupou a cadeira de diretor do filme, sua contribuição foi valiosa ao formatar o estilo da heroína forte trazida por Garland, a qual havia sido instruída por ele a buscar sua própria maneira de interpretar e não copiar os modos de Temple, como os produtores desejaram inicialmente.

Margareth Hamilton substituiu Gale Sandergaard como a Bruxa Má do Oeste. Gale, a primeira cotada para o papel, desistiu de sua personagem após a mudança do visual da vilã, que não seria sedutora e glamourosa como imaginado originalmente, e sim mais uma clássica bruxa velha e feia. Os candidatos a Homem de Lata tiveram trajetórias tumultuadas: Ray Bolger, escalado no começo das filmagens para viver o homem em busca de um coração, trocou de papel com o colega Buddy Ebsen e passou a encarnar o Espantalho devido à alergia provocada pela maquiagem prateada. Buddy Ebsen, entretanto, teve menos sorte que Bolger e quase passou desta para uma melhor devido a uma intoxicação pelo pó prata. Somente Jack Haley teve coração suficiente para aguentar o letal make up do personagem.

Apesar dos contratempos, a trama, que já havia nascido como mega produção – foram pagos 75 mil dólares pelos direitos do livro de Baum, quantia recorde na época –, seguiu com seus encantados excessos: a busca de Dorothy por si mesma e pelo mundo foi rodada em 70 sets e contou com 150 pintores que coloriam os cenários – como uma verdadeira fábula, nada era real em O mágico de Oz. Indicado em diversas categorias no Oscar de 1940, a obra perdeu o prêmio de Melhor Filme para … E o vento levou, mas arrebatou a estatueta de Melhor Trilha Sonora com as composições que pontuam as gags e os percalços dos personagens por quase toda a extensão do filme, também galardoado com a Melhor Canção Original por Over the rainbow, que se imortalizou não só na voz de Garland, mas também nas inúmeras versões esparramadas ao redor do mundo.

Assim, a viagem de Dorothy, que parte de uma situação mundana um tanto problemática para arremessar-se em situações fantásticas que se desdobram em acontecimentos simbólicos – roteiro típico de histórias infantis -, alcança a terceira idade arrebatando público e prestígio inegáveis e irresistíveis. Com seu universo recheado de maravilhas e mágicas, o filme trilhou com primazia alguma estrada de tijolos amarelos que o conduziu a uma vivacidade sobrevivente ao tempo.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema número 12 – outubro/2009 e no site da Juliette)

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