Juliette Revista de Cinema

De armas e garotas – e assim se criou a Nouvelle Vague

Em 1934, Georges Franju, que sonhava em ser cineasta, conheceu Henry Langlois, também amante do cinema – porém, este amor se denunciava não produzindo filmes, mas preservando-os: Langlois comprava clássicos desprezados do cinema mudo, os quais foram sendo armazenados em sua banheira, até que sua amizade com Franju virou uma sociedade cujo resultado foi a Cinemateca Francesa (hoje, o mais amplo acervo cinematográfico do mundo), aberta em 1936, e que desempenhou papel fundamental na formação de gerações arrebatadas pela sétima arte.

Em 1949, o aspirante a delinquente François Truffaut, o estudante de etnologia criado na Suíça Jean-Luc Godard, o professor de francês e literatura Jean-Marie Maurice Schérer (vulgo Eric Rohmer), o estudante de farmacologia e ex-projecionista de um cineclube de garagem Claude Chabrol e Jacques Rivette (do qual não se tem notícias de sua vida antes dessa data) conheceram-se no Festival de Cinema Maldito de Biarritz. Em comum, a paixão pelo cinema, o enorme tempo que flanavam pelas salas parisienses e perambulavam pela Cinemateca Francesa, além da admiração pelos filmes de Hitchcock, Fritz Lang, Jean Renoir, Jean Vigo, Roberto Rosselini, Robert Bresson e Ingmar Bergman. Poucos anos depois, o grupo juntou-se sob as asas do crítico e teórico André Bazin, criador, juntamente com Jacques Doniol-Valcroze, da mais mítica revista de cinema da França, a Cahiers Du Cinéma, na qual os jovens iriam escrever e polemizar durante as décadas de 50 e 60.

Devido ao teor violento de suas críticas – as quais defendiam um cinema mais pessoal e menos esquemático, negavam ferozmente os filmes produzidos na França do período (salvo raras exceções), e focavam o cinema americano como lugar privilegiado para a busca de autores -, o grupo recebeu o apelido de “jovens turcos”, e Bazin tornou-se um coadjuvante em meio a seus pupilos. O ápice dos debates na revista de capa amarela deu-se com um artigo de Truffaut de 1954, “Uma certa tendência do cinema francês”, onde refletia-se sobre a derrocada do cinema na França e aflorava a “política dos autores”, já delineada por Bazin em seus escritos, e que se tornaria a pedra de toque dos futuros realizadores que, de “jovens turcos”, passariam à nouvelle vague.

Nouvelle vague, ou nova onda, foi um termo criado pela jornalista Françoise Giroud em 1957 para descrever a juventude do pós-guerra. Em 1958, a denominação foi recuperada por Pierre Billard, que previa uma onda de renovação no cinema francês. A previsão se confirmou no mesmo ano de 1958, com o lançamento de Paris nous appartient, primeiro longa de Jacques Rivette, e Nas garras do vício, de Claude Chabrol. Porém, antes mesmo da estreia de Rivette, o arrastado cinema francês já havia recebido um sopro de renovação com os debuts de Agnès Varda e seu La pointe-court, de 1954; com Roger Vadim e E Deus criou a mulher, que revelou Brigitte Bardot para a tela grande, em 1956; e com Pierre Kast e sua mistura de comédia e ficção científica de 1957, Un amour de poche. Além disso, os “jovens turcos” já exercitavam a estética do fragmento e a incorporação do acaso em diversos curtas dirigidos e produzidos por eles durante os anos 50.

No ano seguinte, entretanto, o espírito libertino da nouvelle vague embriagou a capital francesa e o mundo: Truffaut trazia à luz Os incompreendidos, que recebeu elogios rasgados da crítica, o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes e se tornou fenômeno de público; e Alain Resnais, documentarista bem sucedido, fez de Hiroshima, mon amour, sua primeira ficção, um marco cinematográfico, cheio de renovação, inquietação e entorpecimento.

Mas o desbunde veio mesmo em 1960, com Acossado, direção de Godard e roteiro de Truffaut. Carro-chefe da revolução trazida pela nova onda, Acossado unia toda a nouvelle vague em seu projeto: encenação completamente inovadora – tanto no trabalho de câmera como no roteiro e na direção de atores -, desenvoltura e polifonia narrativa, diálogos provocadores, amoralismo, colagens inesperadas e abandono do ilusionismo clássico. Insubmisso a padrões de ponta a ponta, o filme demarcou claramente os limites entre um cinema ultrapassado e uma vanguarda. Com seus personagens sedutores, Acossado resume a nouvelle vague: a revolução pela forma. Aliás, nada mais clássico que sua temática: a morte e a impossibilidade do amor. E Godard – a “revolução permanente”, como o descrevera Glauber Rocha -, assim, iniciava seu projeto (vitalício) de subversão da arte cinematográfica. Para ele, afinal, tudo o que se precisa para fazer um filme é de uma arma e de uma garota.

A onda da nouvelle vague atraiu centenas de jovens seduzidos pela ideia (que incomodava os veteranos) de fazer mais com menos dinheiro – utilizando as dificuldades de produção como recursos poderosos para a invenção e a inovação. Entre 1958 e 1962, aproximadamente 170 novos autores estreavam suas películas tomadas de espírito liberal e de aversão às regras.

O frescor trazido pelas novas produções possibilitava a convivência da tradição e da ruptura, atribuindo aos museus e cinematecas grande papel no processo criativo, fagocitando as artes visuais, a cultura de massa hollywoodiana, a literatura que tinha a liberdade de ir de Balzac aos quadrinhos, a pop art, ao mesmo tempo em que dialogava com a imagem suja e imperfeita do documentarista e etnólogo Jean Rouch, e que a tecnologia dava sua mão com equipamentos leves para gravar a imagem e o som.

A diversidade de propostas apresentada pela nouvelle vague faz com que a noção de identidade aplique-se a ela sem grande rigor. Apesar dos variados aspectos em comum, não há um traço que una todos os filmes e realizadores com rigidez. Além disso, vários cineastas que não provinham da atividade crítica alinharam-se e se confundiram com o movimento, como o próprio Alain Resnais, Agnès Varda, Louis Malle e Chris Marker.

A onda que bateu com força e recuperou o cinema mundial da apatia em que estava mergulhado esvaiu-se poucos anos depois de trazer uma modernidade graciosa e potente para o cinema. A variedade dos projetos, os fracassos de bilheteria e alguns rompimentos pessoais (como o dos grandes amigos Truffaut e Godard) levaram cada cineasta a continuar filmando, porém por caminhos diversos.

Implodindo a forma de ver e de fazer filmes, a nouvelle vague – que completa meio século de estreia oficial -, vai muito além das cronologias 1959-1962 mencionadas nos livros. Seu erotismo pungente deixou seguidores por todo o mundo – sendo referência inegável para o Nuevo cine Latino-americano, Cinema Novo e Cinema Marginal brasileiros, Cinema Novo Português, Japonês e Alemão, e a geração da sétima arte norte-americana que inclui Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, além de deixar herdeiros na própria França, como Philippe Garrel, Jean Eustache e Leos Carax. A onda não morreu na praia e, mesmo cinquentona, ainda faz apaixonados com seu charme pleno de jovialidade, arte, armas, garotas.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema número 09 – julho/2009 e no site da Juliette)

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