Revista Brasileiros

Cobertura VII FLIP – Era uma vez…

Em meio ao turbinado calendário turístico e cultural da antiga e elegante Paraty, a Flip é o evento mais importante

30 de junho de 2009, de Paraty

O Senhor começou a distribuir as terras pelo mundo. Depois de um tempo, Pedro aproximou-se dele, querendo saber da sua parte. Ao que o Senhor disse: “É lá. Aquilo é para ti”. Talvez seja por isso que as águas que lambem Paraty sejam tão calmas, e a pesca seja tão farta, principalmente do parati. Porém, a água ardente – ou parati – que nasce também em Paraty, espremida entre o mar calmo e a serra, faz desconfiar que foi ao Diabo que Deus entregou a terra.

A meio caminho entre a maior cidade da América do Sul e a Cidade Maravilhosa – a mais ou menos 300 quilômetros de cada -, Paraty é o 11º destino preferido dos estrangeiros no Brasil, e a segunda cidade mais visitada do estado do Rio de Janeiro. Uma das primeiras vilas da colônia portuguesa no novo mundo, fundada no longínquo século XVII e hoje tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional por seu harmonioso conjunto arquitetônico, Paraty viveu seu auge entre os séculos XVIII e XIX como o mais importante porto exportador de ouro do país, passando por decadência e isolamento após o declínio da produção do metal precioso no estado de Minas Gerais.

Com 300 praias e 65 ilhas, a cidade que ficou no passado buscou, além da inegável beleza natural de seu território, sua veia cultural para se reerguer. A partir dos anos 50, o turismo começou a tomar conta do lugar, intensificando-se na década de 1970, com a construção da rodovia Rio-Santos. Suas ruas de pedra rugosa são redutos de artistas e já foram cenário para mais de 26 filmes (entre curtas, médias e longas-metragens), 21 novelas, minisséries, clipes famosos… Marcello Mastroianni já suspirou pela Gabriela, cravo e canela de Sônia Braga entre os casarões de pé direito alto nos anos 80, Hector Babenco dirigiu os grandes Raul Júlia e Willian Hurt na mesma década em O beijo da mulher aranha, Mick Jagger gravou o clipe de Running out of luck, de seu primeiro disco solo, e muitos atores globais já deram um passeio de escuna nos intervalos das filmagens.

Hoje, Paraty é palco para dezenas de festas e festivais, que vão desde as comemorações sacras como a Festa do Divino Espírito Santo, a Festa de Santa Rita e a de Nossa Senhora dos Remédios, até os inúmeros festivais gastronômicos, o Festival da Pinga – artigo de requinte na cidade, que até hoje é produzido artesanalmente -, de fotografia, dança, cinema e, finalmente, literatura. Em meio ao turbinado calendário turístico e cultural da cidade, a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – é o evento mais importante do lugar, reunindo todos os anos gigantes das letras do Brasil e do mundo e agregando aproximadamente 20 mil visitantes aos 33 mil habitantes da hospitaleira Paraty.

Inspirada em alguns festivais estrangeiros como o Hay-on-Wye (no País de Gales) e o Harbourfront (em Toronto, no Canadá), a primeira edição da Flip realizou-se em 2003 e, apesar do caráter quase artesanal, trouxe grandes nomes das letras e da intelectualidade, funcionando como cartão de visita de excelência das demais edições do evento. A ideia foi da editora inglesa Liz Calder, que morou em Paraty por alguns anos e percebeu que aquele era o lugar perfeito para a celebração do mundo literário.

Já passaram pela cidade autores renomados como Salman Rushdie, J. M. Coetzee, Elisabeth Roudinesco, Orhan Pamuk, Paul Auster, Rosa Montero, Tom Stoppard, Neil Gaiman, Amos Óz, Edmund White e Lillian Ross, além dos ilustres convidados brasileiros, que vão de Caetano Veloso a Ferreira Gullar, de Ariano Suassuna a Ruy Castro, de Barbara Heliodora a Luis Fernando Veríssimo, de Zuenir Ventura a Lygia Fagundes Telles, entre muitos e muitos outros, fazendo da Flip o mais importante acontecimento literário realizado em território brasileiro, porque muito diferente das bienais e de quaisquer outras feiras de livros.

Os debates da programação principal são apenas parte da festa que toma conta da cidade na primeira semana de julho. A Flip é recheada de atividades paralelas, como a Flip Casa da Cultura, que conta com mais discussões, apresentações e exposições; a Flipinha, direcionada às crianças, e que envolve a rede de ensino de Paraty durante todo o ano; e a FlipZona, novidade desta edição, destinada a adolescentes.

Na sétima edição, que se realiza de 1º a 5 de julho e tem como homenageado Manuel Bandeira, um time de indiscutível qualidade (como de praxe) visita Paraty, intensificando o diálogo com outros campos das artes e expandindo a ideia do literário com autores que também falam de ciência, música, cinema e histórias em quadrinhos. Entre os destaques, o biólogo Richard Dawkins, o jornalista Gay Talese, e os escritores António Lobo Antunes, Atiq Rahimi, o crítico Alex Ross, Chico Buarque, Cristovão Tezza, Milton Hatoum e mais uma lista imperdível que pode ser vista no site oficial do evento.

Porém, o melhor da festa é o encontro físico entre os que escrevem e os que leem – na Flip, as distâncias são inexistentes. Pode-se esbarrar com seu autor predileto, ou com aquela celebridade que estava num debate há pouco, caminhando às margens do mar calmo de Pedro, ou na porta dos botequins com a água ardente do Diabo. Se não está lá, estamos aqui pra trazer todas as novidades pra você não perder nada. Se você está aqui, fique de olho nos melhores momentos da cobertura da Brasileiros. E cuidado com as ruas pé-de-moleque (como são conhecidas as ruas de pedra daqui), principalmente depois de algumas paratis.

(Cobertura publicada no site da Revista Brasileiros. Você pode ver este texto aqui. Escrito em parceria com Isaac Pipano)

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