Juliette Revista de Cinema

Cinema, substantivo: Uma breve visita ao cinema romeno

Em Polícia, adjetivo (Corneliu Porumboiu, 2009), presente na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Cristi, o protagonista, um policial em crise preocupado com sua consciência, recusa-se a fazer um flagrante em um garoto que fuma haxixe com os colegas. Para Cristi, que passou dias e longos planos peregrinando em torno de seu objeto de observação, não é válido colocar um moleque na cadeia por anos, arruinando sua juventude, devido a um pequeno ato de rebeldia perante uma lei retrógrada que provavelmente será modificada em breve. Entretanto, o superior de Cristi interroga-o insistentemente recorrendo à leitura de vários verbetes de um dicionário, a qual tem por fim menosprezar os sentimentos e opiniões do subordinado ao demonstrar que ele é apenas um policial destinado (obrigado) a seguir ordens. Isso porque policial é somente um adjetivo, o que significa que não pode ser um sujeito com vontades próprias. O filme anti-policial, repleto de anti-ações destinadas a exasperar o tédio que imana do cotidiano do anti-herói fracassado, foi um dos destaques entre as inúmeras listas de dicas para enfrentar o extenso catálogo da Mostra de 2009, que contava com 424 filmes de todos (sim, todos) os cantos do mundo. Assim, era comum ouvir “você já viu aquele do Irã?”, ou “você gostou do sul-coreano?”, bem como se podem imaginar as diversas perguntas sobre variadas cinematografias nos corredores de grandes festivais que investem na ousadia.

Há quatro ou cinco anos, questionamentos sobre uma nouvelle vague romena, da qual faz parte Polícia, adjetivo, vêm ecoando principalmente da Croisette, onde as películas vindas da terra de Conde Drácula têm experimentado uma ascensão fulminante que colocou o país em ótima colocação no mapa do cinema mundial e nas listas de “imperdíveis” – um dos motivos da presença ilustre de Polícia, adjetivo entre os favoritos deve-se à sua consagração com o Prêmio do Júri e da FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos de Cinema) na Un certain regard, mostra paralela à competição oficial de Cannes.

A escalada romena teve início em 2005, quando Cristi Puiu levou o maior prêmio da Un certain regard com A morte do Senhor Lazarescu, seguido de perto por  A leste de Bucareste, do mesmo Corneliu Porumboiu, que no ano seguinte recebeu o prêmio de Melhor Filme em outra mostra paralela de Cannes, a Caméra d’Or, destinada a cineastas estreantes em longas-metragens. Ainda em 2006, Doroteea Petre, protagonista de Como eu festejei o fim do mundo, de Catalin Mitulescu, foi também premiada na categoria de Melhor Atriz na Un certain regard. Porém, o apogeu romeno ainda estava por vir: em 2007, Sem fim – Califórnia Dreaming, de Cristian Nemescu (finalizado pela equipe e inscrito inacabado no festival, devido à morte precoce de seu diretor, aos 27 anos, em um acidente de carro), foi o ganhador na Un certain regard, e 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu, arrebatou a Palma de Ouro, sagração máxima do mundo cinematográfico.

O grandioso prêmio ao cinema romeno em 2007 veio exatamente 50 anos depois do primeiro reconhecimento aos filmes desta terra: em 1957, Ion Popescu-Goto conquistou a Palma de Ouro para curta-metragem com seu filmete Short history. Entretanto, a premiação não foi suficiente para embalar os cineastas do país, cujas produções vieram à tona, mesmo sem grande destaque, apenas na virada dos anos 1960 para os anos 1970. Encolhido por outras cinematografias do leste europeu, como a iugoslava, a tcheca, a húngara e a polonesa, as quais se centravam em questões críticas – o que as inseria num panorama internacional -, o acanhado cinema romeno ganhava (pouca) vida com realizadores como Dan Pita, detentor de uma linguagem metafórica e simbólica; Lucian Pintilie, que dava conta de uma produção estatal tipicamente comunista; Stere Gulea e Mircea Daneliuc – todos os quais continuam na ativa (e às escondidas do mundo) até os dias de hoje. Após a queda do mitológico Nicolae Ceausescu, que afogou o país numa sufocante ditadura de 1965 até 1989 (data de sua execução), a Romênia se apresentou como uma “indústria” cinematográfica débil fornecedora de cenários e mão-de-obra aos filmes estrangeiros rodados ali, o que, de certa maneira, aliada à recente “liberdade” do país, propiciou a aparição de uma série de diretores estreantes, dos quais poucos continuam no ramo ou configuram-se como inspiração/modelo à geração atual.

Nae Caranfil e Radu Mihaileanu são dois exemplos do boom dos anos 1990 que ainda estão no cinema, assim como os apagados Laurentiu Damian, Daniel Barbulescu, Bogdan Dumitrescu e Calin Peter Netzer. Caranfil e Mihaileanu (que vive na França há quase três décadas e cujas histórias pouco se voltam para a Romênia) se destacam pelos indícios que deixaram no exterior, principalmente com seus filmes mais recentes como Filantropica (2002, quarto longa-metragem de Caranfil), Trem da vida (1998, de Mihaileanu, ganhador de alguns pequenos prêmios mundo afora) e Um herói do nosso tempo (2005, também de Mihaileanu e com um resumido conjunto de premiações internacionais no currículo).

Surgindo de forma discreta através das portas dos festivais desta década, o cinema romeno vem tomando lugar e se tornando promessa (ou hype) internacional – mesmo contando com cerca de 23 milhões de habitantes e menos de cem salas de exibição no país, com uma produção que dificilmente atinge uma dúzia de filmes por ano, com um público interno praticamente inexistente que ignora o cinema nacional, com a ausência de informações sobre o ramo e com exíguos financiamentos por meio de uma ineficiente lei do cinema regida por um ineficiente instituto estatal. Baseada em um estatuto francês, a lei de cinema romena estabelece um mecanismo pelo qual o Estado ajuda a financiar a produção por meio de taxas recolhidas na venda de DVDs e em transações da televisão. A verba é distribuída em dois editais a cada ano e (pasmem!) o dinheiro tem que ser devolvido pelo realizador ao governo em um período de até dez anos.

Apesar da insistência da crítica estrangeira em agrupar os novos diretores romenos em uma “nova onda”, há uma resistência entre estes cineastas em agregar-se como um movimento – a maioria considera o florescimento da sétima arte no país como uma questão de coincidência cronológica, sendo que o sentimento de unidade se mantém apenas devido à luta que empreenderam (e empreendem) juntos pelas mudanças da política de subvenções do governo e pelo reconhecimento do público local. Contudo, as semelhanças, tanto temáticas quanto estéticas, são insistentemente mais numerosas que as diferenças entre as películas romenas do século XXI.

Desenvolvidas com orçamentos minguados, as tramas centram-se no presente do país ou no passado recente do comunismo terminal pouco antes de Ceausescu sair de cena. O contexto histórico é onipresente e a sensação é de uma urgência em olhar para o “antes” para discutir e construir um “agora”, o que nos lembra que toda essa nova geração, nascida entre fins dos anos 1960 e início dos anos 1970, vivenciou na juventude o fim da “cortina de ferro” no começo década de 1990. Exorcizar a herança comunista com humor parece ser a tônica da maioria das produções – sendo 4 meses, 3 semanas e 2 dias o único filme que decididamente não faz uso da comédia em nenhum dos seus 113 minutos. Este eventual humor, que por vezes beira o absurdo (e por outras vezes é um terrível humor negro), não escapa da tragédia, que está sempre à espreita. O realismo contundente de um mundo cotidiano desencantado, captado por uma forma áspera de usar a câmera (grande parte do tempo na mão), traz uma estética minimalista que se assemelha à dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Há uma necessidade da imagem nua, seca, realçada pelo rigor formal das longas tomadas, que mostram uma Romênia gélida e cinza, quase inabitável: sem cortes, sem trilha musical, sem close-ups, sem didatismo, sem bom-mocismo ou maniqueísmo, e com uma inversão de expectativas constante.

O diretor de fotografia Oleg Mutu, um dos responsáveis por essas imagens cruas, é outra evidência do cinema romeno contemporâneo. Com seu nome constando nos créditos de A morte do Senhor Lazarescu e 4 meses, 3 semanas e 2 dias, Mutu faz parte do mais novo filme nascido no país e já exibido (e recebido com agrados) em diversos festivais mundiais, como Cannes, Londres e Toronto: Tales from the golden age (algo como Histórias da época de ouro), uma obra coletiva composta por diversos diretores desconhecidos do país (Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru), mas que traz no comando ninguém menos que Cristian Mungiu, o qual roteirizou todas as histórias e co-dirigiu algumas delas.

A coleção de lendas urbanas da época do comunismo em Tales from the golden age, a frieza diante da dor em A morte do Senhor Lazarescu, a negação do heroísmo em A leste de Bucareste, as reviravoltas na vida através de pequenos acidentes em Como eu festejei o fim do mundo e a desumanização pelo sistema (muito mais potente do que o feto envolto em toalhas num chão de banheiro) em 4 meses, 3 semanas e 2 dias, em meio ao tempo que se esvai lentamente, são maiores do que uma sequência de sucessos indispensáveis para a compreensão da história romena: se inscrevem na trajetória do cinema não mais apenas como um adjetivo, e sim como um substantivo.

(Publicado na Juliette Revista de Cinema em janeiro/2011)

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