Revista Aimé

Cinema e Literatura na Aimé 8

Cinema

Entre o desejo e o perigo

Uma relação violenta, apaixonada e proibida, assim como a de O Segredo de Brokeback Mountain, é a essência do novo filme do diretor taiwanês Ang Lee. Mas não é só na temática que Desejo e Perigo (que chega com atraso às telas brasileiras) aproxima-se de Brokeback. Com Desejo e Perigo, Ang Lee mergulhou em polêmicas, e também venceu oLeão deOuro no Festival de Veneza, sendo um dos poucos diretores da história a ser laureado bicampeão na competição, em 2006 e 2007.

Apesar da premiação na Itália, e em muitos outros festivais menores – o que fez com que Lee fosse presenteado pelo governo taiwanês com 303 mil dólares, quantia que o cineasta doou para ajudar diretores iniciantes a produzir seus próprios filmes –, Desejo e Perigo teve uma recepção morna da crítica, bem ao contrário do sucesso estrondoso de Brokeback. Tecnicamente impecável, com fotografia e direção de arte magníficas, o perfeccionista Ang Lee deixou escapar um longo e enfadonho suspense na trama que mescla nacionalismo chinês e amor impossível.

O versátil Ang Lee, que já passou pela comédia cult (O Banquete de Casamento, de 1993, sobre uma relação homossexual), pelo drama romântico (Razão e Sensibilidade) e pelas artes marciais (com O Tigre e o Dragão), em Desejo e Perigo baseia-se em um conto da escritora chinesa Eileen Chang (1920 -1995) que começou a ser escrito nos anos 50 e, após diversas revisões, foi finalmente publicado em 1979.

Na Xangai ocupada pelos japoneses entre as décadas de 40 e 50, o símbolo sexual Tony Leung (ator-fetiche do cineasta chinês Wong Kar Wai) é chefe da polícia local e alvo de um grupo de universitários que pretende matá-lo.Para isso, o grupo promove uma aproximação entre ele e uma das atrizes amadoras do teatro da cidade, interpretada pela atriz estreante Tang Wei. Porém, a farsante se apaixona por Leung e passa a viver entre o desejo e o perigo ao envolver-se com o inimigo.

Nos Estados Unidos, o filme foi classificado como “thriller erótico” devido às polêmicas cenas de sexo (que fizeram com que a atriz Tang Wei fosse banida da China por protagonizá-las). Ao contrário do que se pode imaginar, tais sequências são singelas e precavidas, tendo a entrega como elemento principal. Filmadas em 11 dias em um set fechado, somente com a presença do cinegrafista e da equipe de som, as cenas são descritas por Ang Lee como “apenas gráficas, e não pornográficas”. Já Tang Wei comenta que as tomadas foram delicadamente ensaiadas antes das gravações.

Além da presença de Tony Leung, em Desejo e Perigo podem ser encontradas diversas aproximações com o cinema de Wong Kar Wai e sua fixação pelos amores desencontrados. As influências do diretor de Felizes Juntos (sobre um casal de homossexuais que vai a Buenos Aires na tentativa de recuperar o seu romance) podem ser vistas nos diálogos pausados, nos movimentos serenos e nos jogos de olhares silenciosos. Porém, apesar da elegância, dessa vez Ang Lee fica devendo em sensualidade a Kar Wai.

Desejo e Perigo (Se, JieLust, Caution). Direção: Ang Lee. China/Taiwan/EUA. 2007. Drama. Duração: 157 minutos.

Terra estrangeira

O cineasta Henrique Goldman não vive em sua terra natal há aproximadamente três décadas. Brasileiro radicado em Londres, o diretor é atraído pela temática da imigração e tem no currículo alguns trabalhos que tratam do assunto. Este mês, mais uma produção de Henrique sobre o tema chega aos cinemas: Jean Charles.

A história do eletricista mineiro que foi morto pela polícia de Londres ao ser confundido com um terrorista, em junho de 2005, em meio à paranoia pós-11 de setembro, é conhecida pela grande maioria dos brasileiros e ocupou as manchetes de diversos jornais pelo mundo. Além do desejo de explorar o universo dos imigrantes em Londres, Goldman interessou-se de cara pelo caso de Jean, com o qual confessa ter se identificado. Porém, mesmo com o foco voltado para a vida dos brazucas, não falta crítica e acusação à polícia inglesa no filme.

Selton Mello faz o papel de Jean Charles e o elenco ainda conta com Vanessa Giácomo e Sidney Magal. A família de Jean teve participação importante na construção do filme, e alguns personagens interpretam a si mesmos na película.

A produção foi uma encomenda da rede estatal britânica BBC. Entretanto, devido a divergências entre Goldman – que gostaria de evidenciar o ponto de vista brasileiro da história – e a rede – que queria uma versão inglesa dos fatos –, o projeto foi cancelado. O cineasta, no entanto, não desistiu da ideia – e agora nos dá a oportunidade de conhecer um pouco mais aqueles compatriotas que vivem em terras estrangeiras.

Jean Charles (Brazuca – título no exterior). Direção: Henrique Goldman. Brasil/Reino Unido. 2009. Drama. Duração: 90 minutos.

Terrorismo pop

O Grupo Baader Meinhof narra a conduta dos movimentos de resistência à política alemã nos anos 60 e 70 através da guerrilha urbana do grupo mais radical da contracultura na Alemanha, a Facção do Exército Vermelho (RAF) ou Grupo Baader Meinhof, em alusão aos seus dois líderes mais importantes, o estudante Andreas Baader e a jornalista Ulrike Meinhof. Em meio às estruturas abaladas de um mundo repleto de tensões políticas (maio de 1968 na França e Guerra do Vietnã), a RAF era um grupo extremista que posteriormente foi considerado terrorista devido ao teor violento de suas ações.

Dirigido pelo desconhecido Uli Edel (Corpo em Evidência e Christiane F.) e com um orçamento de aproximadamente 20 milhões de euros, sendo considerado o filme mais caro da história da Alemanha, O Grupo Baader Meinhof concorreu este ano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo derrotado pelo japonês A Partida.

Apesar do roteiro um tanto raso, que simplifica a trajetória da facção, a película conquista pelo ritmo acelerado – que procura dar conta das inúmeras ações ousadas do grupo – e pelas cores saturadas típicas da época retratada. O filme descreve o surgimento do grupo, em 1967, até 1977, ano que foi marcado por ações fracassadas e pelo suicídio de seus idealizadores na prisão. O Baader Meinhof continuou existindo até o fim da década de 1990, porém sem o glamour e o mesmo impacto de suas primeiras gerações.

Aliás, glamour é uma boa palavra para descrever a RAF. Apesar das ideias utópicas e do comportamento por vezes pueril de seus integrantes, é impossível não se encantar pelo charme, o idealismo apaixonado e a crueza sem limites do grupo, que mesmo impetuoso em seus atos, agora expostos na tela grande, não desceu de seu pedestal mítico – resultado oposto ao desejado pelo diretor.

O Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex). Direção: Uli Edel. Alemanha/França/República Tcheca. 2008. Ação/Drama histórico. 150 minutos.

Literatura

Pra ver a banda passar

Segundo uma lenda portuguesa, aqueles que passarem debaixo do arco-íris terão seu sexo modificado imediatamente. Para Fabiano Gontijo, antropólogo formado mestre e doutor pela Escola de Estudos em Ciências Sociaisna França, professor e pesquisador na Universidade Federal do Piauí (UFPI), “o carnaval, festa governada pelo mitológico deus romano Momo, parece funcionar como um arco-íris que não somente teria o poder ritual sobre a sexualidade, o gênero e a aparência corporal, mas criaria experiência social – identitária – real e permanente”. Aprofundando essa temática, Gontijo lança o livro O Rei Momo e o Arco-íris: homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro.

A obra é uma versão reduzida de sua tese de doutorado, na qual apresenta os resultados de uma vasta pesquisa etnográfica realizada durante a década de 1990, procurando compreender os significados do carnaval para aqueles que mantêm relações sexuais preferencialmente com pessoas do mesmo sexo, além de expor o desenvolvimento do carnaval carioca desde a década de 1960 e a “homossexualização” que essa festa experimentou até os dias de hoje.

Com uma linguagem acadêmica um tanto truncada no início do livro, Gontijo afrouxa sua narração nos capítulos seguintes, contando uma história repleta de dados e extremamente interessante e prazerosa. A conclusão é que, felizmente, nem tudo toma seu lugar depois que a banda passa.

O Rei Momo e o Arco-íris: homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro. Autor: Fabiano Gontijo. Coleção Sexualidade, Gênero e Sociedade, da Editora Garamond. Preço: R$ 34,00. Páginas: 208.

Pra ver o moço passar

Cansado das perseguições em sua terra natal, a Argentina, Néstor Perlongher veio a São Paulo no início da década de 1980 e acabou no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde desenvolveu sua dissertação de Mestrado que, em 1987, virou livro: O negócio do michê: A prostituição viril em São Paulo. Referência fundamental para os estudiosos de sexualidade e gênero e para qualquer um que se interesse pelo assunto, tanto pela originalidade do tema, quanto pelas análises, a obra – que estava esgotada – foi relançada pela Editora Fundação Perseu Abramo no fim do ano passado e confirmou sua contemporaneidade e relevância em relação aos debates atuais.

Apesar de escrito em linguagem não-acadêmica, o livro tornou-se um clássico da pesquisa etnográfica. Com um amplo arsenal teórico, Perlongher valeu-se também do procedimento participativo para a pesquisa: foi às ruas de São Paulo e entrou em contato direto com seu objeto de estudo. O livro baseia-se principalmente em depoimentos de michês, clientes e outros personagens deste universo.

Discussões sobre o desejo, as urbanidades, as sexualidades, as corporalidades e o mercado do sexo são alguns dos temas abordados pelo pesquisador que, na época, deixou o meio acadêmico escandalizado, ao mesmo tempo em que se sintonizava com as Teorias Queer (para generalizar, estudos sobre homossexualidade) que surgiam nos EUA.

Autor de mais oito livros de poesia e importante ativista político, Perlongher morreu em 1992 em conseqüência da AIDS.

O negócio do michê: A prostituição viril em São Paulo. Autor: Nestor Perlongher. Editora: Fundação Perseu Abramo. Preço: R$ 38,00. Páginas: 272.

Pra ver o tempo passar

Em 2004, aescritora Ana Maria Machado lançava Tudo ao mesmo tempo agora, direcionado ao público infanto-juvenil. A história era protagonizada por um menino pobre que convivia com pessoas ricas, e que enfrentava questões como preconceito, ética, justiça e solidariedade em seu cotidiano.

O escritor, jornalista e professor universitário Jean Wyllys provavelmente não conhece o livro de Ana Maria Machado, mas há mais coisas em comum entre sua recém-lançada coletânea de crônicas do que apenas o nome. Também chamado Tudo ao mesmo tempo agora, o livro de Jean trata de assuntos como preconceito, ética, justiça e solidariedade em textos que refletem a militância do autor (que se tornou nacionalmente famoso após vencer a quinta edição do Big Brother Brasil, em 2005).

O engajado baiano, que já tem dois livros publicados – Aflitos (2001) e Ainda Lembro (2005) -, apresenta nesta coletânea textos publicados em sua coluna na revista G Magazine, escritos de seu blog e trechos de declarações à imprensa. No livro, ele aborda diversos assuntos, que variam de literatura a comportamento, acerca de fatos e produtos da indústria do entretenimento e do que se convencionou chamar de cultura gay. A obra oscila entre textos muito bons e outros medianos, em uma leitura que flui leve.

Tudo ao mesmo tempo agora – Crônicas e perturbações. Autor: Jean Wyllys. Editora Giostri Editor. Preço: R$ 25,00. Páginas: 136.

Pra ver roupa passando

“A minha vida se resume a ver roupa passando”. Essa é uma das primeiras frases do primeiro romance da jornalista e escritora Nina Lemos, colunista do jornal Folha de São Paulo e repórter especial da revista TPM, além de autora da coluna e blog 02 Neurônio, que já tem cinco livros publicados.

Num relato divertidíssimo e com uma sutil ironia (marcas registradas de Nina), o romance conta a história de Ludimila, uma editora de moda e ditadora de tendências que, durante um desfile, começa a ouvir vozes, o que deslancha num conflito entre seu presente hedonista e glamouroso em meio às passarelas e seu passado numa família de comunistas radicais que lutavam contra a ditadura no Brasil.

Os bastidores do mundo fashion, tão conhecidos por Nina, são o pano de fundo para as “aventuras” de Ludimila. Esse pano de fundo foi escolhido, segundo a autora, devido à influência que a moda causa nos dias de hoje – mas que poderia ser substituído por qualquer meio fetichizado. “Eu acho que é uma história de alguém da nossa geração. A gente cresceu ouvindo um monte de ideal socialista e… foi trabalhar com moda, em grandes corporações. Assim como o livro se passa na moda, eu acho que poderia se passar na Microsoft, diz Nina, filha de guerrilheiros como Ludimila, e que confessa ter um tanto de si em sua personagem.

A ditadura da moda. Autor: Nina Lemos. Editora: Conrad. Preço: R$ 27,90. Páginas: 120.

(Publicado na Revista Aimé número 08 – julho/2009. Você pode ver a revista completa aqui)

 

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