Revista Aimé

Cinema e Literatura na Aimé 9

Cinema

Deliciosa jornada?

Três anos depois do sucesso mundial e controverso de Borat – O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América, o comediante inglês Sacha Baron Cohen volta aos cinemas com o já polêmico filme Brüno, que teve estreia mundial em 10 de julho e chegou às telas brasileiras no dia 31 do mesmo mês.

Com um subtítulo nada convencional – Delicious journeys through America for the purpose of making heterosexual males visibly uncomfortable in the presence of a gay foreigner in a mesh t-shirt, ou algo como Deliciosas jornadas através da América pelo propósito de fazer homens heterossexuais visivelmente desconfortáveis na presença de um estrangeiro gay numa camiseta de malha -, Baron Cohen, assim como em Borat, traz mais uma ficção que se passa por documentário, e na qual permanece uma linha tênue entre o ridículo e o engraçado. O filme mostra Sacha como o austríaco gay, fashionista e repórter de moda que resolve levar seu programa de tevê para os EUA. Ironizando o mundo fashion, o ator excêntrico expõe a intolerância dos entrevistados, e passa longe do humor politicamente correto.

A divulgação do filme já vem ocorrendo desde o ano passado, com ações inusitadas que vão desde a invasão pelo personagem de um desfile em Milão, uma performance no MTV Movie Awards, na qual Brüno entrou flutuando sobre a plateia vestido de anjo e “aterrissou” as nádegas no rosto do rapper Eminem, a presença de Brüno na capa da chiquérrima revista britânica GQ, e a publicação de um ensaio insólito com a modelo brasileira Alessandra Ambrósio na edição de julho da revista Marie Claire do Reino Unido – sem contar nos processos judiciais que já começam a surgir.

Enquanto isso, os ativistas gays estão divididos quanto ao filme: alguns acreditam nos efeitos positivos da obra contra a intolerância, e há os que enxergam que o novo personagem de Baron Cohen pode reforçar a homofobia. Vindo da mesma mente de onde saiu o inconveniente (e sem graça) Borat, é de se esperar que o resultado de Brüno não seja dos mais interessantes.

Brüno (Brüno). Direção: Larry Charles. EUA. 2009. Comédia. Duração: 81 minutos.

Perturbações

Como seria a vida se, ao invés de Deus, fosse o Diabo o criador do homem à sua imagem e semelhança? Partindo de tal prerrogativa, e de profunda depressão que levou Lars Von Trier a uma temporada no inferno, o diretor dinamarquês concebeu Anticristo, com estreia em Cannes em maio deste ano, sob vaias, rejeição e intolerância. Porém, “barulho” é não é propriamente algo com o qual o Lars não esteja bem acostumado, após a realização de obras sempre “escandalosas” do ponto de vista da recepção de público e crítica, como Os idiotas, Dançando no Escuro e o bem-aclamado Dogville.

Estruturado em um prólogo, três capítulos – “Dor”, “Luto” e “Desespero” -, além da conclusão num epílogo, o filme aborda o relacionamento de um psicanalista, interpretado por Willem Dafoe, e uma escritora, a vencedora da Palma de Melhor Atriz por este mesmo filme, Charlotte Gainsbourg. Após a morte do filho num acidente doméstico, enquanto os pais transavam – com direito a cenas de sexo explícito e penetração – o marido, tentando auxiliar a mulher na recuperação do trauma, decide levar a esposa a estada numa cabana na floresta, um dos locais que mais a amedrontavam em vida.

Porém, a permanência no local insere o casal numa espiral de insanidade, numa descida aos recônditos de suas próprias fraquezas. O que seria uma espécie de terapia transforma-se em uma experiência sufocante por uma vida a cada dia asséptica, em que os limites de suas próprias faculdades mentais são abalados por uma série de acontecimentos estranhos, como se de fato a presença do mal, de modo metafísico, permeasse aquele lugar.

Aparentemente definido como um filme de terror, o mote não promete muitas possibilidades, o que tenta ser compensado com a crueza e superexposição do corpo e do sexo, inclusive com cenas de auto-mutilação, exagerando o compromisso psicanalítico com o qual Lars tenta reger seu filme. Algumas aulas com Bergman e algumas sessões terapêuticas talvez tivessem feito de Anticristo uma obra mais bem resolvida. Mas se o cinema também é um exercício de expor as vísceras, Lars von Trier deu um passo.

Anticristo (Antichrist). Direção: Lars von Trier. Alemanha/Dinamarca. 2009. Terror/Drama. Duração: 104 minutos.

A aventura está lá em cima

Como dizia Walt Disney, “Para cada risada, deve haver uma lágrima”. Em Up – Altas Aventuras, nova animação da Pixar que abriu o Festival de Cannes deste ano, a lição é seguida à risca.

Com uma sequência inicial fabulosa que sintetiza a história do vendedor de balões Carl Fredricksen – o qual sonhava em explorar o mundo desde criança, depois se casou com uma mulher que tinha os mesmos desejos, os quais acabam não se realizando, fazendo de Carl um velho rabugento e solitário após a morte da esposa -, a animação desenvolve-se entre boas doses de aventura e humor.

Tudo começa quando Carl resolve realizar seu sonho de partir voando para a América do Sul – porém, de uma maneira muito inusitada: prendendo milhares de balões à sua casa, que sai flutuando pela cidade. O velhinho ranzinza ainda conta com um parceiro improvável que embarca por engano na casa voadora: o pequeno escoteiro insistentemente falante Russell, de apenas oito anos – 70 primaveras a menos que o velho protagonista.

Os personagens ainda se deparam com um vilão inesperado e encontram outros parceiros nessa inventiva narração da criativa Pixar. As preocupações com verossimilhança são nulas no desenrolar da história, e qualquer conexão com fatos reais – como o do padre brasileiro que se amarrou a balões e desapareceu, no sul do Brasil, no ano passado – é mera coincidência.

O filme desarmou a crítica em Cannes com sua leveza, e deu um show de bilheteria nos EUA, superando todas as expectativas de que a produção não possuía apelo junto ao público.

Up é permeado de risadas – e de algumas lágrimas –, tem qualidade técnica impecável (o cuidado com os detalhes é surpreendente), Carmen, de Bizet, na trilha sonora, e momentos que lidam de maneira mais complexa com a vida e suas frustrações, assumindo (mais uma vez) a animação como um gênero cinematográfico independente de faixa etária.

Up – Altas Aventuras (Up). Direção: Pete Docter e Bob Peterson. EUA. 2009. Animação. Duração: 96 minutos.

Literatura

Prelúdio à Psicologia Afirmativa

Poucos meses após o lançamento de seu primeiro livro, DeSiguais (Editora Fábrica de Leitura, R$ 27), o psicólogo Klecius Borges está mais uma vez nas prateleiras das livrarias.

Em DeSiguais, Klecius reuniu seus textos da coluna Papo Cabeça – que assina na revista G Magazine há mais de cinco anos – e que exploram o amor e o universo homossexual sem cair na mesmice. Em sua nova obra, Terapia Afirmativa, Klecius mergulha em um tema bem conhecido e explorado por ele: a Psicologia Afirmativa.

Os fundamentos da Psicologia Afirmativa consistem em um conjunto de pressupostos teóricos sobre a homossexualidade e em uma atitude clínica especificamente voltada para o incremento de uma identidade homossexual positiva. Vertente desenvolvida principalmente nos EUA e Reino Unido, a visão afirmativa tem como base a identidade homossexual como uma expressão natural, espontânea e positiva da sexualidade humana, e a homofobia como a principal responsável por muitos dos conflitos vivenciados pelos homossexuais.

Trabalhando há diversos anos com bi e homossexuais, Klecius propõe uma introdução sobre a psicologia e terapia afirmativas. Com um texto simples e didático, o qual pretende oferecer um repertório conceitual básico para uma reflexão abrangente sobre a identidade homossexual, o autor desenvolve um breve histórico da questão da homossexualidade na Psicologia e cita vários casos e exemplos, os quais aproximam o leitor do assunto – que é exposto de maneira clara e objetiva, interessando tanto a leigos quanto a especialistas.

Terapia Afirmativa: uma introdução à psicologia e psicoterapia dirigida a gays, lésbicas e bissexuais. Autor: Klecius Borges. Edições GLS. 104 páginas. Preço: R$ 28,90.

Onde andará Caio F.?

O escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), assim como sua musa Clarice Lispector, era muitas vidas em uma só. Maria Adelaide Amaral o descrevera como uma figura de Modigliani. Lígia Fagundes Telles o chamava de “o escritor da paixão”. Por vezes, ele parece um charmoso personagem de Godard tal a vida excitante e intensa que teve – sempre às voltas com papeis e canetas, tão insistente era a escrita em seu cotidiano.

Em Para sempre teu, Caio F., a jornalista e artista plástica Paula Dip reúne cartas, bilhetes e particularidades que dividiu com o polêmico Caio em mais de 20 anos de convivência. Em uma narrativa que costura sua trajetória à de Caio, Paula faz uma deliciosa biografia do escritor. Recheado de depoimentos de quem passou pela vida do autor, o texto ainda fotografa com primor o espírito dos anos 70 e 80, resgatando muitas outras figuras sublimes da época.

Um dos mais importantes escritores das décadas de 1980 e 1990 no Brasil, Caio teve uma existência atribulada pela constante necessidade de experiência e pelos sentimentos sempre à flor da pele. Com muitos prêmios no currículo e reconhecimento ainda em vida – a qual se acabou precocemente quando ele tinha 47 anos, devido à contaminação pelo vírus da AIDS -, Morangos Mofados e Onde Andará Dulce Veiga? são os destaques da sua obra.

Quase impossível não amar a Caio durante e depois das 504 páginas de Paula. Caio viveu amando através de seus escritos. Afinal, para ele, “o bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor”.

Para sempre teu, Caio F. – Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu. Autora: Paula Dip. Editora Record. 504 páginas. Preço: R$ 58,00.

Trilha colorida

O tom político, mais do que nunca, foi o maior destaque da Parada Gay de São Paulo deste ano. Por essa e por muitas outras, o novo livro dos antropólogos Júlio Assis Simões e Regina Facchini evidencia-se entre os lançamentos do mês: Na trilha do arco-íris: Do movimento homossexual ao LGBT.

Tomando a sexualidade como um terreno político por excelência, Simões (professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador-colaborador do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu – da Unicamp) e Facchini (pesquisadora-colaboradora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu – da Unicamp e autora do livro Sopa de letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90­ – Garamond, R$ 39) narram a trajetória percorrida pelo movimento político em torno da homossexualidade no Brasil até seus desdobramentos presentes, traçando também um panorama das raízes dos movimentos norte-americano e europeu.

Referência obrigatória para o entendimento do processo de politização das identidades sexuais e de gênero ocorrido nas últimas décadas, o livro faz um apanhado de pesquisas já existentes e organiza dados dispersos sobre o assunto – cujo estudo, apesar de crescente, ainda é incipiente no Brasil.

Inerente a tudo isso, a obra ainda traz luz para uma melhor compreensão da história contemporânea brasileira em todas as esferas da sociedade, abrangendo as mudanças ideológicas, sociais e políticas ocorridas a partir dos anos 1970 no país, com destaque para a importância dos movimentos homossexuais na construção de um programa de combate ao preconceito e de garantia dos direitos civis básicos.

Na trilha do arco-íris: Do movimento homossexual ao LGBT. Autores: Júlio Assis Simões e Regina Facchini. Editora Fundação Perseu Abramo. 194 páginas. Preço: R$ 38,00.

(Publicado na Revista Aimé 9 – setembro/2009. Você pode ver a revista completa aqui)

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