Revista Aimé

Cinema e Literatura na Aimé 11

Cinema

Amor bandido

Carmo, Marco, amor. O road-movie Carmo, que se inicia numa remota cidadezinha do Mato Grosso, onde “Judas perdeu las buetas”- como descreve, em bom portunhol, a protagonista Maria do Carmo -, dá muitas voltas até chegar ao seu destino: nenhum. O affair da personagem com o contrabandista argentino Marco (vivido pelo galã espanhol Fele Martinez, de Má educação, filme de Pedro Almodóvar) se inicia com a ânsia da jovem em sumir de sua entediante terra natal. Ao som da trilha sonora de Zeca Baleiro (que também faz uma ponta como um músico de beira de estrada), também se encontram pelo caminho Seu Jorge (que interpreta um gay ninfomaníaco) e Márcio Garcia (totalmente descaracterizado, com prótese no nariz e dentes podres) como improváveis bandidos, os quais são ao mesmo tempo os vilões e o contraponto cômico dessa comédia romântica.

Estreia em longa-metragem do diretor paulista Murilo Pasta – que viveu 18 anos na Inglaterra e se destacava com a realização de minisséries e curtas na tevê britânica -, a inspiração inicial para o roteiro veio de uma notícia de jornal: uma garota de Cedral, no interior paulista, era seqüestrada por um bandido em fuga e eles acabavam se apaixonando, vivendo uma espécie de Bonny and Clyde tupiniquim. Em seguida, após ler uma entrevista com o escritor e amigo Marcelo Rubens Paiva (para quem o filme é dedicado), Murilo acrescentou detalhes inesperados ao enredo, como o fato de Marco estar em uma cadeira de rodas.

Vencedor do Prêmio do Público na categoria Melhor Longa Nacional na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o debut de Murilo Pasta (que dirigiu sua esposa Mariana Loureiro no papel de Maria do Carmo) é interessante em suas reviravoltas e cativante com seus anti-heróis: como todo bom amor bandido.

Carmo (Carmo – Hit the road). Direção: Murilo Pasta. Brasil/Espanha/Polônia. 2009. 99 minutos.

“De homem não passamos, a mulher nunca chegamos”

Este é o bordão repetido há mais de 25 anos por Deborah (nome adotado por Fernando Santos), entre canções de Whitney Houston, durante seus shows em casas de espetáculos portuguesas. Vedete do travestismo lisboeta, Deborah/Fernando foi escolhida para interpretar nas telas do cinema Tónia, mais uma estrela dos palcos de Lisboa, em Morrer como um homem, novo filme de João Pedro Rodrigues, que aos 43 anos revela-se como um dos novos talentos do cinema europeu.

Em uma terra onde apenas em 1982 o Código Penal deixou de criminalizar gays e lésbicas por suas opções sexuais, João Pedro desenvolve um roteiro em tempo indefinido a partir dos problemas que vão se acumulando na vida da veterana Tónia: uma exuberante rival em seu trabalho nos cabarés, uma via-crúcis com o jovem namorado viciado em drogas, o impossível relacionamento com o filho e o os efeitos do tempo que se debruçam sobre o seu corpo – sem contar na dúvida (e principalmente na recusa) em tornar-se definitivamente uma mulher através de uma operação de troca de sexo. Após O Fantasma (2000) e Odete (2005) – ambos premiados pelo mundo e que também trazem relações entre dois homens -, o diretor foi inspirado por encontros que teve com travestis, os quais deram diversos depoimentos sobre a vida dos bastidores drags nos anos 1980 e 1990.  Morrer como um homem não pretende ser um retrato fiel dos travestis e transexuais, e isso se confirma pelo flerte que o liga ao fantástico e ao imaginário nas cenas típicas de musical e com coloridos diversos.

Assim, as cores efusivas e os devaneios que cercam Tónia alimentam o desenrolar de seus conflitos e de seus sentimentos, que confirmam que a virilidade – e a delicadeza – estão na alma, não se importando o que se faz com o corpo.

Morrer como um homem (Morrer como um homem). Direção: João Pedro Rodrigues. Portugal/ França. 2009. 133 minutos.

Gay, gay, gay, gay, gay

Glenn Ficarra e John Requa queriam fazer um filme em que um gay se sentisse maravilhado em ser gay. Gay, gay, gay, gay, como afirma energicamente o personagem de Jim Carrey, um dos astros de Hollywood que se envolveu quase de graça no projeto de I Love you Phillip Morris devido à atração pela ideia destes roteiristas veteranos que estreiam na direção – com muito brilhantismo, aliás.

O personagem principal da história é Steven Jay Russell (cuja trajetória também é livro: I love you Phillip Morris: A true story of life, love and prison breaks, de Steve McVicker), um policial texano muito bem casado, com filhos e frequentador da igreja do bairro que, após um acidente, descobre que é gay – e que, para isso, é preciso ter um bom dinheiro. Assim, Steve começa a dar golpes para manter seu alto padrão de vida. No caminho, um relacionamento com Rodrigo Santoro – “extremamente bonito”, segundo os diretores, que o viram pela primeira vez no filme Simplesmente amor e depois trocaram ideias com David Mamet, outro cineasta que dirigiu Santoro em Cinturão Vermelho e que encheu o ator de elogios. Preso devido às suas trapaças, Steve conhece o amor da sua vida no xilindró: é o dito cujo Phillip Morris, vivido por Ewan McGregor. Depois que Morris sai da prisão, Steve começa uma sequencia insana de fugas atrás de seu amado, e que levam o então governador do Texas, George W. Bush, a embaraçosas explicações sobre o sistema penitenciário do estado.

Os questionamentos sobre uma possível censura que teria provocado alguns cortes na versão definitiva do filme, apresentada no Brasil durante a 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na qual os diretores estavam presentes, trouxe uma resposta no mínimo inesperada: houve cortes sim, e principalmente em cenas que traziam Santoro. E o motivo não foi a “picância” das sequencias, e sim a enorme química sexual entre Jim Carrey e Santoro, que perigava ofuscar a trama principal com McGregor. O brasileiro é irresistível mesmo…

Apesar da deliciosa trama, de personagens muito à vontade em seus papeis e de outras inúmeras qualidades que fazem o filme fascinante, o financiamento da produção foi integralmente europeu (devido à impossibilidade de angariar dinheiro norte-americano) e está com uma dificuldade enorme de sair do armário: apesar de concluído em 2008, foi direto ao DVD, sem passagem pelos cinemas no conservador Estados Unidos e, após a presença em alguns festivais, encontrou distribuição apenas para o primeiro semestre de 2010 nos outros países – inclusive no Brasil. Assim, o incômodo gerado pela história de amor ideal (e nem tão sexualizada, como se poderia imaginar) faz a película ainda mais imperdível.

I love you Phillip Morris (I love you Phillip Morris). Direção: Glenn Ficarra e John Requa. EUA/França. 2008. 100 minutos.

Literatura

A moda está na moda

Uma diversidade de livros de moda lançados neste início de ano

30 anos de moda no Brasil – Uma breve história

Três ensaios-reportagens e mais de cem virtuosas fotografias investigam o desenvolvimento da moda no Brasil, além de trazer as mudanças radicais responsáveis pela movimentação do país nos últimos 30 anos, como a democratização da sociedade, a globalização e a rapidez da informação através da internet. Baseados em entrevistas com importantes profissionais da área e extensa pesquisa nos maiores arquivos de moda brasileiros, os textos trazem as influências históricas, culturais e comportamentais que marcaram o período e como elas refletiram no vestir de todo dia.

30 anos de moda no Brasil – Uma breve história. Autor: Marília Scalzo. Editora: Editora Livre/Editora de Cultura. 238 páginas. R$ 68.

100 anos de moda masculina

Explorando todos os aspectos da moda masculina nos últimos 100 anos através de fotografias, a especialistaem moda CallyBlackmandiscute desde o impacto dos grandes estilistas até a influência nos guarda-roupas femininos, passando pela influência da comunidade gay e das tendências exploradas e disseminadas pela mídia.

Ainda sem edição em português, o livro (que é absolutamente bonito) pode ser encontrado em inglês ou espanhol.

Em inglês: 100 years of menswear. Autor: Cally Blackman. Editora: Chronicle Books/Lawrence King Press. 320 páginas. Entre R$ 88 e R$ 97.

Em espanhol: 100 años de moda masculina. Autor: Cally Blackman. Editora: Blume. 320 páginas. R$ 145.

O herói desmascarado – A imagem do homem na moda

O grande estilista e estudioso Mário Queiroz investiga como os editoriais de moda remetem à imagem do homem no final do século XX e início do século XXI, discutindo como se dá a relação da moda versus o do herói do universo masculino, e se ela aponta para transformações no comportamento do homem. A pesquisa centra-se na análise da revista inglesa Arena Homme Plus, uma das poucas do mundo dedicadas exclusivamente à moda masculina.

O herói desmascarado – A imagem do homem na moda. Autor: Mário Queiroz. Editora: Estação das Letras e Cores. 151 páginas. R$ 35.

Moda+Visão

Organizado pela renomada jornalista e pesquisadora de moda Iesa Rodrigues, a coleção Moda+Visão Inverno 2010 e Moda+Visão Verão 2010 apresentam as principais tendências para a próxima estação. Após participar dos maiores desfiles internacionais e realizar uma ampla pesquisa, Iesa antecipa, por meio de uma abordagem prática e divertida, os looks, as cores, as estampas e as texturas que estarão em alta.

Moda+Visão Inverno 2010. Autor: Iesa Rodrigues. Editora: SENAC Rio. 104 páginas. R$ 180.

Moda+Visão Verão 2010. Autor: Iesa Rodrigues. Editora: SENAC Rio. 160 páginas. R$ 180.

 

Entrevistas

Soraia Bini Cury, da Edições GLS

“A literatura gay existe e ponto. Acontece que, antes da existência da GLS, ela era pouco reconhecida ou camuflada em obras mais genéricas. Ou então os livros eram jogados na prateleira de sexo e sexualidade. O significado de ter um público-alvo definido é que, embora possam e devam ser lidas por heterossexuais, as obras das Edições GLS têm como intuito principal atender aos interesses de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e transgêneros”, conta Soraia Bini Cury, responsável pelo selo da Editora Summus destinado principalmente ao público homossexual: a Edições GLS. Criada em 1998, a GLS tem 52 livros em catálogo, dos quais seis foram lançados em 2009. Nos últimos anos, o selo cresceu entre 8% e 10%, número ainda inferior ao crescimento geral do Grupo Editorial Summus.

Soraia conta à Aimé sobre a criação e a dinâmica do selo:

Aimé: Como é a análise dos livros que chegam?

Soraia Bini Cury: Primeiramente, fazemos uma triagem e verificamos se a temática é mesmo GLS. As pessoas às vezes confundem as coisas e mandam livros eróticos destinados ao público heterossexual. Depois dessa triagem preliminar, separamos os originais em ficção e não ficção. Na área de ficção entram romances e contos. Na área de não ficção entram os informativos, ou seja, obras que discutem a homossexualidade da ótica da educação, da sociologia, da antropologia e da psicologia. Depois analisamos alguns requisitos básicos, como desenvolvimento do tema, qualidade da escrita, originalidade e coesão. Se o original passar por esses crivos, é enviado para pareceristas da área de literatura ou, se for o caso, para um especialista em educação/psicologia. Esses pareceristas analisam diversos fatores, inclusive a viabilidade econômica do título.

A: O que é preciso para que um livro dessa temática seja aceito?

SBC: Se for ficção, o livro precisa ser bem escrito e, acima de tudo, original. De nada adianta mandar uma história de amor banal, que começa com homofobia interna e termina com final feliz, porque disso os leitores já estão cansados. E, claro, o autor deve dominar a língua portuguesa. Originalidade, sensibilidade, bom humor, trama bem construída, personagens interessantes… Sem isso, fica difícil publicar algo com qualidade.

Se for não ficção, a originalidade do tema conta muito. A obra precisa, de alguma maneira, atender às demandas sociais do público GLS e contribuir para melhorar a autoestima e a visibilidade desse público, contribuindo de alguma forma para a consolidação dos seus direitos.

A: O público leitor é formado somente por gays ou há heteros também?

SBC: As características mais marcantes da GLS são a transparência de conteúdo, a linha editorial firme quanto a obras positivas e um público-alvo definido, ainda que vasto. Isso não quer dizer que todo leitor deva ser gay, lésbica, bissexual ou transgênero para adquirir um livro das Edições GLS. Afinal, a sigla que dá nome à editora significa gays, lésbicas e simpatizantes. Qualquer um pode ser simpatizante: pais, amigos, parentes e os profissionais que prestam atendimento psicológico e de saúde às pessoas pertencentes a minoria sexuais.  Em 2008, em seu aniversário de 10 anos, a Edições GLS sofreu ampla reformulação em sua linha editorial. Além de uma sensível melhora no padrão gráfico dos livros, o selo passou a investir em literatura de alta qualidade, que agrada tanto aos gays quanto aos héteros por seus predicados literários. O próximo passo é investir ainda mais em livros informativos que esclareçam problemas cotidianos dos LGBT.

A: E os escritores, são sempre gays?

SBC: Cerca de 95% dos escritores são gays, mas existem também aqueles que lidam com a temática gay para explicá-la à sociedade, aos amigos e à família dos homossexuais. É o caso, por exemplo, de Edith Modesto, que lançou o livro Entre mulheres – Depoimentos homoafetivos, no qual conta histórias de lésbicas que enfrentaram muito preconceito para conseguir se assumir.

A: Como foi a criação do selo e como ele foi recebido? Houve mudança na recepção de 1998 até hoje?

SBC: O selo enfrenta muito preconceito – que começa no livreiro e culmina até no próprio leitor. Nas duas primeiras bienais de que a GLS participou, decidiu-se que haveria uma prateleira separada e semifechada para expor as obras, o que, na época, foi criticado por algumas pessoas. Nas últimas feiras, a GLS passou a ser exposta junto com os outros selos. Em todas essas ocasiões o selo foi responsável por 25% do faturamento do Grupo na feira. Isso mostra que os livros têm potencial de venda quando são expostos corretamente. Outro exemplo do tamanho do preconceito: todos os livros do selo vendem mais na internet do que nas livrarias físicas. Vale lembrar também que boa parte dos compradores da Bienal é composta por mães e irmãos de gays.

A: Como está estruturado hoje o mercado editorial para gays no Brasil? Há espaço para produtos segmentados?

SBC: O mercado editorial voltado para o público gay ainda é muito pequeno. No caso de editoras, somente a nossa abrange o público LGBT como um todo. Porém, a publicação de revistas – como AiméJunior e DOM – e a veiculação de sites tem crescido nos últimos anos, o que é bastante positivo. Penso que ainda há espaço para produtos segmentados, principalmente na área de cultura.

Conheça aqui o site da Edições GLS.

O diário de Léo Dragone

Em setembro deste ano, um jovem baiano de apenas 19 anos roubou olhares na 14ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro: o modelo e ator Alex Bruno Rodrigues de Jesus estreava na literatura com seu romance Diário de Rafinha: As duas faces de um amor, no qual vinha estampado o pseudônimo do escritor e nome pelo qual é conhecido – Léo Dragone. Além de não gostar da ausência de sonoridade de sua alcunha de batismo, ele já levava o apelido de Léo desde pequeninho devido às corujices de uma das tias, e o Dragone foi escolhido por causa da paixão pelos dragões, habitués das histórias fantásticas que o autor tanto gosta.

A trama de traços cinematográficos Diário de Rafinha conta a trajetória de um jovem de 17 anos que se apaixona desesperadamente pelo namorado da irmã e suas ações extremas para ficar junto ao rapaz, às quais não poupam nenhuma pessoa que se arrisca entrar em seu caminho. Observado por um narrador onisciente que acompanha os fatos e os conta, o livro não é um diário como o título pode sugerir, e sim a chave que desencadeia o fim inesperado da narrativa.

Léo Dragone contou à Aimé um pouco mais de sua vida e de seus trabalhos.

Aimé: Léo, fale um pouco da sua vida em Salvador e como você se interessou pela escrita.

Léo Dragone: Nasci no subúrbio ferroviário de Salvador, no bairro chamado Periperi, localizado na Baía de Todos os Santos, um dos pontos mais distantes do centro da cidade. Periperi não tinha lazer de forma alguma (quadra de esportes, cinema, shopping, lugares para pedalar, parque, praças e outras formas entretenimento). A única opção era a praia. Suja, impregnada de lixo, onde desaguava o esgoto. Mas, em compensação, era onde eu, meus primos e irmãos nos divertíamos, pulando do cais, sem noção dos riscos que a brincadeira poderia causar. Além de ir à praia, roubávamos pitanga no quintal de um vizinho, e fugíamos escorregando com papelões pela ladeira de barro que dava dentro de um brejo. Outra brincadeira que virou moda foi tocar a campainha das casas alheias e sair correndo.

Parei de estudar com 15 anos para trabalhar e ajudar minha família. Somente aos 18 fui ao cinema e ao teatro pela primeira vez. Agora, com 19 anos, faço cursinho para recuperar os estudos; teatro – que é a profissão que desejo seguir -, e um curso de modelo.

Com a literatura, tudo começou com a Taíse, minha irmã mais velha, que sempre gostou de ler e levava pra casa livros que pegava emprestado. Certa vez peguei um desses livros e comecei a folheá-lo, olhando somente as figuras, mas não entendia direito porque estavam acontecendo determinadas coisas nas figuras. Para saber o que acontecia eu tinha que ler, e então comecei a ler sem conseguir parar. Não lembro o nome do livro nem do autor. Eu devia ter uns nove anos. A história falava de uma adolescente apaixonada pelo garoto mais bonito do colégio. Mas ele era bonito só por fora. O cara era “galinha”, mau caráter e dissimulado. Enquanto a garota morria de amores pelo bonitão, vivia às brigas com o melhor amigo, um nerd magricelo, “quatro olhos” e cheio de espinhas na cara, por quem a menina descobriu que estava realmente apaixonada.

Depois de ler alguns livros, incluindo Capitães da Areia, de Jorge Amado, me veio a paixão e a vontade de escrever. Não fiz nenhum curso de literatura. Minha primeira história infanto-juvenil foi Diário de Rafinha, que eu comecei a escrever com 17 anos e publiquei agora em 2009.

O que me motiva a escrever é o meu gosto de contar histórias. Gosto de passar mensagens, viajar nos textos e principalmente o prazer de saber que em algum lugar do mundo existe uma pessoa que leu, está lendo ou vai ler uma história contada por mim. Sem contar no sonho que tenho de escrever novelas. Incrivelmente, não sei como, mas consigo prever alguns finais ou histórias que se desenrolam nas tramas!

A: Quais são as suas maiores influências – não apenas literárias, mas também de outras artes?

LD: Minhas influências para escrever foram os livros que li na infância, meu amigo e assessor Valdeck Almeida e os autores de novela como o João Emanuel Carneiro, a Glória Perez e o Manoel Carlos. Como ator, sempre fui fã e tenho como figuras que me inspiram na arte do teatro Deborah Secco, Wagner Moura, Taís Araújo, Lázaro Ramos, entre outros…

A: Você poderia falar de seu processo criativo?

LD: É um pouco complicado, primeiro me vem a ideia inicial… Quando tudo está fluindo, quase sempre trava. Pode acontecer de eu escrever 50 páginas por dia ou não passar da primeira linha. Às vezes passo dias, semanas ou meses sem escrever nada. Ou então escrevo 50 páginas e num surto rasgo tudo e jogo fora. Minha angústia maior é quando os personagens insistem em caminhar com as próprias pernas. Foi o que aconteceu no Diário de Rafinha.

Não tenho ritual para escrever, pode ser no cinema assistindo a um filme, no ônibus, indo para a escola ou mesmo no mercado. Por isso já ando precavido com caneta e papeis nas mãos!

A: Conte-nos um pouco de como foi escrever Diário de Rafinha.

LD: Na ideia inicial o personagem principal seria uma mulher. Mais aí empacou no primeiro parágrafo. Além do mais, ficaria muito comum uma mulher apaixonada pelo namorado da irmã. E como não consegui evoluir em cima disso, deixei de pudor e permiti que a personagem se desenvolvesse sem restrições.

Certa vez, conversando com um amigo, ele me contou que um dos nossos colegas estava gostando dele e que tinha lhe confessado isso. Eu fiquei impressionado com o fato, e como meu amigo não deu chances para o apaixonado, a história não se desenrolou.

Logo em seguida, assisti ao filme O talentoso Ripley. Juntei as duas histórias e tive uma inspiração incrível que foi criar Diário de Rafinha.

A escolha pelo universo adolescente veio porque a adolescência é uma fase bastante complicada, agitada e confusa. Não seria conveniente um adulto de cabeça formada e experiências sobre a vida tomar certos tipos de decisões que o protagonista tomou. Imediatamente imaginei que na adolescência existe essa coisa de processo existencial, a dúvida entre o bem e o mal, a rebeldia e a incerteza sobre os sentimentos e a própria sexualidade. A lição que eu tento passar através do texto é que nem sempre podemos seguir nossos instintos sem ter as conseqüências, sejam elas boas ou ruins.

Quando escrevi Diário de Rafinha eu era muito menos experiente do que hoje; é incrível olhar pra trás e perceber que amadureci tanto em tão pouco tempo. Apesar de acreditar que é uma história boa sempre a dúvida me cutuca: Será que consegui passar a mensagem que eu queria? Será que as pessoas vão gostar da história?

O que me salva é que vários amigos já leram e me disseram que a história é muito boa, mas sempre me pego pensando se eu podia fazer melhor!

A: Alguns escritores e críticos falam na existência de uma literatura gay. Você acredita (ou concorda) com esse tipo de classificação?

LD: Não concordo. Acho que a literatura é uma só, não importa se é uma ficção, biografia ou histórias baseadas na realidade, tampouco se fala de gays ou heterossexuais. Acredito que independente das histórias cada uma encanta, fascina ou intriga cada pessoa.

A: Você teve algum tipo de preconceito no mundo literário ao tratar da temática homossexual?

LD: Até hoje não recebi nenhum comentário, nem passou pelo meu conhecimento nada parecido com preconceito.

Mas estou aberto aos críticos. Acho que sempre tem alguém que direta ou indiretamente se incomoda com a produção alheia. E se isso acontecer com um livro tão leve como esse, escrevo um mais denso, ousado, erótico e, se duvidar, pornográfico, para dar motivos a eles de criticarem. Além do mais, o que seria de nós se todo mundo achasse lindo o que a gente fizesse? Aí não teria graça.

Eu escrevo para os meus leitores. Os temas e personagens representam assuntos e pessoas que existem no mundo real. Alguns deles são criações da ficção que a literatura permite ao escritor lançar mão. Se algum texto que escrevo incomodar alguém, esse texto cumpriu o objetivo, pois não faço literatura plana, não quero repetir o que já existe no mercado. Isso não quer dizer que eu faça polêmica pela polêmica, nem que eu escreva pensandoem vender. Não. Apolêmica dos meus escritos surge pela própria necessidade que o escritor tem de se indignar, de imprimir sua marca pessoal, de instigar o mundo e a sociedade a reverem pontos de vista, a analisar de novo, a tentar novas saídas. Claro que as críticas, no fundo, serão bem vindas, na medida em que me derem combustível para a reflexão, para o debate. Estas críticas literárias, nesse nível, vão alimentar o meu processo criativo. As críticas de quem tem inveja ou daqueles que não entendem que o mundo é tão diverso, estas eu não farei o menor esforço de tentar entender.

Acho que tem um trecho de um texto da peça Escombros, que estou ensaiando, que cabe muito bem para essa pergunta. Diz a seguinte frase ”Os ignorantes são sempre céticos ao receberem novas informações.”

A: Como foi o lançamento do livro na Bienal do Rio? Este lançamento contribuiu para a repercussão do livro?

LD: Esta foi minha primeira experiência numa feira internacional do livro. Sou muito crítico em relação aos textos que escrevo. E pelo fato de estar numa feira internacional, onde haviam muitos artistas, escritores famosos e muitos livros sendo lançados ao mesmo tempo, me deixou pior ainda! Achei que não apareceria ninguém no coquetel do lançamento e me surpreendi quando meu assessor me avisou que todos os livros tinham sido vendidos.

Fiquei com a mão cansada de tanto autografar, mas no fim do dia, apesar do cansaço, eu estava feliz pela repercussão que o livro tomou.

A: Como foi escrever um romance sobre um gay sendo um heterossexual?

LD: No início, quando resolvi metamorfosear a personagem principal de uma garota para um garoto imaginei que viessem comentários que pensassem ou afirmassem que eu era gay. E foi o que aconteceu. Mas isso não tem importância, pois acredito que todos somos iguais, independente de raça, orientação sexual, religião, ou classe social. Não sou gay, mas tenho amigos gays, o que me ajudou a desenvolver o personagem.

A: E os planos a partir de agora? Tem algum livro no forno?

LD: Estou me dedicando ao teatro, ensaiando a peça Escombros, que entra em cartaz em janeiro. Mesmo assim, reservei um tempinho para escrever a minha segunda obra, que teve seis meses de trabalho. Provisoriamente se chamará Morte, Paixão e Mistério em Rainy City. Este livro conta a história de uma cidade fictícia, onde se esconde um psicopata colecionador de olhos, dando um clima denso à vida de Clarissa e Apolo, dois irmãos de pai e mãe que se apaixonam perdidamente.

Mas isso não é tudo… Estou agora na minha terceira criação literária, que também tem um nome provisório de Narciso Monarazo – A biografia de um Garoto de Programa. O livro conta a história de um adolescente que faz programa pela primeira vez acidentalmente. Acaba gostando da experiência, por ser com uma pessoa pela qual ele se sentiu atraído. Pensando que dali em diante seria tão fácil como a primeira vez, ele se envolve com outras pessoas e entra para a prostituição. Então, o rapaz percebe que não era bem o que ele pensava e que sair daquela vida não é tão fácil como imagina. O garoto vai se afundando ainda mais e a situação piora quando ele comete um crime sem querer. Daí ele perde-se no mundo das drogas, tornando a saída da prostituição ainda mais difícil. Neste livro não pouparei palavras, muito menos cenas de sexo que serão contadas de forma grotesca e podre, relatando os segredos mais ardentes e dissimulados de cada personagem. O livro contará com um diálogo jovial, já que a história é composta por adolescentes. Acho que esse será mais denso e polêmico do que o Diário de Rafinha.

A: Em algum de seus livros você trata de experiências pessoais?

LD: Houve uma fase na minha vida em que eu me sentia confuso pelo fato de ter que parar de estudar e começar a trabalhar, enquanto meus amigos dormiam até tarde e saíam para se divertir. Isso me deixava um pouco mal e comecei a ter distúrbios de rebeldia, discutindo com meus pais e os desobedecendo em tudo.

Essa foi uma das características que tirei de mim e adicionei ao Rafinha. Assim também como a rivalidade que criei entre ele e o Olavo foi resultado de uma experiência que tive no colégio. Andava brigando com um colega de sala e levamos essa antipatia até o fim do curso, mas nada comparado à rivalidade dos dois personagens (risos)… A minha era só briga de colégio mesmo.

A: Após ler Diário de Rafinha e ver as sinopses de seus novos livros me chamou a atenção a atração que você tem pela polêmica, e que seus livros têm algo meio de thriller. Você poderia falar um pouquinho sobre isso?

LD: Acredito que cada escritor tem uma marca, cada artista opta por um assunto a ser tratado, e eu opto pela polêmica e as histórias não convencionais.

Tanto no teatro, na literatura ou mesmo na passarela gosto de inovar, criar, ousar, despertar no público uma emoção, passar pra ele uma mensagem através da minha arte, causar sentimentos de indignação ou aceitação. Acho que se todo mundo cantasse, interpretasse e pintasse do mesmo modo, aí não seria mais arte, porque arte pra mim é inovar, derrubar padrões e tabus e despertar no público emoções que só podem ser despertadas através da arte.

Quanto ao thriller, realmente é uma característica de minhas obras. Tenho paixão e gosto das coisas diferentes e às vezes até um pouco macabras; adoro assuntos que tratem da mente do ser humano, da loucura. Aliás, este tema vai estar muito presente no segundo livro, pois gosto de contar sobre do que muita gente é capaz de fazer para alcançar seus objetivos. Personagens assim estão presentes nos meus três livros. Claro que lapidando, exagerando um pouco e às vezes dando uma dosagem menor para que não fique repetitivo nem contando histórias já contadas. Como sempre, fugindo do convencional!

Clique aqui pra ver o blog do Léo Dragone.

(Publicado na Revista Aimé número 11 – abril/2010. Você pode ver a revista completa aqui)

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