Revista Aimé

Cinema e Literatura na Aimé 10

Cinema

O glorioso Tarantino

Neste mês, as salas de cinema brasileiras acomodarão duas estreias do diretor pop-cult norte-americano Quentin Tarantino: Bastardos Inglórios – que é recebido em terras tupiniquins dois meses após a estreia mundial, em agosto – e À prova de morte, que chega por aqui com pelo menos dois anos de atraso.

À prova de morte, um agregado de referências aos filmes B da década de 1970 – dos quais Tarantino é grande herdeiro e admirador -, tem no elenco dublês de cinema reais nos papeis principais, ao lado de um Kurt Russell fantástico em seu personagem asqueroso. Com uma trilha sonora impecável (como sempre), Tarantino transforma o kitsch e o trash em uma obra-prima imperdível.

Diálogos extensos e cheios de ironia, piadinhas inevitáveis e, claro, muito sangue – marcas registradas do diretor de Pulp Fiction (1994) e Kill Bill I e II (2003 e 2004) – estão presentes tanto em À prova de morte quanto em Bastardos Inglórios. Em seu mais novo lançamento, que traz Brad Pitt como protagonista (Leonardo DiCaprio chegou a ser cotado para o papel), Tarantino fez a maior bilheteria de sua carreira durante uma estreia mundial. O filme ainda resgata Christoph Waltz – que foi escolhido para o papel por falar fluentemente sete idiomas – como o vilão da história, e rendeu a ele o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Cannes deste ano.

A trama que se desenrola durante a ocupação alemã da França foi descrita por Brad Pitt como o melhor filme sobre a Segunda Guerra feito nos últimos tempos. O galã até gerou polêmica ao compará-la com a película estrelada por Tom Cruise no ano passado, Operação Valquíria (2008), referindo-se a ela como “ridícula”.

É quase impossível não concordar com Brad Pitt – afinal, não havia melhor cenário como a Segunda Guerra para Tarantino imprimir em celulóide aquilo que ele acha mais belo para ser filmado: a violência.

À prova de morte (Death Proof). Direção: Quentin Tarantino. EUA. 2007. 113 minutos.

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds). Direção: Quentin Tarantino. EUA. 2009. 148 minutos.

Encontros e desencontros

“Eu não entendo como uma mulher pode sair de casa sem se arrumar um pouco – mesmo que por delicadeza. Depois, nunca se sabe, talvez seja o dia em que ela tem um encontro com o destino. E é melhor estar tão bonita quanto for possível para o destino”. Coco Chanel (1883-1971), autora desta frase, teve um encontro com o destino. Não se sabe se ela estava arrumada ou não – entretanto, Chanel tornou-se uma das grandes figuras do século passado por preparar mulheres para seus enlaces com o famigerado destino.

De pobre órfã do interior da França – passando por cantora de cabaré e costureira submissa – aos holofotes da Cidade Luz e do mundo, a estilista francesa tem mais de 40 biografias publicadas pelo planeta. No fim de outubro, uma cinebiografia traz a saga da mulher mais revolucionária do mundo da moda e dos papeis femininos antes de sua fama e consagração: Coco antes de Chanel.

A diretora Anne Fontaine, encantada pela saga de Chanel, escolheu a atriz Audrey Tatou (por vezes mais conhecida como “Amélie Poulain”), outra admiradora da estilista, para personificar a ainda desconhecida Gabrielle Chanel na primeira metade de sua vida. A experiência de viver intensamente o século XX, os numerosos amores que deram os primeiros impulsos financeiros e sempre influenciaram em suas criações, e os amigos notáveis como Cocteau, Picasso e Stravinsky (cujo romance deu origem a outro filme que estreia ano que vem no Brasil, Coco e Igor) fazem parte da extensa trajetória da francesa, para quem “a lenda é a consagração da celebridade”.

Coco Chanel com certeza estava bem arrumada em seu encontro com a ventura.

Coco antes de Chanel (Coco avant Chanel). Direção: Anne Fontaine. França. 2009. 110 minutos.

O desejo como lei

Uma hipnotizante Penélope Cruz de peruca loura encara quem olha o cartaz de Abraços partidos (Los abrazos rotos), último filme de Pedro Almodóvar, que chega ao Brasil em 20 de novembro. A atriz fetiche (que sucede a Carmem Maura e Victoria Abril) do cineasta espanhol tem novamente papel de destaque em uma trama que, ao melhor estilo almodovariano, relata turbulentas relações amorosas – combustível para a maioria das narrativas do ousado cineasta.

Pedro Almodóvar Caballero, 58 primaveras, nunca dispensou o desejo como condutor de suas histórias. As obsessões e a sensualidade estão presentes em seu trabalho desde seus primeiros passos como cineasta, quando partiu – sozinho e sem dinheiro – do interior da Espanha para a efervescente Madri da virada dos anos 60 para a década de 70. Após anos fazendo bicos e trabalhando na companhia telefônica nacional, Almodóvar comprou sua primeira câmera Super-8 e começou a fazer despudorados curtas experimentais, tornando-se um dos protagonistas da La Movida, movimento de contracultura pop que fez o mundo prestar atenção à capital espanhola, que à época se despia da ditadura de Franco. Ao lado de seus filmes, Almodóvar ainda desenhava, escrevia e atuava, além de cantar travestido de mulher na banda de rock Almodóvar e McNamara. Porém, o espanhol só alcançou o reconhecimento com seu sétimo longa, Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), que sucedeu a Pepi, Luci e Bom (1980), Labirinto de paixões (1982), Maus hábitos (1983), Que fiz para merecer isto? (1984), Matador (1986) e Labirinto de paixões (1987) – os quais já traziam as características que se tornariam onipresentes em toda a obra do diretor, como a espontaneidade de seus personagens, as cores berrantes, o entrelaçamento dos destinos, a mescla entre comédia e melodrama e a habitual polêmica que se cerca dele a cada lançamento. Hoje, Almodóvar é o maior representante do cinema espanhol contemporâneo, e já se inscreveu na história da sétima arte do país ao lado de Luís Buñuel e Carlos Saura, sendo também o primeiro espanhol a ser indicado – e vencer – o Oscar.

Com um forte componente autobiográfico que permeia suas películas – o diretor já declarou que toda a sua vida está em seus filmes -, Almodóvar lida com a homossexualidade com uma naturalidade singular, sem a pretensão de buscar um cinema engajado. As fortes presenças femininas também se destacam em seus roteiros – segundo o cineasta, as mulheres são muito mais interessantes que os homens em suas reações, e Almodóvar delicia-se ao observá-las, alimentando-se da realidade para construir suas marcantes personagens. Além disso, ele declara que os homens o fazem pensar em coisas mais trágicas, enquanto as mulheres o levam a ideias mais tranquilas e, por vezes, cômicas – coisa que nunca acontece tratando-se do sexo masculino.

Ata-me! (1990), De salto alto (1991) e Kika (1993) precedem uma ruptura na filmografia de Almodóvar, que a partir de A flor do meu segredo (1995) adquire um tom mais sóbrio e deixa um pouco de lado sua verve extremamente picante – porém, sem abandonar as paixões avassaladoras de seus enredos. Carne trêmula (1997), Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002), Má educação (2004) e Volver (2006) possuem toques mais moderados e contemplativos, onde se investigam temas como a mágoa e a perda.

Los abrazos rotos insere-se nessa linha menos extravagante – porém, não menos irresistível – do espanhol, que ainda faz do calor da cor e do desejo ilimitado os grandes protagonistas de seus filmes.

Literatura

Redescobrindo Gide

No longínquo início do século XX, André Gide (1869-1951) chamava a atenção quando entrava em qualquer lugar. Com um chapéu de aba larga enfiado na cabeça e um sobretudo sujo que deslizava de seus ombros, era impossível não colar à sua figura extravagante o papel de pensador revolucionário. Entretanto, Gide era realmente e intensamente um pensador revolucionário. Autor de mais de sessenta obras de ficção, poesia e teatro, nas quais era constante um engajamento resoluto que questionava fortemente as convenções morais e religiosas, Gide inscreve-se hoje (infelizmente) entre os grandes esquecidos da literatura francesa. Há mais de 20 anos os livros do escritor não são editados no Brasil – com exceção da publicação de Se o grão não morre, em 2004 -, levando-nos à busca de exemplares perdidos nos sebos aqui e ali. Porém, o resgate do autor pela Editora Estação Liberdade traz algumas obras imperdíveis às livrarias nos próximos meses: O pombo torcaz, Os porões do Vaticano, Os moedeiros falsos e Diário dos moedeiros falsos.

Gide viveu numa época em que o mundo desmantelava-se – passou pelas revoluções trazidas pela vida moderna na virada do século XIX para o XX e pelas guerras mundiais -, e seguiu um percurso no qual a vida sempre se confundiu com a realização de sua obra: viver, para ele, passava necessariamente pela escrita. Gide precisava escrever para existir, para progredir, e para estabelecer e compreender sua identidade inconsistente e em permanente metamorfose. Numa incessante busca por uma linguagem e uma expressão próprias, Gide atirou-se numa luta política e privada pela liberdade. Recusando a moralidade e o puritanismo, o francês envolveu-se com questões políticas e religiosas, sem contar que soube afirmar, defender e ilustrar a causa da homossexualidade em muitos de seus livros e ensaios. As aspirações à liberação de sua sexualidade estão presentes com frequência em sua extensa obra, com destaque para O Imoralista e Corydon, que iniciaram a revelação de uma homossexualidade assumida e vivida na felicidade. O Imoralista (1902) retrata as buscas homoeróticas e existenciais de um personagem (que é, de certa forma, o próprio Gide) que se satisfazia sexualmente com garotos que conhecia no continente africano. Corydon, de caráter mais ensaístico, foi publicado em 1924 e trazia textos escritos por Gide desde 1910, os quais continham diversos testemunhos (de naturalistas, historiadores, filósofos, entre outros) para suportar o argumento do autor de que a homossexualidade existia nas civilizações culturalmente e artisticamente mais avançadas (como a Grécia Antiga e a Renascença Italiana), sugerindo que a homossexualidade seria mais fundamental e natural que a heterossexualidade, a qual se constituía apenas como a representação social de uma união.

O conto O pombo torcaz, que em outubro dá a largada para os lançamentos da Estação Liberdade, era inédito também na França até pouco tempo, quando a filha do autor encontrou os originais e resolveu publicá-los, após hesitar devido à franqueza com que Gide aborda uma de suas experiências homossexuais: a noite repleta de momentos de êxtase que passou com um jovem em1907. A categórica descrição do encontro pode ter sido o motivo pelo qual Gide tenha mantido o manuscritoem segredo. Porém, a presença de um erotismo delicado, ligado mais ao olhar que ao toque (característica importante da obra do escritor, permeada por um desejo sempre de caráter ambíguo), faz do conto um de seus relatos mais líricos. Uma ótima oportunidade para redescobrir (ou descobrir) a obra deste revolucionário em inabalável busca pela liberdade.

O pombo torcaz. Autor: André Gide. Editora Estação Liberdade

O amor segundo Trevisan

Para João Silvério Trevisan, amar é a maior experiência da alma humana. Escritor, dramaturgo, roteirista de cinema e um dos fundadores do movimento homossexual brasileiro, em 1978, Trevisan buscava (e busca) enfrentar uma sociedade que não o permitia amar do jeito que lhe apetecia, e ao qual ele tem direito. “A militância me parecia a única forma de lutar pelos meus direitos enquanto homossexual. Por motivo semelhante integrei a criação do Lampião da Esquina [jornal da imprensa alternativa destinado ao público gay que circulou durante a ditadura], na mesma época. Militância para mim é extensão da forma de amar. Se ela vira profissionalismo, é sinal de que alguma coisa vai mal. Aí eu estou fora. Como tenho estado fora de qualquer grupo, há muito tempo. Mas nem por isso abdico da minha participação na luta contra a homofobia. Lutar pelo meu amor é parte da minha maneira de amar”, afirma o literato que não se considera um líder gay (como muitos insistem), e sim um estudioso da homossexualidade apaixonado pelo amor. Autor de Devassos no Paraíso, ensaio que é considerado uma “bíblia” da homossexualidade no Brasil, Trevisan abriu caminho para o campo de estudos queer, que conta hoje com inúmeros pesquisadores em terras brasileiras. “A primeira edição de Devassos no Paraíso saiu em 1986 e foi impactante porque oferecia um painel inédito da história da homossexualidade no Brasil, revelando um país desconhecido, para não dizer oculto. Essa função se completou com a reedição revista e atualizada no ano 2000, depois do livro ter ficado esgotado por mais de uma década”, diz o escritor, explicando que o livro não esgotou o tema, mas trouxe novas perspectivas.

Rei do cheiro, lançado no mês passado, vem somar-se à extensa obra de Trevisan, que ficara 12 anos sem publicar ficção após ser galardoado com três prêmios Jabuti e dois prêmios APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). O novo romance de João Silvério é permeado pela reflexão, com um estilo que aproxima a literatura da ensaística e extravasa a contenção ficcionista, característica frequentemente presente em seus livros. Considerado pelo autor um romance duro, que ele descreve como um pesadelo brasileiro, Rei do cheiro pretende responder à pergunta: “como nasce uma grande fortuna?”. “Eu queria fazer um romance sobre as novas elites do país, aquelas que surgiram durante o ‘milagre brasileiro’ da ditadura militar. Nós sabemos que esse é um mundo do vale-tudo. Elaborei a história de um empresário da indústria da perfumaria de São Paulo, nascida a partir da reserva de mercado, no mesmo período. O romance é habitado por políticos, empresários, religiosos, artistas, sindicalistas e intelectuais que compõem as elites contemporâneas do Brasil. Termina com o ataque do PCC em 2006, como resultado do desvirtuamento do sonho brasileiro, tornado pesadelo”, narra Trevisan.

O livro é um projeto que se estende há 20 anos, entre muitos outros planos do escritor, que conta sobre suas (inúmeras) próximas novidades: “Quarto escuro é um projeto de romance em andamento, no qual quero juntar inúmeras histórias da minha experiência no meio homossexual, com suas alegrias e suas dores. Costurando a trama, há uma história de amor sadomasoquista – prefigurando a realização do amor ali onde ele parece impossível. Também tenho escrito vários roteiros para cinema. E elaboro lentamente outro projeto de romance sobre uma mulher que tenta sobreviver à sua velhice, na grande cidade. Chama-se Dias e noites de Justina. Não tenho problema em ir tomando notas tudo ao mesmo tempo!”.

Nessa permanente atividade, João Silvério considera seu ofício uma forma de salvação. “A Poesia (o conceito estético, não o gênero literário) tem potencial explosivo de resgate por compartilhar, na psique humana, o mesmo território do sagrado e da sexualidade, ou seja, um espaço de liberdade que transcende as amarras do ego. Nesse espaço é que o mistério da pessoa se realiza plenamente, com suas fantasias imensas, sua criatividade incontrolável e sua vocação para o infinito. A Poesia nos torna visionários: um pequeno instante de transfiguração pode nos levar para um mundo de ilimitada beleza”, declara um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, que depositou em sua obra a maior experiência da alma humana.

Rei do cheiro. Autor: João Silvério Trevisan. Editora Record. Páginas: 320. Preço: 47,90.

(Publicado na Revista Aimé 10 – janeiro/2010. Você pode ver a revista completa aqui)

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